Era segunda-feira e eu teria quatro aulas com o senhor insuportável. Isso mesmo. Teria que tolerar uma noite inteira com o Nathan me dizendo que meu TCC estava ficando uma bela bosta. Pois é, ele não era nada sutil na arte de apontar meus erros; e, ainda mais, em dizer que eu precisava refazer. O pior de tudo, era o fato de o trabalho ser individual, se fosse em grupo, acho que eu teria outras pessoas para me apoiar. Pensamento covarde, não? Pois é, mas se conhecessem a peça, me entenderiam. Além de tudo, precisava ouvir os suspiros de todas as garotas sempre que o bendito cruzava a porta. Era pra morrer ou não? Sheila só faltava se jogar em cima dele, no entanto, Nathan não dava a******a. Ele em sala de aula era bem sério e focado. Digo isso, pois uma vez fui até à sala dos professores e ouvi uma gargalhada tão gostosa, que fiquei curiosa para saber quem estava rindo daquele jeito, até me dar conta de que vinha dele. Eu nem sabia que aquele indivíduo era capaz de sorrir, que dirá gargalhar.
Não sabia o porquê de Nathan incorporar o professor carrasco sempre que entrava na sala, fora dela, pelo visto, ele devia ser até agradável. Em contrapartida, comigo, ele fazia questão de sempre ser um babaca.
— Boa noite, hoje eu vou dar uma nova olhada no que fizeram até agora e espero ver as alterações que pedi na aula passada. — Seu olhar recaiu sobre mim imediatamente.
Maldito!
— Tadinha da Rafaela, o professor foi bem rude com ela na semana passada. — Ouvi um dos alunos sussurrar e senti minhas bochechas esquentarem.
Nathan dizia o que queria na frente de todos, não tinha um pingo de consideração pelo meu esforço.
— Renata.
Silêncio.
Eu não iria responder, meu nome não era esse e não tinha nenhuma garota chamada Renata na turma.
— Renata — Sua voz rouca preencheu a sala novamente; e, dessa vez, ele olhou para mim.
Eu queria gritar que não me chamava assim e mandá-lo para o inferno sem passagem de volta. Só que, contrariando essa vontade, levantei e segui até o meu professor, sentindo a raiva aumentar cada vez mais.
— Olha, Renata. Eu te chamei primeiro, pois caso precise fazer alguma alteração, terá tempo durante as aulas. — Nathan anunciou, assim que parei de frente para sua mesa.
— Meu nome não é Renata é Rafaela. — Dei ênfase para ver se ele entendia de uma vez por todas.
— Ah, certo — respondeu com desdém. — Deixe-me ver seu trabalho. — pediu, sem ao menos olhar nos meus olhos.
Suspirei e entreguei o rascunho, com as alterações necessárias. Nathan apenas balançou a cabeça e ordenou:
— Corrija.
— Corrigir o que? Eu alterei tudo o que me pediu, o que mais quer que eu faça?
— Você chama isso de TCC? — Finalmente Nathan olhou nos meus olhos.
— Chamo sim, eu fiz o meu melhor aqui. — respirei fundo, sentindo todo o meu corpo tremer.
— Se pensar assim, nunca será uma jornalista de verdade. Acha que o editor-chefe será bonzinho com você, que entregará a matéria e ouvirá: Perfeito, Rafaela; vamos publicar agora mesmo? — Meu nome soou com uma pontada de indiferença. — Não, a vida real não é uma sala de aula, um erro e você está fora, entende isso? — indagou como se eu fosse uma toupeira.
— Por que você é tão amargurado? — Quis saber, ciente de que era a primeira vez que eu o desrespeitava.
Pois, apesar de tudo, ele era o meu professor.
— Você me acha amargurado? — Nathan riu, debochado. — Faça como quiser, só esteja avisada que se entregar o trabalho assim, você será humilhada na banca.
Virei as costas para ele, peguei minhas coisas e saí batendo o pé. Eu poderia mentir, dizendo que não chorei, só que a verdade era que eu me acabei de chorar no banheiro da faculdade.
Sentindo-me desolada e um completo fracasso. Na realidade, eu estava mortalmente deprimida. E, sabe o que era pior? Ver que Nathan só tratava a mim dessa forma, mais ninguém. Ele era todo compreensivo com os outros alunos; e eu, a cada dia, sentia que estava totalmente distante do meu sonho.
Será que realmente seria uma jornalista?