Episódio sem título

1909 Words
Olá, amores! Hoje tenho uma reclamação a fazer: Cadê os comentários???? Eu estou carente, gente, cadê o carinho de vcs, comentando o livro novo? Eu pretendia ficar um mês sem postar, para escrever bastante e talz, mas não consigo. Estou relendo tudo para saber o que escrever e usar o passado, por isso dá muito trabalho. Mesmo assim, não aguento esperar hehe BJKS! Ps: Leiam os meus outros livros, comentem muito e mandem bilhetes lunares para este aqui, para eu conseguir o contrato, tá bom? BJKS de novo! ***** A porta fechou e levou a luz externa consigo. Na escuridão daquele cômodo abafado, Noah estava caido no chão, o corpo convulsionando ao voltar a forma humana. Apesar da forma e de sua nudez, não parecia um homem, mas o que sobra quando a dor corrói um homem por dentro e deixa só a personificação da angústia. Virou de barriga para cima, o corpo parecia um campo de guerra. Hematomas roxos, arranhões fundos que ele mesmo tinha cavado na pele, como se tentasse arrancar o luto à unha. As veias do pescoço estavam negras, subindo até a mandíbula travada. E os olhos... um misto de vermelho e ouro derretido, líquido, sem uma fagulha de sanidade. Ele me sentiu antes de ver. A cabeça virou na minha direção num estalo seco, de predador. O ar entre nós vibrou com o rosnado que ele emitiu e senti nos ossos. — Você não deveria ter voltado, humana! — A voz dele era mais lobo que gente. — Sinto o cheiro do seu medo. O meu instinto gritou pra recuar, pra me jogar contra a porta e implorar pra sair. Mas a filha dele tinha trancado por fora. Eu me sentia uma isca, e isca não escolhe a hora de ser devorada. Noah ergueu o corpo devagar, grunhindo a cada movimento. Estava nu, exposto, pedaços de carne e sangue estavam espalhados pelo chão. O cheiro era de túmulo, ou seria a minha imaginação? — Fica longe de mim — ordenei quando ele deu um passo na minha direção. A firmeza na minha voz me surpreendeu. Não veio de coragem. Veio de desespero. — Se você encostar em mim, eu não poderei te ajudar. Mentira deslavada. Eu não sabia ajudar nem se ele ficasse amarrado. Mas precisava de distância. Precisava de ar que não estivesse contaminado com cheiro de sangue e morte. Ele riu. O som saiu quebrado e morreu num rosnado que arrepiou cada pelo do meu corpo. Seus olhos vermelhos me encararam e ele expôs os dentes afiados. A minha respiração travou, uma gota de suor escorreu pelo meu rosto frio de pavor. — Ajudar? — Ele deu outro passo. A madeira velha do piso gemeu. — Minha companheira está morta. Meu filhote está morto. Carne podre no chão, viraram comida de verme. O que uma humana pode fazer além de sangrar pra mim? Outro passo. E outro. Eu recuei até bater as costas contra a porta trancada. A maçaneta gelada pressionou minha lombar. Sem saída. Sem truque. Sem a menor chance contra aquela criatura. — Alfa Noah — usei o nome dele como arma. Nome de homem pra lembrar o monstro quem ele era. — A sua filha me trouxe aqui porque, quando toquei a sua barriga e falei contigo. a dor diminuiu. Lembra? “Continue falando, humana.” Ele parou por um piscar de olhos. A menção do que aconteceu horas antes cortou a névoa vermelha do luto. Um fio de lucidez. Ele sacudiu a cabeça, como se espantasse algo da mente, aí a dor voltou. Pior, como vingança. Ele urrou. Não foi um uivo comum de sua espécie. Foi o som de um coração sendo rasgado ao vivo. Dobrou-se ao meio, os joelhos batendo no chão com um baque surdo. As garras saíram por completo, dez facas afiadas que ele cravou no próprio peito. Sangue novo escorreu, misturando-se ao seco. — Noah! — Meu corpo se moveu antes do cérebro. Me joguei de joelhos na frente dele, imprudente, burra demais para me aproveitar de sua fraqueza. — Olha pra mim!— Agarrei o rosto dele com as duas mãos. A pele queimava. Febre de luto. Os caninos tinham descido completamente, roçando na base da minha palma. Um movimento errado da cabeça dele e eu perdia a mão.— Respira fundo, Noah!— mandei. A mesma ordem de antes. A única que funcionou. — Foca na minha voz. Só na minha voz. Esquece o resto. Os olhos dele rolaram, desfocados. Ouro líquido lutando contra o breu total do lobo descontrolado. — Dói tanto, humana!— ele engasgou. A palavra humana, pequena demais pra dor que ele carregava. Uma lágrima de sangue riscou o rosto dele, saindo do canto do olho. — Tudo dói. Ela se foi. Ele se foi. Por que eu fiquei? Por que não morri com eles? O peito dele sacudia em espasmos violentos. O monstro queria sangue pra calar o vazio. O homem só queria o direito de seguir quem amava. Lembrei do hematoma, quando olhei para o seu ventre, estava ainda mais escuro. Soltei o rosto dele e, devagar, pra ele ver cada movimento, coloquei a palma aberta na barriga dele.. A única coisa que tinha funcionado antes. O corpo dele inteiro retesou. Enfiei a mão na bolsa e retirei um objeto. Ele fechou os olhos e esperou o ataque que não veio. — Porque sua filha ainda está aqui, Noah. — sussurrei. — E se você se perder agora, ela fica sozinha. Igual eu fiquei a vida toda. E ninguém merece essa merda de solidão. Injetei o tranquilizante nele. Dessa vez, não para fazê-lo dormir, mas apenas para acalmá-lo. O efeito foi instantâneo. A respiração dele se acalmou, puxou