O relógio marcava quase dez da noite quando as três estavam sentadas lado a lado no aeroporto.
Aline mexia no celular sem parar, o rosto pálido contrastando com o cabelo loiro claro e os olhos azuis cansados. Larissa, ruiva, tentava manter a calma, balançando a perna de leve. Amanda, de cachos pretos e olhos verdes atentos, observava tudo em silêncio, mas com a tensão estampada no corpo.
Elas conversavam, tentando parecer normais.
— Pelo menos a gente vai ficar juntas — Larissa disse, forçando um sorriso. — Quando eles estiverem no quartel, a casa não vai ficar vazia.
— É… — Aline respondeu, passando a mão na barriga discretamente por causa da cólica. — Vai ser bom não ficar sozinha.
— E é tudo novo pra gente — Amanda completou. — Eles já são acostumados… anos morando juntos no quartel. Pra eles é rotina.
As três se entreolharam. Era verdade. Para eles, dividir espaço era normal. Para elas, era um salto no escuro.
Foi quando o aviso soou no alto-falante.
Voo cancelado. Novo horário: 03h00 da manhã.
O mundo pareceu parar.
— Não… — Aline murmurou, sentindo o coração acelerar.
— Como assim cancelado? — Larissa levantou na hora.
— Meu Deus… — Amanda passou a mão no cabelo.
Aline pegou o celular com a mão tremendo e ligou imediatamente.
— Amor… — a voz saiu fraca assim que Stefan atendeu. — O voo foi cancelado… reagendaram pra três horas da manhã. A gente tá aqui no aeroporto.
Do outro lado, Stefan ficou em silêncio por um segundo. Lucas e Rafael estavam ao lado dele, ouvindo tudo pelo viva-voz.
— Calma, princesa — Stefan respondeu, firme, tentando segurar a própria ansiedade. — Respira. Vocês estão juntas?
— Estamos… mas eu tô com dor, amor… e agora esse atraso…
— Eu sei — ele interrompeu, a voz cheia de cuidado. — Escuta: não sai daí. Compra água, senta num lugar confortável. Se precisar, compra alguma coisa pra comer. Eu vou ficar acordado com você.
Lucas se aproximou. — Larissa, vocês não ficam sozinhas, tá? Qualquer coisa liga. A gente tá aqui.
— Amanda — Rafael falou em seguida — pensa assim: vocês já estão quase aqui. Só atrasou um pouco. A casa tá pronta esperando vocês.
Aline fechou os olhos, respirando fundo, tentando conter o choro. — Tá… eu vou tentar me acalmar.
— Não tenta sozinha — Stefan disse baixo. — Fica comigo no telefone o tempo que você quiser. Três da manhã chega. Eu prometo.
Ela assentiu, mesmo sabendo que ele não podia ver. — Eu te amo.
— Eu tô aqui. Não vou sair daqui um segundo — ele respondeu.
Do outro lado da chamada, as três mulheres se abraçaram discretamente, no meio do aeroporto. Era medo, cansaço e dor misturados… mas também era o começo de algo novo.
O aeroporto estava mudando de clima rápido demais. As lojas fechando, as luzes ficando mais frias, os bancos vazios. O barulho constante virou eco.
As três estavam sentadas juntas, quase coladas uma na outra.
Aline abraçou as próprias pernas. — Meninas… eu tô com medo.
A voz dela saiu baixa, trêmula.
Amanda já não segurava mais. As lágrimas desciam sem controle. — Eu também… isso aqui… — ela respirou fundo, o corpo tenso — isso me lembra tudo. Quando eu fui atacada… meses atrás… a sensação é a mesma.
Larissa engoliu seco. — Eu também tô com medo. Esse lugar vazio dá um aperto… parece que qualquer coisa pode acontecer.
Aline olhou no celular. — Ainda é meia-noite… falta muito tempo.
O coração dela disparou. Sem pensar duas vezes, abriu a chamada de vídeo.
— Amor… — a imagem de Stefan apareceu na tela quase na hora — a gente tá com medo. O aeroporto tá vazio demais. A gente quer ir pra casa e voltar depois.
Do outro lado, Stefan se levantou na mesma hora. Lucas e Rafael apareceram atrás dele.
— Calma — Stefan falou firme, mas os olhos entregavam a preocupação. — Mostra onde vocês estão.
Aline virou a câmera devagar. Bancos vazios. Luzes frias. Um segurança longe demais.
Lucas passou a mão no rosto. — Não tá bom isso não…
— Amor — Stefan falou — vocês não vão sair daí sozinhas agora, tá? Escuta o que eu vou dizer.
— Eu tô tremendo — Aline confessou, a voz falhando.
— Eu sei, princesa — ele respondeu, mais suave. — Amanda, Larissa, escutem também. Vocês vão pedir pra ficar perto do balcão de atendimento ou da segurança. Não fiquem isoladas.
— A gente tá traumatizada… — Amanda disse chorando — meu corpo tá reagindo sozinho.
— E tá tudo bem — Rafael entrou na conversa, a voz séria. — Trauma não some assim. Vocês não estão exagerando.
Stefan respirou fundo. — Aline, olha pra mim. Vocês não vão pra casa agora. Não nessa hora. Eu fico com você em vídeo. A gente fica acordado com vocês. Se quiserem, deixam a chamada aberta o tempo todo.
Aline balançou a cabeça. — Eu só queria você aqui…
— Eu sei… — ele respondeu, com a voz quebrando um pouco — mas eu tô aqui do jeito que dá. E vocês não estão sozinhas. Nunca.
Larissa se aproximou da câmera. — A gente fica juntas… não desgruda.
— Isso — Stefan confirmou. — Junta as malas, senta perto de gente, luz forte. Três horas vai chegar. E quando vocês descerem do avião… eu vou estar lá.
Aline respirou fundo, tentando se firmar. — Promete?
— Prometo — ele disse sem hesitar. — Palavra de homem.
As três se levantaram devagar, se dando as mãos. Ainda havia medo, ainda havia lembranças dolorosas… mas agora havia vozes conhecidas, apoio, presença — mesmo à distância.
E, naquela madrugada longa, isso era o que as mantinha de pé.