Depois que tirei toda aquela maquiagem e tomei o meu banho matinal. Voltei pro quarto tentando me reconectar com a minha eu de verdade.
Jasmine estava sentada em minha cama me observando.
- Desculpe entrar assim, estava te esperando... Ela se pronunciou.
- Tudo bem, estava no banho. Respondi penteando meus cabelos que estavam molhados.
- O bonitão está te esperando lá fora! Ela comentou.
- Eu não queria que a Gothel o visse! Falei já me arrependendo de ter mandado ele me esperar.
- Não se preocupe, ele está do outro lado da rua! Ela exibiu um sorriso largo com seus lábios cheios de batom vermelho.
Enquanto eu colocava brincos discretos ouvi Jasmine me questionar dizendo:
- O que você tem? Ela se levantou para me olhar nos olhos. - Parece triste...
- Só estou cansada pelo excesso de clientes. Há meses não pego folga! Desconversei.
- Cinderela você nunca reclamou de cansaço, ou falta de férias em seis anos!
Ela me olhou desconfiada.
- Justamente... respondi. - Estou esgotada! Menti.
Jasmine ainda calada ficou me olhando sem trégua.
- O que foi agora? Perguntei me virando para olhá-la.
- Aah meu Deus! Ela disse com a sua voz suave porém preocupada.
Franzi a testa confusa.
- É o cliente de olhos claros! Esse que está vindo quase todas às noites. Que está te esperando lá na rua!
- O que tem ele? Bufei.
- Você o beijou! Ela disse com tanta convicção que parecia ter visto.
- Não! Neguei depressa.
- Beijou sim! Eu posso ver em seus olhos. Me assegurou.
- Você não sabe o que está dizendo! Respondi muito nervosa mas tentando me conter.
- Sei exatamente o que estou falando... Tentei não encará-la, temendo me entregar ainda mais. - Porque foi exatamente assim que fiquei quando beijei a primeira vez um cliente!
Levantei meus olhos pra ela gradativamente.
- Você beija clientes? Perguntei espantada.
- Só o meu cliente dessa noite. O advogado das quintas-feiras. Confessou.
- Achei que a Gothel tivesse deixado claro que não podíamos ter esse tipo de contato... Comentei.
- f**a-se o que essa horrorosa fala! Ela dita às regras e pega uma percentagem da nossa grana, enquanto a gente fica com todo o trabalho! Ela desabafou.
Assenti concordando.
- Eu sei o que você está sentindo... Uma mistura de medo e culpa. Ela me encarou nos olhos. - Mas nós somos seres humanos Cindy. E por mais que na teoria seja fácil abrir às pernas e pegar o nosso dinheiro em troca! Na prática... Ela exitou. - Na prática sempre vai ter um cliente em especial! Aquele que chega de repente e fode o nosso subconsciente! Que tem uma química que chega a arder a pele! O que tem a voz suave, e o toque mais gostoso. E é ai que a gente por um segundo, esquecemos que somos prostitutas... E caímos na fantasia dos nossos próprios nomes, inventados por uma doente que é obcecada por contos de fadas!
Sentei-me na cama sentindo meus olhos pesarem.
- Não chore Cindy! Ela disse sentando-se ao meu lado. - Eu beijo o Ozzy todas às quintas-feiras em três anos, e continuo levando uma vida normal!
- Ozzy? Sequei o canto dos olhos com meus dedos.
- É o apelido que eu dei pra ele! Ela disse com um sorriso, e depois seus olhos ganharam vida. - Eu o amo Cindy! Amoo com todas às minhas forças!
- Agora entendo porque você estava debatendo com Ariel e às outras sobre um homem tirar uma de nós da zona. Você estava falando de si mesma! Falei ficando boquiaberta.
- Sim! Ela confessou. - Eu queria saber se algumas das meninas também tinham o que Ozzy e eu temos. Mas elas zombaram! Mas quando esse homem lindo começou a te cercar...
