Capítulo Onze — O Que Se Perde Para Permanecer

641 Words
A carta chegou pela manhã. Não foi entregue em mãos. Não houve delicadeza. Apenas um envelope pardo, deixado sobre a mesa da sala como se fosse mais um objeto comum — quando, na verdade, carregava o peso de um fim. Helena soube antes mesmo de abrir. — É isso — murmurou, segurando o papel com os dedos trêmulos. Miguel estava encostado na porta, observando cada pequeno movimento dela. — O que diz? Ela respirou fundo e abriu o envelope. Leu em silêncio. Uma linha. Depois outra. Depois nada. O ar pareceu faltar. — Eles me afastaram — disse, finalmente. — Oficialmente. Miguel se endireitou. — Afastaram de quê? — Da fundação. Do conselho. — Ela engoliu em seco. — “Até que a situação pessoal seja considerada estável.” O silêncio que caiu foi pesado demais. — Estável… — Miguel repetiu, com amargura. — Como se sentimento fosse crime. Helena sentou no sofá devagar, como se o corpo tivesse ficado pesado demais para sustentá-la. — Era o último vínculo direto com meu pai — disse. — O último lugar onde eu ainda sentia que… pertencia. Miguel se aproximou, ajoelhando à frente dela outra vez. — Me olha. Ela hesitou, mas obedeceu. — Isso não define quem você é — ele disse, com firmeza. — Define o medo deles. Ela riu fraco. — Eu perdi meu cargo, Miguel. Meu nome está em todos os lugares da pior forma possível. — E ainda assim você está aqui — ele respondeu. — Inteira. Ela balançou a cabeça. — Não. — A voz falhou. — Estou cansada. Miguel tocou o rosto dela com cuidado, como se cada gesto precisasse ser pensado. — Então descansa em mim — disse baixo. — Só hoje. Ela fechou os olhos, encostando a testa no peito dele. — Isso é egoísmo? — perguntou. — Querer ficar quando tudo grita pra ir embora? — Não. — Ele respirou fundo. — Egoísmo é te obrigar a escolher sozinha. O celular de Helena vibrou novamente. Ela não queria atender. Mas atendeu. — Helena — a voz do advogado soou do outro lado. — Precisamos conversar. Eduardo entrou com um pedido formal. Miguel sentiu o corpo dela enrijecer. — Pedido de quê? — ela perguntou. — De tutela provisória sobre a casa. — Pausa. — Alegando influência emocional prejudicial. Helena fechou os olhos. — Ele quer tirar a casa de mim. — Ele quer provar que você não é capaz de decidir — o advogado respondeu. — Precisamos nos preparar. Isso vai virar um processo. Ela desligou. O silêncio voltou, mais c***l. — É isso — ela disse. — Agora é oficial. Miguel respirou fundo, controlando algo que ameaçava explodir. — Ele quer guerra. — E você? — ela perguntou, erguendo o olhar. — Até onde vai comigo? Miguel segurou o rosto dela com as duas mãos. — Até onde você me permitir ficar. — Mesmo que eu perca tudo? — Mesmo que você perca tudo — ele respondeu. — Porque o que estão tentando tirar não é a casa. É sua autonomia. Helena sentiu as lágrimas caírem, sem tentar impedir. — Eu nunca pensei que escolher você significaria perder tanto. Miguel encostou a testa na dela. — E eu nunca pensei que te amar significaria aprender a esperar… a respeitar… a não te salvar à força. Ela sorriu entre lágrimas. — Talvez seja isso que nos fortaleça. Ele a puxou para um abraço firme, silencioso. Não houve pressa. Não houve urgência. Apenas permanência. — Fica comigo hoje — ela pediu, quase num sussurro. — Eu fico — ele respondeu. — Mas amanhã… vamos lutar. Ela assentiu. A casa estava ameaçada. O nome dela, em risco. O amor, exposto. Mas ali, naquele instante, dois corpos se sustentavam sem precisar provar nada ao mundo. E, às vezes, é exatamente isso que mantém tudo de pé.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD