Depois que meu tio Miguel entendeu o que realmente tinha acontecido, conseguiu compreender meu desespero!
— Eu nunca fiz uma coisa tão baixa como expor uma mulher ao público! — ele começou.
— Mas sei que já fui um babaca também!
Ele continuou comendo como se assimilasse suas próprias palavras.
— Por que decidiu voltar? — questionei.
— A vida é feita de ciclos, e o meu em Portugal definitivamente se encerrou!
— O que mais gostou em Portugal? — indaguei, terminando minha cerveja.
— As portuguesas… — respondeu sem hesitar.
Gargalhei ao ver seu descaramento.
— Pensa em voltar para a clínica do tio Pither? — perguntei.
— Não tenho planos ainda… — respondeu. — Sei que a sua mãe adoraria me ver trabalhando lá de novo! — sorriu presunçoso.
— Me conta por que ela não gosta de você? — indaguei.
Seu sorriso se desfez naquele instante, e ele tomou o final de sua cerveja, ainda em silêncio.
— Me diz quem sua mãe realmente gosta? — deu de ombros, me olhando. — Vou tomar uma ducha também, o dia foi longo!
— Está certo! — respondi com um meio sorriso.
Vi quando ele se levantou, jogou as embalagens na lixeira e depois caminhou até o quarto sem dizer nada.
Fiquei feliz por ele continuar me tratando do mesmo jeito, mesmo sabendo do que tinha acontecido.
— Ei! — disse, voltando-se do quarto. — Será que essa TV ainda funciona?
Sorri, sem responder.
— Nós podíamos ver um filme! — sugeriu.
— Vou pôr as minhas roupas para lavar e já vejo isso — respondi.
— Aaah, por favor… coloca essa camiseta também? — pediu.
A forma como ele tirou a camiseta me deixou totalmente extasiada. Miguel, apenas com a mão direita, colocou-a sobre as costas e a puxou pela cabeça.
Eu nunca tinha visto ninguém fazer isso! Não pessoalmente!
— Claro! — respondi quase sem voz.
Ele sorriu ao me entregar a roupa e voltou para o quarto. Me julguem, mas eu inclinei um pouco a cabeça para o lado para continuar olhando suas costas.
Eu não sabia que meu tio era tão bonito!
Meu pai sempre falou dele apenas comigo, por razões óbvias vocês já sabem! Toda vez que íamos assistir à série Sobrenatural, meu pai dizia:
— Olha o seu tio Miguel aí!
E eu sabia que era por causa do “Dean Winchester”.
Mas a última lembrança que eu tinha dele era do casamento do tio Lorenzo. Depois, nunca mais o vi. Ele foi para Portugal fazer sabe Deus o quê! Meu tio Matheus continuou vacinando cachorros, o tio Lorenzo construindo prédios e meu pai, coitado, editando livros e suportando a minha mãe!
Ouvi o barulho de água e imaginei que fosse o chuveiro. Fui até a lavanderia e coloquei as roupas na lavadora. Olhei as redes sociais e a minha foto ainda circulava por lá.
Bufei, apertei o botão da máquina e saí em direção à sala. Sorte do meu tio que a TV ainda funcionava. Migrei todas as minhas contas de streaming para a televisão dele e fiquei esperando.
Ele saiu do quarto penteando os cabelos, e eu virei o rosto para olhá-lo.
— Você pode dormir no quarto, e eu fico com o sofá. Infelizmente, o outro quarto está sem cama.
— Prefiro o sofá — respondi.
— Você ficará mais confortável no quarto — insistiu.
— Ficarei mais confortável dormindo aqui — retruquei.
— Então tá! Você quem sabe, a coluna é sua! — disse, sentando-se. — O que vamos ver?
— Filme de terror! — falei sorrindo.
— Tá doida?! Depois de uma noite como a nossa? Filme de terror, nem pensar! — negou com a cabeça.
Ele era muito engraçado, mesmo sem perceber.
— Ótimo! Vou escovar meus dentes e o senhor fica aí escolhendo um filme! — falei, me levantando.
Miguel me fuzilou com os olhos.
— Se me chamar de senhor de novo, eu corto a tela de proteção e te jogo pela janela! — fitou meus olhos. — Te juro…
Segurei o riso e saí.
Depois que escovei os dentes, voltei para a sala.
— Vamos assistir a uma comédia! Estamos precisando sorrir um pouco! — disse entusiasmado.
Vinte minutos de filme e Miguel já estava desmaiado no sofá. Sorri, balançando a cabeça.
Fui até seu quarto, peguei um edredom e coloquei sobre ele. Por uma fração de segundos, ainda o observando dormir, percebi que o tio Miguel era diferente dos meus outros tios.
Por mais distintos que pareçam, todos os meus tios têm algo em comum. Até o Pither, que não é irmão, tem forte semelhança com meu pai. Mas o Miguel, não… Ele tem traços diferentes, além de um jeito totalmente oposto.
Miguel não usa camisas sociais como os demais, não tem jeito sério. O braço tem mais tatuagens do que consigo contar e, com certeza, ele aparenta menos idade do que realmente tem.
Seu sono pesado fez com que ele escorregasse sobre o encosto do sofá. Algo dentro de sua boca reluziu sob a pouca iluminação da sala.
Cheguei mais perto, realmente intrigada. Eu parecia uma estudante de biologia observando um inseto.
E consegui identificar o que era: Miguel tem um piercing na língua. E isso me deixou ainda mais obcecada.
Por que eu não havia percebido antes? Por que ele tem um aço na boca? Qual o intuito disso?
Peguei um cobertor para mim e me deitei no outro sofá. Lembrei-me de quando minha mãe dizia que o tio Miguel era um degenerado, um mulherengo sem vergonha! Uma vez, chegou a acusá-lo de ter dado em cima da tia Deborah, mesmo sabendo dos sentimentos entre ela e o Lorenzo. E não se importou!
