Aline respirou fundo antes de falar. A voz saiu baixa, carregada de culpa.
— Ele levou seu carro… desculpa, tá? — os olhos marejaram. — Eu compro outro pra você, … o meu quebrou, tava na oficina, então eu tava usando o seu.
Stefan franziu a testa na mesma hora, balançando a cabeça devagar, como se precisasse conter algo dentro dele.
— Ei… — ele se aproximou mais da cama, segurando o rosto dela com cuidado. — Para. Para agora. Você não tem que me pedir desculpa por nada.
Ela insistiu, a voz tremendo:
— Eu tava saindo do estúdio… o cara me rendeu. Pediu o carro. Eu dei. — engoliu em seco. — Ele mandou eu ir no caixa… eu saquei os trinta mil que tinha acabado de receber. Mesmo assim… — a voz falhou. — Mesmo assim ele me bateu.
Stefan fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, estavam vermelhos, cheios de dor e de raiva contida.
— Olha pra mim, Aline. — Ele falou firme, mas doce. — Você fez tudo certo. Você fez o que precisava pra ficar viva. O carro, o dinheiro… isso não vale nada perto de você.
Ela começou a chorar de novo, em silêncio.
— Eu fiquei com medo de você achar que eu fui imprudente… — sussurrou. — Que eu errei.
Ele se inclinou, encostando a testa na dela.
— O único erro aqui foi daquele desgraçado. — a voz saiu baixa, controlada. — E eu juro pra você… isso não vai ficar assim.
Ela abriu os olhos, assustada.
— Stefan, não… eu não quero mais confusão.
— Amor… — ele beijou a testa dela com cuidado. — Confusão nenhuma. Eu só quero justiça. E quero você segura. Só isso.
Ela respirou fundo, tentando se acalmar.
— Quando você não tava aqui… — confessou. — Eu me senti tão sozinha. Forte por fora… mas quebrada por dentro.
Ele apertou a mão dela com firmeza, passando segurança.
— Você nunca mais vai estar sozinha. — disse com convicção. — Nem quando eu tiver longe. Nem por um segundo. A gente vai mudar tudo que for preciso. Eu fico esse mês inteiro com você. Depois a gente dá um jeito. Mas eu não deixo você vulnerável de novo.
Ela assentiu, cansada, mas aliviada.
— Obrigada por voltar… — murmurou. — Mesmo assim.
Stefan sorriu triste, os olhos brilhando.
— Eu atravessaria o mundo por você. — respondeu. — E faria tudo de novo, quantas vezes fosse preciso.
Ele ficou ali, abraçado a ela, sentindo o coração dela bater —
não pensando em carros, nem em dinheiro,
mas grato, desesperadamente grato, por ela estar viva nos braços dele.
Stefan continuou ali, sem pressa, como se o mundo tivesse parado dentro daquele quarto de hospital. Ele ajeitou o lençol sobre o corpo dela, com um cuidado quase doloroso, como se qualquer movimento errado pudesse machucá-la de novo.
— Dorme um pouco — ele disse baixo. — Eu tô aqui. Não vou sair nem pra respirar.
Ela tentou sorrir.
— Você fala isso, mas sempre foi inquieto… — a voz saiu fraca. — Ficar parado não é seu forte.
Ele soltou um meio sorriso, triste.
— Por você, eu aprendo. — respondeu. — Por você eu fico quieto, eu espero, eu desacelero o mundo inteiro se for preciso.
Ela fechou os olhos por alguns segundos, mas logo abriu de novo, como se tivesse medo de dormir e acordar sozinha.
— Stefan… — chamou baixinho.
— Oi, meu amor.
— Quando você não atendeu… quando disseram que você tava em missão… — os olhos se encheram de lágrimas de novo. — Eu achei que talvez fosse morrer ali e nunca mais ia te ver.
O peito dele apertou com força. Ele se inclinou e beijou a mão machucada dela.
— Não fala isso. — a voz saiu rouca. — Você é forte demais pra ir embora assim. E eu… — respirou fundo. — Eu não suportaria.
Ela apertou os dedos dele, fraco, mas firme.
— Promete que a gente vai mudar algumas coisas? — pediu. — Eu amo dançar, eu amo meu trabalho… mas eu não quero mais sentir esse medo.
— Eu prometo. — ele respondeu sem hesitar. — Segurança, motorista, alguém sempre com você. Nada de sair sozinha à noite. Nada de improviso. E se você quiser parar um tempo… eu te apoio também.
— Eu não quero parar de ser quem eu sou… — ela sussurrou.
— E você não vai. — ele garantiu. — Eu não me apaixonei por alguém frágil. Eu me apaixonei por uma mulher forte que passou por coisas horríveis e ainda assim brilha. Eu só vou estar do seu lado pra segurar a barra quando pesar demais.
As lágrimas escorreram silenciosas pelo rosto dela.
— Eu te amo… — disse, quase sem voz.
Ele encostou a testa na dela de novo.
— Eu te amo mais do que qualquer missão, mais do que qualquer quartel, mais do que qualquer coisa que tente me separar de você.
A porta do quarto se abriu devagar. A mãe dela e a mãe dele apareceram, em silêncio. As duas pararam ao ver a cena: Stefan sentado ao lado da cama, segurando a mão de Aline como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
A mãe dela enxugou os olhos.
— Ela finalmente se acalmou… — sussurrou.
Stefan assentiu.
— Ela vai ficar bem. — disse com convicção. — Eu vou garantir isso.
Aline, já meio sonolenta, murmurou:
— Não vai embora…
Ele se inclinou e beijou a testa dela mais uma vez.
— Não vou. — prometeu. — Nem agora, nem nunca.
Ela finalmente adormeceu, respirando mais tranquila.
Stefan ficou ali, imóvel, vigiando cada respiração, cada batida do coração dela —
decidido, em silêncio,
que ninguém nunca mais tocaria na mulher dele daquele jeito.