CAPÍTULO 2

1392 Words
O mundo começou a desaparecer pela janela. No início, Amará ainda reconhecia algumas coisas, casas, ruas, pessoas passando, vozes ao longe. Pequenos fragmentos de uma vida que, até pouco tempo, era sua. Cada imagem que ficava para trás parecia um pedaço dela sendo arrancado. Ela não sabia para onde estava indo. Mas, no fundo, já sentia que não voltaria. Sentada no banco do passageiro, com os pés que m*l tocavam o chão, Amará segurava o tecido do vestido com força. Era o único gesto que ainda a fazia sentir algo conhecido, como se pudesse se prender a alguma memória que ainda não tivesse sido tirada. — Tia — chamou, hesitante. Nenhuma resposta. A mulher dirigia com os olhos fixos na estrada, o rosto duro, distante. Como se aquela criança ao lado não existisse. Como se o silêncio fosse parte do plano. — A gente vai voltar pra casa? — insistiu, a voz pequena, carregada de esperança. Dessa vez, a resposta veio. — Isso aqui é sua casa agora. As palavras caíram como algo definitivo. Sem explicação, Sem suavidade, Sem espaço para contestar. Amará olhou novamente pela janela. As ruas já não eram as mesmas. As casas desapareceram. O movimento foi sendo substituído por estrada, depois por terra, depois por nada além de árvores. Muitas árvores, desde das Altas, fechadas, como se escondessem tudo o que havia além delas. O céu começou a escurecer. O carro seguiu por caminhos cada vez mais estreitos, mais silenciosos. O som dos pneus contra o chão irregular era constante, quase hipnótico. Amará sentiu o corpo pesar, não de sono, mas de algo que ela não sabia nomear. Medo. — Eu quero a mamãe — sussurrou, mais para si do que para a tia. O volante foi apertado com mais força. — Já chega disso — disse a mulher, fria. — Você precisa entender uma coisa, Amará. Ela não respondeu, Apenas ouviu. — Ninguém vem te buscar. O silêncio que se seguiu foi denso. — Ninguém quer você. Dessa vez, Amará sentiu. Não foi só uma frase. Foi como se aquelas palavras atravessassem sua pele e se instalassem dentro dela. Pequenas sementes de algo escuro, prontas para crescer. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela não chorou. Não queria piorar. Não queria provocar. Instintivamente, encolheu-se mais no banco, abraçando a si mesma, como se pudesse se proteger de algo que vinha de dentro e de fora. A estrada continuava. O tempo parecia estranho. Não havia relógio, não havia referência. Apenas a sensação de que estavam indo longe demais. Para um lugar onde ninguém procuraria. Onde ninguém encontraria. Quando o carro finalmente parou, já era noite. Amará olhou ao redor, o coração acelerando. Não havia luz. Não havia casas. Não havia ninguém. Apenas a floresta. Densa, Escura, Silenciosa de um jeito que fazia barulho dentro do peito. — Desce — ordenou a tia. Amará hesitou por um segundo, mas obedeceu. Seus pés tocaram o chão frio, instável. O cheiro de terra e umidade era forte, estranho, sufocante. Ela olhou ao redor, tentando entender. — Onde a gente tá? A tia não respondeu de imediato. Caminhou até abrir uma pequena estrutura de madeira mais à frente. Uma espécie de construção isolada, quase escondida entre as árvores. A porta rangeu. — Aqui — disse, simples. Amará não se moveu. Algo dentro dela gritava. — Eu não quero ficar aqui — sua voz saiu mais firme dessa vez, carregada de desespero. — Eu quero ir pra casa! A mulher virou-se lentamente. Seus olhos estavam frios. — Você já está. O medo tomou forma. Amará deu um passo para trás, mas a mão da tia foi rápida, firme, segurando seu braço com força suficiente para fazê-la estremecer. — Você precisa parar de lutar contra o que já foi decidido. Ela foi puxada. Levava consigo apenas o vestido no corpo e uma infância que já começava a desaparecer. A porta se fechou atrás delas. O som ecoou mais alto do que deveria. E, naquele instante, Amará entendeu não com palavras, mas com o que restava do seu instinto que havia cruzado um limite invisível. Um lugar onde não existia retorno. A viagem tinha