6-32 Ruby

1255 Words
— Oi. — Sorri fraco enquanto caminhava até a cozinha vendo Raquel. — Oi. — Ela devolveu o sorriso desprendendo a atenção da mesa e focando em mim. — Ele dormiu? — Sim. — Tem lasanha no microondas, fique a vontade. Pode pegar mais alguma coisa na geladeira ou na dispensa se quiser. — Disse com o rosto entre as mãos suspirando em um murmúrio. — Posso dormir aqui hoje? — Cocei a nuca envergonhada intercalando meu olhar dos meus pés para ela. — Claro, Ruby. Fique o tempo que precisar, já imaginava que dormiria mesmo aqui. Raquel tirou as mãos do rosto e me encarou. Caminho até ela observando seu rosto e como suas expressões estavam tensas. Fui até o quarto mexendo em minha mochila e pegando meu frasco de comprimidos para dor dentro da mochila. Tiro um comprimido e levo um copo de água para Raquel que me olhou sem entender. — Para a sua dor de cabeça. — Expliquei e ela abriu a boca sem som entendendo. — Obrigada. — Ela pegou o comprimido e engoliu. — Dean vai acordar de madrugada morrendo de fome revirando a cozinha inteira. Coloquei comida no prato e sentei de frente para ela para comer. Meu cabelo estava úmido e o vento gelado da noite ajudava a deixar a minha temperatura refrescante. Dou uma garfada na lasanha e o queijo estica no garfo. — Você parece ser uma boa garota, seus pais não se importam que você passe a noite fora ou que suba o morro? — Raquel questionou me analisando. Eu já esperava por essa pergunta uma hora ou outra, era óbvio que ela iria querer saber mais sobre mim, mais cedo ou mais tarde. Mas sabe de uma coisa? Estou cansada de fingir. No final as coisas sempre vão dá errado mesmo, pelo menos eu fui sincera. — Não tenho pais. — Continuei encarando o meu prato normalmente enquanto comia. — Não? — Não a olhei, mas sei que franziu o cenho. — E quem é responsável por você? — Eu. Me cuido sozinha. — Finalmente a encarei, e algo estava diferente dentro de mim, eu sentia. Não tinha medo, só adrenalina. — Mas, Ruby… — Seu choque era fácil de notar enquanto ela falava. — Você é apenas uma criança, isso não está certo. — Bom, foi minha própria mãe que me expulsou de casa, literalmente. Então acho que vivo melhor sozinha do que com ela. — Dei de ombros enquanto comia. — E como você vive? Onde mora? Tenho tantas perguntas. — Eu trabalho, trabalhava, não sei. E também morava em uma boate, eu era garçonete e uma modelo. Tipo uma animadora de festa. A dona me dava o necessário, consegui sobreviver por dois anos. — Dei de ombros novamente. — Trabalhava? — Raquel ergueu a sobrancelha. — O que aconteceu? Por que não trabalha mais? Fiquei em silêncio travando o rosto enquanto encarava o prato e continuava comendo. — Ruby? — Raquel pedia para que eu falasse. — Ele não é seu filho de verdade, não é? Você é muito jovem para ser a mãe dele. — Tentei mudar de assunto atacando em um outro ponto. — Dean é meu sobrinho, a mãe dele era minha irmã e morreu no parto. Cuidei dele como meu filho, mas isso não vem ao caso. O que aconteceu? Deve ter sido algo realmente grave para que o Dean tenha surtado e você ter ido atrás dele daquele jeito. — A dona daquela merda queria me leiloar como uma garota de programa, e o Dean ficou sabendo. Pronto? — Levantei da mesa erguendo os braços irritada colocando de volta o prato na pia. — Você é garota de programa? — Ela questionou surpresa. Virei meu corpo na direção dela irritada com isso pela milésima vez, por que todos tem essa mania de me chamar de garota de programa? Eu não sou! — Não! — Resmunguei. — Tudo bem. Foi apenas uma pergunta. — Ergueu as mãos em sinal de rendição. — Desculpa. — Suspirei. — Está tudo bem. Você deve estar cansada. Ficamos em silêncio com aquele clima chato, as duas encarando pontos distantes totalmente desnorteadas. — O Dean gosta de você, e hoje percebi que você é uma garota forte apesar de ser apenas uma adolescente. Você enfrentaria qualquer coisa por ele, e acho que é disso que ele está precisando. — Raquel falava enquanto eu a observava tentando ver até onde ela chegava. — Se eu puder ajudar você em alguma coisa, Ruby. Me diga. Você pode morar aqui com a gente, consiga um emprego de verdade e todos nós podemos nos sair bem juntos. O Dean escuta você, e podemos cuidar dele juntas o que é até bom, porque eu não aguento mais cuidar dele sozinha. Você teria a família que não teve, Ruby. A encaro sentindo a sensação de um alívio ideológico, e por um tempo até quase parece que as coisas podem se resolver de verdade, mas então eu lembro que não é bem assim. Ainda tenho uma dívida, que acabou de aumentar, ainda preciso enfrentar a Ruth porque essas dívidas ainda são um elo entre nós. Tenho aquela moça com o bebê que ainda precisam de mim, e além de tudo preciso me encaixar em uma vida comum. Seria muito legal para ser verdade, eu entrando na família do Dean. Almoços em família no domingo, pessoas boas em minha volta e noites de sono normais sem pessoas seminuas, sem bebidas e drogas espalhadas por uma boate. Mas o dinheiro que eu preciso um emprego de salário mínimo não paga, mas a ideia de ter uma família é tentadora. — Eu… eu… é complicado, Raquel. — Coço a nuca tentando procurar uma resposta para ela. — Tudo bem, mas saiba que eu estaria disposta a te ajudar. — Sorriu fraco sem mostrar os dentes. — Obrigada. — Devolvi o sorriso e andei novamente em direção ao quarto. Entrei no quarto de Dean., fechei a porta e me escorei nela em meio ao escuro. A única luz vinha da janela, uma meia luz que vinha da rua. Vi Dean ali dormindo, daquele jeitinho dele da mesma forma que deixei. Caminhei até ele e deitei ao seu lado, observando o seu rosto. Apoiei a cabeça em seu peito e fiquei ouvindo o som do coração e da respiração leve. Agarrada em seu tronco, me embriagando com o cheiro de banho recém tomado dele, sorrio fechando os olhos. Meu corpo estremece quando sinto a mão dele alisar minhas costas, a ponta dos dedos suavemente deslizando sobre minhas costas. Levanto o rosto olhando para o dele de olhos fechados e os abrindo quando levantei, pisquei devagar e selei nossos lábios. Tudo tão singelo, tudo em nossa volta sumindo, você sabe quando ama alguém e nunca foi só sobre o amor, mas sim a pessoa. Seguro a lateral do seu rosto firmando nossos rostos, tão animada com ele, com a beleza dele, com o olhar dele, com o toque dele, com ele por completo. Eu percebia que poderia fazer qualquer coisa por esse garoto se ele me permitisse ficar ao seu lado. Dean separa nossos lábios e descansa sua testa na minha com os olhos fechados, entorpecida tento novamente unir nossos lábios, porém ele segura meu queixo me mantendo longe. Encaro seus olhos mas ele não me olha, apenas me tira de cima dele e vira para o lado ficando de costas para mim. Meu peito dói enquanto o vejo, até finalmente conseguir dormir também.
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