Lia POV
Corria apressadamente sem me deter muito em como eu estava ficando descabelada ou como certamente meu almoço se revirava todo dentro da marmita lacrada em minha mochila.
Assim como também torcia com todas as minhas forças para que aquele fosse o último dia da minha vida, e não, eu não estava exagerando.
Não era como se a vida de uma ômega em um país diferente do seu, de vinte e um anos de idade e sozinha no mundo fosse tão fácil assim.
Na verdade, se tornava mais e mais difícil a cada dia que passava.
Estava tão enrolada, endividada, de cabeça cheia, perdida e sem futuro que somente a morte poderia dar um jeito nisso.
- Bom dia, docinho.
Todo dia era a mesma coisa, eu sempre tirava a sorte grande - ou azar - de pegar a mesma droga de ônibus com aquela droga de alfa cobrador que me assediava na cara de p*u, e depois eu precisava ir bem para o fundo do ônibus para não ter que ficar sendo provocada por ele o tempo inteiro.
De quebra, eu seria chacoalhada por aquele mesmo ônibus de suspensão necessitada de manutenção até um ponto próximo de meu trabalho, me fazendo andar mais cinco minutos um pouco mais tranquilos até lá.
Isso se eu não estivesse atrasado e não tivesse chovido torrencialmente.
Então lá ia eu, correndo novamente, desgastando o pouco de saúde que ainda me restava naquela droga de emprego que só me dava mais calos nos pés e me fazia comprar mais remédios para dormir.
Não me interprete m*l, eu amo trabalhar na cafeteria, amava estar em contato direto com aquele cheirinho de café, baunilha e principalmente canela. Mas era apenas por causa disso, e pelo - óbvio - dinheiro, que eu me sujeitava a essas coisas.
Eu estaria em um emprego melhor agora se eu não tivesse tido tantos problemas amorosos e tantas desarmonias na vida e resolvido trancar a faculdade apenas de birra com a vida.
Coisa de adolescente inconsequente sem neurônio algum.
- Bom dia, Lili!
Escutei a voz de meu amigo me saudar logo após o sininho da porta da entrada avisar minha chegada, assim como também pude contemplar seus olhos dobrando de tamanho ao ver meu estado.
Não era para menos, eu estava em frangalhos.
Encharcada, amarrotada, enlameada e descabelada.
- Bom dia para quem?
Respondi m*l humorada vendo ele segurar um risinho e vindo até mim com algo parecido com um pano de prato.
- Tome, seque ao menos os cabelos...
Ele estendeu e eu agradeci baixinho não crendo que passaria o dia inteiro com aquela roupa amarrotada e úmida por causa daquele atraso miserável.
Tudo isso por causa daquela noite m*l dormida. Mais uma, na verdade.
Esse mesmo amigo, cujo o nome era Johnny, que me encarava com um sorriso divertido no rosto, tinha algumas crenças esquisitas que ele sempre gostava de repetir até fazer com que elas penetrassem em minha cabeça.
E uma delas era que os hábitos de nossa alma gêmea, se repetidos em muita frequência, se tornam nossos próprios hábitos. Sendo eles bons ou ruins.
Isso realmente me fez repensar se minha alma gêmea era algum vigia noturno ou algum depressivo, porque não era possível.
Ninguém ficava tanto tempo acordado assim, a menos que vivesse de café e cocaína.
Mas obviamente eu não ficava baseando minha vida nisso, já que Johnny não era bem o que podíamos chamar de uma figura de confiança.
Ele é uma boa pessoa, mas tinha um probleminha sério com mentiras.
Não aquelas gigantescas e óbvias, mas aquelas sutis e que só mostram sua relevância quando expostas.
Mas isso é história para outro momento.
Voltemos a focar no real problema:
- Perdeu o horário mais uma vez?
Ele me perguntou como se já não fosse algo mais do que nítido alí, então eu revirei os olhos abandonando minha mochila embaixo do balcão e guardando minha marmita na geladeira.
