Capítulo Nove — Onde o Corpo Trai o Medo

538 Words
A casa estava em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Era carregado. Helena ainda sentia a mão de Miguel na sua, mesmo depois de terem se afastado alguns centímetros. Não era distância suficiente para esfriar. Nem perto disso. — Você percebe o que está fazendo comigo? — ela perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. Miguel engoliu em seco. — Todos os dias — respondeu. — E é exatamente por isso que estou tentando não ultrapassar o que você ainda não decidiu. Ela soltou uma risada curta, nervosa. — Meu corpo já decidiu faz tempo. Ele levantou o olhar imediatamente. — Helena… — Não me olha assim se não pretende lidar com o que provoca — ela disse, aproximando-se mais um passo. — Você entra na minha vida, vira tudo de cabeça pra baixo… e espera que eu finja normalidade? Miguel passou a mão pelos cabelos, claramente lutando contra si mesmo. — Eu estou tentando te respeitar. — E eu estou tentando não implorar para você parar de ser tão contido agora. O ar entre eles ficou denso. Miguel tocou o braço dela, primeiro com cautela, como quem pede permissão sem palavras. O toque deslizou lentamente até a mão. Os dedos se entrelaçaram. Helena fechou os olhos. — Se você continuar… — ela murmurou. — Eu sei — ele respondeu, aproximando o rosto do dela. — Não vai ter volta. — Talvez eu não queira voltar. As testas se encostaram. As respirações se misturaram. Miguel sentiu o corpo dela reagir antes de qualquer beijo existir. — Me diga para parar — ele pediu, num tom quase quebrado. Helena abriu os olhos. — Fica. Foi o suficiente. Miguel a puxou com cuidado, mas com necessidade. O abraço foi firme, intenso, como se os dois estivessem se segurando para não cair. O rosto dele se enterrou no pescoço dela por um instante, respirando fundo. — Eu senti sua falta de um jeito que não sei explicar — ele confessou. — Não foi só saudade. Foi vazio. Helena segurou a camisa dele com força. — Eu odiei você por ter ido embora… — disse. — Mas me odiei mais ainda por nunca ter deixado você ir de verdade. Miguel afastou o rosto só o suficiente para encará-la. — Olha pra mim. Ela olhou. O beijo não foi urgente. Foi contido demais para quem estava à beira do limite. Lento. Profundo. Carregado de tudo o que eles tinham negado por tempo demais. Quando se afastaram, as testas voltaram a se tocar. — Isso muda tudo — Helena disse, ofegante. — Não — Miguel respondeu. — Isso só confirma. Ela sorriu, emocionada e assustada ao mesmo tempo. — Eles não vão parar — disse. — Eduardo, os aliados… a pressão. — Eu sei. — E mesmo assim você fica? Miguel segurou o rosto dela com as duas mãos. — Eu fico. — Pausa. — Mas só se for com você escolhendo também. Helena respirou fundo. — Então fica. A casa estalou novamente, como se reagisse à decisão. Lá fora, a noite seguia indiferente. Mas dentro daquele espaço, dois corpos e dois corações já tinham cruzado um ponto onde fingir não sentir era impossível. E agora, o mundo teria que lidar com isso.
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