as tres e o medo

966 Words
O relógio marcava quase dez da noite quando as três estavam sentadas lado a lado no aeroporto. Aline mexia no celular sem parar, o rosto pálido contrastando com o cabelo loiro claro e os olhos azuis cansados. Larissa, ruiva, tentava manter a calma, balançando a perna de leve. Amanda, de cachos pretos e olhos verdes atentos, observava tudo em silêncio, mas com a tensão estampada no corpo. Elas conversavam, tentando parecer normais. — Pelo menos a gente vai ficar juntas — Larissa disse, forçando um sorriso. — Quando eles estiverem no quartel, a casa não vai ficar vazia. — É… — Aline respondeu, passando a mão na barriga discretamente por causa da cólica. — Vai ser bom não ficar sozinha. — E é tudo novo pra gente — Amanda completou. — Eles já são acostumados… anos morando juntos no quartel. Pra eles é rotina. As três se entreolharam. Era verdade. Para eles, dividir espaço era normal. Para elas, era um salto no escuro. Foi quando o aviso soou no alto-falante. Voo cancelado. Novo horário: 03h00 da manhã. O mundo pareceu parar. — Não… — Aline murmurou, sentindo o coração acelerar. — Como assim cancelado? — Larissa levantou na hora. — Meu Deus… — Amanda passou a mão no cabelo. Aline pegou o celular com a mão tremendo e ligou imediatamente. — Amor… — a voz saiu fraca assim que Stefan atendeu. — O voo foi cancelado… reagendaram pra três horas da manhã. A gente tá aqui no aeroporto. Do outro lado, Stefan ficou em silêncio por um segundo. Lucas e Rafael estavam ao lado dele, ouvindo tudo pelo viva-voz. — Calma, princesa — Stefan respondeu, firme, tentando segurar a própria ansiedade. — Respira. Vocês estão juntas? — Estamos… mas eu tô com dor, amor… e agora esse atraso… — Eu sei — ele interrompeu, a voz cheia de cuidado. — Escuta: não sai daí. Compra água, senta num lugar confortável. Se precisar, compra alguma coisa pra comer. Eu vou ficar acordado com você. Lucas se aproximou. — Larissa, vocês não ficam sozinhas, tá? Qualquer coisa liga. A gente tá aqui. — Amanda — Rafael falou em seguida — pensa assim: vocês já estão quase aqui. Só atrasou um pouco. A casa tá pronta esperando vocês. Aline fechou os olhos, respirando fundo, tentando conter o choro. — Tá… eu vou tentar me acalmar. — Não tenta sozinha — Stefan disse baixo. — Fica comigo no telefone o tempo que você quiser. Três da manhã chega. Eu prometo. Ela assentiu, mesmo sabendo que ele não podia ver. — Eu te amo. — Eu tô aqui. Não vou sair daqui um segundo — ele respondeu. Do outro lado da chamada, as três mulheres se abraçaram discretamente, no meio do aeroporto. Era medo, cansaço e dor misturados… mas também era o começo de algo novo. O aeroporto estava mudando de clima rápido demais. As lojas fechando, as luzes ficando mais frias, os bancos vazios. O barulho constante virou eco. As três estavam sentadas juntas, quase coladas uma na outra. Aline abraçou as próprias pernas. — Meninas… eu tô com medo. A voz dela saiu baixa, trêmula. Amanda já não segurava mais. As lágrimas desciam sem controle. — Eu também… isso aqui… — ela respirou fundo, o corpo tenso — isso me lembra tudo. Quando eu fui atacada… meses atrás… a sensação é a mesma. Larissa engoliu seco. — Eu também tô com medo. Esse lugar vazio dá um aperto… parece que qualquer coisa pode acontecer. Aline olhou no celular. — Ainda é meia-noite… falta muito tempo. O coração dela disparou. Sem pensar duas vezes, abriu a chamada de vídeo. — Amor… — a imagem de Stefan apareceu na tela quase na hora — a gente tá com medo. O aeroporto tá vazio demais. A gente quer ir pra casa e voltar depois. Do outro lado, Stefan se levantou na mesma hora. Lucas e Rafael apareceram atrás dele. — Calma — Stefan falou firme, mas os olhos entregavam a preocupação. — Mostra onde vocês estão. Aline virou a câmera devagar. Bancos vazios. Luzes frias. Um segurança longe demais. Lucas passou a mão no rosto. — Não tá bom isso não… — Amor — Stefan falou — vocês não vão sair daí sozinhas agora, tá? Escuta o que eu vou dizer. — Eu tô tremendo — Aline confessou, a voz falhando. — Eu sei, princesa — ele respondeu, mais suave. — Amanda, Larissa, escutem também. Vocês vão pedir pra ficar perto do balcão de atendimento ou da segurança. Não fiquem isoladas. — A gente tá traumatizada… — Amanda disse chorando — meu corpo tá reagindo sozinho. — E tá tudo bem — Rafael entrou na conversa, a voz séria. — Trauma não some assim. Vocês não estão exagerando. Stefan respirou fundo. — Aline, olha pra mim. Vocês não vão pra casa agora. Não nessa hora. Eu fico com você em vídeo. A gente fica acordado com vocês. Se quiserem, deixam a chamada aberta o tempo todo. Aline balançou a cabeça. — Eu só queria você aqui… — Eu sei… — ele respondeu, com a voz quebrando um pouco — mas eu tô aqui do jeito que dá. E vocês não estão sozinhas. Nunca. Larissa se aproximou da câmera. — A gente fica juntas… não desgruda. — Isso — Stefan confirmou. — Junta as malas, senta perto de gente, luz forte. Três horas vai chegar. E quando vocês descerem do avião… eu vou estar lá. Aline respirou fundo, tentando se firmar. — Promete? — Prometo — ele disse sem hesitar. — Palavra de homem. As três se levantaram devagar, se dando as mãos. Ainda havia medo, ainda havia lembranças dolorosas… mas agora havia vozes conhecidas, apoio, presença — mesmo à distância. E, naquela madrugada longa, isso era o que as mantinha de pé.
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