- O que você acha, Johnathan?
Respondi irônica e ele emitiu um som agudo de deboche dando um pequeno peteleco em minha testa.
- Ui, desculpa, espetadinho!
Sua resposta me fez querer levantar de uma vez só para confrontá-lo, algo que me trouxe um arrependimento instantâneo, já que acabei batendo com a cabeça no balcão e querendo chorar.
De primeira instância, Johnny riu se divertindo com o meu azar crônico, mas quando viu que eu estava me sentando no chão e começando a chorar ele se desesperou.
Encostei na pequena geladeira e abracei meus joelhos sentindo minha cabeça latejar e meu corpo exausto tensionar mais pela dor.
- Tá doendo muito, amiga?! Ai meu Deus...
O beta chegou mais perto se ajoelhando ao meu lado e verificando o local da batida e eu abanei a cabeça em negação enquanto ele corria para pegar gelo e colocar em minha cabeça.
Nem estava mais doendo tanto assim, eu estava chorando apenas pelo acúmulo de estresse sobre mim.
Eu não estava aguentando mais ser sozinha para tudo, estava ficando cada vez mais difícil.
- P-Por quê só a minha...- a minha vida é uma merda?!
Solucei minhas palavras angustiadas e vi os olhos do meu amigo se compadecerem a ver meu estado emocional caótico.
Eu era sozinha desde os 12 anos, precisava me trancar no porão de casa em meus cios para não ser atacada por não ter pai alfa para me proteger, trabalhava para pagar minhas despesas, estudava de madrugada e ainda precisava arrumar tempo para dormir e me alimentar.
Assim que soube que tinha um tio na Inglaterra eu dei um jeito de me comunicar com ele e consegui me mudar para cá, mas ele já estava acometido de um câncer que o levou poucos meses depois.
Então lá estava eu, com meus 16 anos de idade, em um país desconhecido e sozinha.
Será que eu estava fadado a ser sozinha?
Descobri que meu tio tinha algumas dividas pelas quais tive que arcar também sozinha, e foi assim que essa enorme bola de neve começou, até que chegasse no ponto em que eu estou hoje.
- Não fala assim, Lia...
Johnny tentava me acalmar acariciando meus cabelos e eu escondi meu rosto em mãos sentindo falta da época em que eu ainda morava em um orfanato na Austrália, o qual infelizmente veio a falência.
Ao menos lá eu ainda conseguia dormir sem medo de ser despejada, abusada, morta ou simplesmente morrer de fome.
Sentia falta da sensação de ter alguém para me proteger caso eu precisasse ou me botar pra cima quando tudo estivesse uma merda igual a hoje.
Eu sei que a qualquer momento que eu chamasse por Johnny ele viria me ajudar, mas eu não podia simplesmente debruçar todas as minhas mágoas e pressões nele. Era injusto.
- É a verdade!
Exclamei inconsolável e senti meu amigo me abraçar e suspirar pesado.
Me deixei, apenas por aquele momento, ser confortada pelo cheiro de laranjas de meu amigo beta que me fazia um cafuné delicado para não tocar em meu machucado e eu também me permiti chorar mais um pouco.
Será que existia uma ômega mais desgraçada do que eu?
Se é que isso poderia ser considerado desgraça ainda.
E não me venha dizer que eu estou exagerando, a menos que sua meta de vida é terminar encharcado de chuva com um g**o enorme na testa chorando suas mágoas sentado no chão de uma cafeteria.
Escutei a respiração pesada de meu amigo e senti ele afastar o próprio rosto para encarar minhas expressões mesmo que eu estivesse com o rosto ainda abaixado em vergonha.
Não, eu não gostava nem um pouco de depender da pena dos outros.
- Lia, por que você simplesmente não arranja um alfa para cuidar de você?
Aquele assunto novamente.