acabado. Mas o pesadelo, estava apenas começando. **** No começo, Amará ainda acreditava que podia errar. Era um pensamento simples, quase inocente, errado e corrigida. Sabia que ela não podia errar e ser perdoada. Como acontecia antes. Mas ali, naquele lugar onde o tempo parecia parado e o ar era sempre frio, errar não era parte do aprendizado. Era punição. **** O dia começou como todos os outros. Silêncio. Amará estava sentada no chão, com as pernas dobradas contra o peito e os olhos atentos à porta. Aprendeu rápido que o som dela abrindo era o único aviso de que algo estava prestes a acontecer. Às vezes vinha comida. Às vezes vinham palavras. Às vezes vinha dor. E o pior era nunca saber qual. A porta abriu. Ela se levantou rápido demais. — Eu eu já estou acordada — disse, apressada, como se aquilo fosse importante. A tia entrou devagar, observando cada movimento, cada respiração, cada tentativa de agradar. — Eu não mandei você levantar. O corpo de Amará congelou. — Eu, achei que. — Achou errado. O silêncio caiu pesado entre as duas. Amará ficou parada, sem saber se devia sentar, se devia falar, se devia desaparecer. O coração batia rápido, descompassado, como se tentasse fugir do próprio peito. A tia caminhou até ela, lentamente. Cada passo era um aviso. — Aqui você não pensa — disse, com a voz baixa, controlada. — Você obedece. Amará engoliu em seco, os olhos já brilhando com lágrimas que ela tentava segurar. — Sim. — Sim, o quê? — Sim, tia. O erro veio rápido. O som do impacto não foi alto, mas foi suficiente. Amará recuou com o susto, levando a mão ao braço, mais surpresa do que ferida. Seus olhos se arregalaram, não tanto pela dor mas pela quebra. Aquilo era novo. Aquilo era real. — Não me chame assim. A voz da mulher não subiu. Não precisava. — Eu não sou sua família. As palavras doeram mais. Muito mais. Amará não respondeu. Não conseguiu. Seu corpo tremia, não só pelo que aconteceu, mas pelo que aquilo significava. Ela estava sozinha. De verdade. — Você vai ficar sem comer hoje — continuou a tia, como se fosse algo comum. — Pra aprender. O estômago de Amará se contraiu imediatamente, como se já entendesse antes mesmo da mente. — Eu não fiz de propósito — a voz saiu fraca, desesperada. — Não importa. A resposta foi rápida. Final. A mulher se virou, caminhando até a porta. — Aqui, até o seu não querer é um problema. E então saiu. A porta se fechou. As horas passaram devagar. Lentas demais. O corpo de Amará começou a sentir. Primeiro o vazio leve, depois o desconforto, depois a dor. A fome não era apenas física, era um lembrete constante de que ela não tinha controle sobre nada. Ela tentou dormir. Não conseguiu. Tentou não pensar. Não conseguiu. Então fez o que restava. Se encolheu. Abraçou as próprias pernas, escondeu o rosto e ficou ali, tentando se tornar pequena, o suficiente para não errar de novo. Pequena o suficiente para não existir. Quando a porta abriu novamente, já era noite. Amará levantou os olhos devagar. Não havia mais perguntas neles. Apenas medo. A tia entrou, observou o estado da menina fraca, silenciosa, com os olhos fundos e o corpo retraído e pareceu satisfeita. — Aprendeu? Amará demorou um segundo. Mas respondeu. — Sim. A voz saiu quase sem som. — O que aprendeu? Silêncio. A mente dela correu, tentando encontrar a resposta certa. A resposta que não machucaria. — Que eu não posso errar. A mulher inclinou levemente a cabeça. — Melhor. Deixou um prato no chão. Dessa vez, Amará não se moveu rápido. Esperou. Esperou até a tia sair. Esperou até ouvir a porta fechar. Só então se aproximou. Sentou-se no chão. Olhou para a comida. E comeu. Sem pressa, Sem emoção, Sem olhar ao redor. Como alguém que já começava a entender. Ali, não existia certo ou errado. Existia obedecer ou pagar. Naquela noite, Amará não chamou pela mãe. Pela primeira vez, ela ficou em silêncio. E foi ali, naquele silêncio aprendido à força, que o primeiro pedaço da menina começou a desaparecer.
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