Nunca tive coragem de perguntar ao meu pai se era verdade.
Mas fiquei curiosa: como ele beija as mulheres usando aquilo? Será que dá para sentir?
Virei a cabeça, olhando-o dormir no outro sofá. Seu sono parecia tão tranquilo… Ele não parecia o monstro que minha mãe pintava.
Tentei dormir e esquecer a má reputação do meu tio. E, claro, o piercing na língua, que tanto me impressionou.
(...)
Acordei no meio da noite e o tio Miguel tinha ido para o quarto. Eu havia pegado no sono pesado, pois nem percebi.
Peguei o celular e comecei a navegar na internet. Em um aplicativo de anúncios, vi: “Aluguel de quarto”, especificando divisão de despesas e compartilhamento do apartamento.
Pareceu perfeito para mim! As especificações se encaixavam exatamente no que eu precisava: um lugar barato para morar até me estabilizar.
Mandei mensagem para o número do anúncio, falando do meu interesse. Para minha surpresa, a mulher respondeu imediatamente.
Fiquei abismada! Talvez sofresse de insônia como eu.
Marcamos um horário no apartamento dela. Salvei o contato e voltei a dormir.
Acordei com o cheiro de café no ar.
— Bom dia, Bela Adormecida! — vi Miguel com uma xícara na mão. — O café acabou de sair!
Levantei-me rapidamente, esfregando os olhos, envergonhada por ter dormido demais. Provavelmente estava com o rosto amassado e os cabelos bagunçados.
Fui ao banheiro lavar o rosto, passei na lavanderia e peguei as minhas roupas.
— Vou ter que passar no mercado, essa casa não tem nada! — Miguel disse, com uma caneta e um bloquinho nas mãos. — Café?
Assenti, e ele me entregou uma xícara.
— Quer uma carona até a sua casa? Sua mãe já deve ter ido trabalhar. O André provavelmente está sozinho a essa hora!
— Não… — neguei. — Eu não vou voltar para casa!
Miguel me olhou assustado.
— Marquei de encontrar uma moça que está alugando um quarto — expliquei.
— Você está ficando maluca?! — se alterou. — Como marca de encontrar uma estranha que nem sabe quem é?!
Revirei os olhos.
— Esther Caroline, você mora numa cidade onde todos os dias acontecem coisas terríveis! Mulheres são encontradas machucadas, estupradas e até sem vida!
— Você está começando a parecer o meu pai! — respondi, zangada.
— Ótimo! Vamos ligar para ele e saber o que acha disso! — Miguel pegou o celular no balcão.
Fui até ele e segurei seu pulso rapidamente.
— Não… — pedi. — Por favor, não liga para ele!
Os olhos de Miguel subiram de minha mão em seu braço até os meus. Fiquei encarando-o, buscando compreensão.
Ele soltou o ar pela boca, cedendo. Soltei seu pulso e continuei olhando-o, esperando respostas.
— Isso não quer dizer que eu concorde com você! — apontou o dedo.
— Obrigada… — respondi.
— O que você quer morando com uma estranha num apartamento alugado? — disse indignado.
— Pra casa eu não volto nunca mais! — retruquei, virando-me. Peguei minha xícara e fui até a sala.
— Olha, Carol… — disse mais calmo. — Eu sei que deve ser difícil conviver com a sua mãe. Eu te entendo! E quando digo que entendo, não estou mentindo! Mas lá é a sua casa… é a sua vida! Meu irmão te venera. Em todas as ligações, todos esses anos, ele só falava de você!
— Você não entende! — balancei a cabeça. — O casamento dos meus pais acabou há muitos anos! Meu pai só vive naquela casa por minha causa! — falei, extremamente triste.
— Você não tem certeza disso… — insistiu.
— Miguel, eles dormem em quartos separados… — revelei.
Ele se encostou no sofá, chocado.
— Há quanto tempo? — indagou.
— Desde que eu tinha onze anos… — expliquei. — Minha mãe descobriu que meu pai teve um caso com a prima dela e jogou todas as coisas dele no quarto de hóspedes.
— Com a Michele? — fez cara de surpresa.
— Como você sabe o nome dela? Você nem estava mais aqui! — fiquei abismada.
— Bem… — se atrapalhou. — Sua mãe e toda a família dela trabalharam para o meu avô Abelardo… — deu de ombros.
— E o que tem isso? — perguntei.
— Digamos que passei um bom tempo na fazenda, na época do casamento do Pither com a Angel, e…
— Aaaah! — fiz cara de repulsa. — Vocês homens são uns pervertidos! — reclamei.
— Carol, não quero que pense isso do seu pai — disse, sem se importar consigo mesmo. — André é como o Lorenzo…
— O que isso quer dizer? — perguntei, vendo-o se levantar. — Por favor, me fala! — insisti, indo até ele.
— No futuro você vai entender… — continuou me escondendo.
— Eu não sou mais uma criança! — cruzei os braços sobre o peito.
— É… você não é mesmo! — disse, me encarando.
Arqueei as sobrancelhas, esperando que ele falasse.
— Seu pai… — deu um passo à frente. — Só cedeu àquela mulher por carência, solidão…
— Você disse que o meu pai é igual ao tio Lorenzo! — frisei.
Ele assentiu.
— Ambos não fazem sexo só por prazer. A não ser que estejam vulneráveis ou apaixonados…
E eu entendi perfeitamente o que ele queria me dizer. Seu jeito era sincero, objetivo e transparente. Meu pai não era como ele!
— Agora vai se trocar para sairmos! — disse, mudando de assunto.
E, virando-se, seguiu para o quarto.