Sua voz parecia um pouco hesitante ao perguntar aquilo e eu não o culpava. Todas as vezes que ele me fazia essa pergunta eu o respondia com grosseria ou apenas o ignorava.
Ergui meu rosto sério, ainda soluçando, para observar o que Johnny diria a seguir.
Normalmente eu negaria, diria que não precisava de alfa nenhum que cuidasse de mim, diria que não sentia falta nenhuma e que não sentia nada com relação a solidão, mas isso seria mentira.
Ontem não consegui dormir sentindo meu corpo dolorido, meu cio está por vir, passaria mais uma semana inteira trancada dentro de um quarto urrando de dor ou me entupindo de remédios para ele não vir.
Depois da temporada do cio, viria a carência excessiva. Eu iria passar mais alguns dias chorando pelos cantos, analisando meu pescoço liso, sem marca de alfa nenhum alí, e meu lobo se sentiria rejeitado mais uma vez.
Durante a noite eu precisaria de mais uma ou duas cobertas para fingir que não precisava do calor de um alfa para me fazer dormir melhor e mentiria para mim mesma dizendo que na próxima temporada eu seria mais forte.
Mas eu não aguentava mais.
Talvez Johnny realmente estivesse certo, eu precisava de um alfa.
Não que isso fosse espantar meu azar, mas eu precisava de alguém com quem dividir esse peso que eu carrego há anos.
Precisava de alguém que me amasse, me ajudasse, me aquecesse a noite, me dissesse que tudo ficaria bem e que amanhã seria um novo dia.
Mas quem iria querer uma ômega quebrada como eu?
Eu tenho cheiro e voz de alfa.
Nenhum ômega que se preze tem cheiro de café! Muito menos essa voz rouca e esse corpo robusto (pra não chamar de gorda).
Talvez fosse a maneira que meu lobo encontrou de me proteger depois de tanto sofrimento.
- Alfa? Johnny, que alfa em sã consciência vai me querer?!
Respondi sem medo de me autodepreciar, já que eu era quase profissional nisso de qualquer forma.
Vi ele franzir o cenho e me dar mais um peteleco me fazendo resmungar com mais uma dor acrescentada na lista do dia.
- Já te disse que eu li sua sorte ontem! Seu alfa está prestes a chegar!
Ele apontou com um sorriso sugestivo me cutucando para tentar arrancar um sorriso de mim mas eu afastei sua mão irritada.
Estava bom demais para ser verdade.
Johnny não podia simplesmente ficar mais de cinco minutos sem falar sobre alguma coisa exotérica?!
Se ele quer fazer essas maluquices dele ele que faça, eu não tenho nada contra, mas eu já tinha problemas demais para ainda por cima acabar acreditando nessas loucuras e me decepcionando depois.
- Deve ser por isso essa maré de azar tão forte!
Completou tentando me convencer daquelas suas mentiras de sempre e eu respirei fundo tentando me levantar e vi ele segurar meu pulso, mas eu o afastei mais uma vez.
- Sai pra lá com essas suas maluquices de vidente, Johnathan!
Fiz uma careta pegando um espelhinho de dentro da minha mochila e ele se levantou também enquanto eu verificava se minha testa tinha ficado marcada com o impacto contra aquele bendito balcão, ou os petelecos.
- É apenas algo óbvio! Azar na vida, sorte no amor!
Com a maior facilidade do mundo ele respondeu se sentando no tal balcão e eu ri incrédula com aquela sua fala démodé.
- Nem sei porque eu ainda te dou ouvidos...
Murmurei limpando nossa área de trabalho e escutei ele fazer mais algumas reclamações, dizendo mais e mais motivos para acreditar nele e eu apenas me mantinha pensando se algum dia eu encontraria o alfa perfeito para mim.
Não precisava ser o mais bonito, nem o mais rico, nem mesmo tinha preferência de gênero, só precisava de alguém que pudesse cuidar de mim.