o ar fundo e expirou devagar. . O peito dele subiu e desceu uma vez, o sangue escorria dos ferimentos. — Preciso cuidar dessas feridas, não está cicatriando com a velocidade comum à sua espécie. Limpei as feridas, costurei devagar, pois as minhas mãos não paravam de tremer. Passeri ataduras e em torno do seu peito, para proteger a sutura. Ele me observava calado, enquanto eu fazia o possível para mantê-lo com vida. — Um lobo solo é um lobo amaldiçoado, humana. Talvez… — Não fale em morte. Tem pessoas que se importam com você. Além disso, soube que o filho do alfa do clã vizinho é um nascido solo e encontrou uma companheira em uma Ômega. Cansada, sentei no chão ao lado dele. Ele puxou a minha mão de volta para o seu ventre. Quando nossas peles se tocaram, ele gemeu baixinho. — O que você é? — Ele perguntou de olhos fechados/ — Do que está falando? — O seu toque faz a dor- Lá fora, a filha dele esmurrou a porta como se quisesse derrubar.— Pai? Está tudo bem?Me responde! — Ele está bem, Mila. — Respondi olhando para a porta. Quando voltei a encará-lo, notei que ouro de seus olhos se apagou, um circulo vermelho envolvia o preto de sua natureza. O lobo não gostou de ser interrompido ou não gostou de dividir atenção? Ele foi rápido demais. Um segundo eu estava no chão, no outro a mão dele estava no meu pescoço.Não apertou pra matar. As suas garras roçavam na minha jugular, sem perfurar. Ele levantou e me ergueu como se eu fosse feita de papel e minhas costas bateram na parede com força suficiente pra tirar todo o ar dos meus pulmões. O mundo girou ao meu redor. A parede gelada contrastava com a mão dele em meu pescoço, quente, emanando a sensação de lava pela minha pele. Ele enterrou o nariz na curva do meu pescoço seguiu me cheirando até encontrar o corte que a filha dele tinha feito. Inspirou fundo duas vezes. O peito dele roncava contra o meu, vibração de trovão preso numa jaula de costelas. — Sangue — ele rosnou, a voz deformada vibrando na minha pele. A língua dele roçou no filete de sangue seco. A mão livre dele subiu pela minha cintura. Não era carinho, era avaliação. Dedos calejados contando minhas costelas por cima da blusa, medindo o quão fácil seria quebrar. — Está ferida! — Ele exclamou usando meu corpo como interrogatório. A maçaneta atrás de mim tremeu. — Pai, responde! Se essa humana te fizer algum m*l, eu vou matá-la! O barulho de chaves, ela estava abrindo a porta. Se ela entrasse agora, com as garras dele no meu pescoço, será que ele me mataria? — Eu não sou uma ameaça, Noah — sussurrei. Controlei cada tremor na voz. Se ele sentisse pânico, atacava. — E você não é um assassino. Creio que errei na escolha das palavras.“Assassino” foi faísca na pólvora. Ele me encarou com ódio e a mão no meu pescoço apertou. — Minha companheira morreu! — ele rugiu, o som saindo de dentro da alma e explodindo no meu ouvido. — Meu filho morreu! O que me impede de te matar agora, humana? Os caninos dele desceram, encostando na minha jugular. Um grama de pressão a mais e eu virava passado. Fechei os olhos. Se era pra morrer, não ia ser implorando. Ele cheirou o meu pescoço novamente, o lobo no controle do humano. A respiração dele parou. O corpo inteiro parou. Congelou com as garras na minha vida. Tremendo, ele afrouxou o aperto o suficiente pro ar voltar a rasgar minha garganta. Ele me soltou como se eu queimasse. Recuou três passos, cambaleando, e bateu as costas na parede oposta. Caiu de joelhos no chão, as mãos foram direto pra própria cabeça, dedos afundando no cabelo, como se quisesse arrancar o lobo pra fora do crânio. — Sai — a ordem veio rouca, estilhaçada. Ele não olhava pra mim, encarava o chão, o corpo inteiro tremendo no esforço absurdo de não avançar de novo. — Sai de perto de mim, humana. Agora! — Pai! — O grito da filha ecoou naquele cõmodo sombrio. Ela olhou dele para mim, então para ele novamente. Noah ergueu a cabeça, seus olhos ainda eram ouro febril, mas o vermelho da loucura tinha recuado pra borda. Ele ainda estava lá. — Você me ouviu — ele rosnou, cada sílaba um caco de vidro na garganta. — Sai. Antes que eu mude de ideia. Não era ameaça, era súplica. Era um homem implorando pra eu correr antes que o monstro ganhasse. Eu devia obedecer, as minhas pernas deviam correr, mas fiquei. .Porque no olho dele, por trás da fúria, eu vi outra coisa: Alívio. Doía menos me deixar ir, pois ele tinha mais medo do que queria fazer comigo do que do que eu podia fazer com ele.A filha bateu na porta de novo. O som quebrou o feitiço. A filha dele me agarrou pelo braço, os olhos dela selvagens, procurando sangue. — O que aconteceu aqui? — ela vociferou. Não respondi. Passei por ela, as pernas bambas, e só quando a porta bateu entre nós eu deixei meu corpo lembrar como se respirava. Olhei pra baixo, as minhas mãos tremiam manchadas com o sangue dele. Pela primeira vez desde que entrei naquela alcateia, não era só medo que eu sentia. Era respeito. Porque um lobo a beira da loucura, com a morte da companheira rasgando ele por dentro, escolheu sangrar sozinho a me matar. E eu não sabia o que era mais perigoso: o monstro que ele quase foi... ou o homem que ele revelou ser pra me deixar viver.
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