- André... É André o nome dele! Contei.
- Você gosta dele amiga! E ele também não é indiferente! Ela prosseguiu em sua fantasia.
- Ele é casado Jasmine! Falei tentando desvencilhar ela de sua ilusão.
- Homens casados nos procuram todas às noites Cindy! Ela insistia.
- Por horas de prazer Jasmine! Não pra casamento! Falei tentando trazê-la pro mundo real.
- Eu amo o Ozzy e ele me ama. E eu continuo aqui! Isso não impede que tenhamos um relacionamento! Respondeu-me.
- Vocês tem um relacionamento mesmo ele sabendo que você dorme com outros homens? Perguntei desacreditada.
- Nenhuma relação é perfeita! Ela deu de ombros sorrindo.
Fiquei perplexa.
- Olha! Ela me mostrou a sua mão. - Ele me deu essa aliança de namoro. É ouro branco e rubi.
- É linda! Falei admirando a jóia.
- Então... Pare de se torturar! Quem sabe o seu André também te aceite do jeito que você é! Deu-me uma piscadela.
- Não. Neguei. - Ele não! A olhei nos olhos. - André é muito família, e modesto.
- Modesto ou não é você quem ele espera lá fora! Arqueou suas sobrancelhas duas vezes me fazendo rir. - Vai logo! Não o deixe esperando!
Me levantei pegando a minha bolsa sobre a penteadeira.
- Por favor não conte a Gothel o que aconteceu! Pedi a Jasmine.
- Você também não conta sobre o Ozzy?
- Jamais! Respondi.
- Seu segredo está guardado comigo! Seu sorriso transpareceu.
Assenti concordando, e saíndo Jasmine me acompanhou.
No andar debaixo Gothel somava algumas contas com uma agenda nas mãos. Ao seu lado o nojento do Stefan sorria com seus dentes de tubarão.
Agradeci por ela não ter me visto, assim passei despercebida indo para o outro lado da rua.
- Desculpe-me a demora! Falei me aproximando de André.
Ele ficou me observando detalhadamente. Fiquei corada naquele instante.
- Você está linda! Elogiou.
- Não seja mentiroso! Respondi sorrindo.
- Cara lavada e cabelos molhados. Sem atrativo nenhum!
- Você definitivamente não se conhece! Respondeu-me e se virando abriu a porta do carro para que eu entrasse.
André fechou lhe a porta e dando a volta no carro tomou o seu lugar. Eu gostava de vê-lo dirigir, era muito sexy. Pode parecer estupidez mas a forma como ele manusea o volante, e olha o retrovisor o deixa extremamente atraente.
- Eu gostaria de te chamar para almoçar mas combinei de comer com a minha filha... André falou me fazendo voltar para o mundo real.
- E como ela está? Perguntei.
- Está de mudança. Decidiu morar com uma amiga. Respondeu-me.
- E como você está sentindo em relação á isso? Perguntei sabendo que ele estava sofrendo.
- Tentando ser forte! Respondeu sem me olhar. - Mas não está sendo fácil! A mãe dela está histérica! Acha que é culpa minha. Me virei para olhá-lo. - Eu não acho certo minha única filha sair de casa, mas não quero impedi-la. Mesmo sabendo que ela não tem idade pra isso!
- Como vai resolver essa situação? Indaguei.
- Por enquanto... André me olhou. - Vou dar apoio a minha filha. Moral e financeiro, quero que ela saiba que pode contar comigo!
- Ela sabe que pode! Sorri sem mostrar os dentes.
- Depois vou alugar um apartamento. Vou sair de casa, e me separar definitivamente da Ariadne.
Me esforcei o máximo para não demonstrar nenhuma felicidade repentina. Não queria que ele percebesse o quanto aquela notícia me deixava alegre.
Então quando ele parou no semáforo olhei para frente fingindo observar a vida lá fora.
- Eu sempre jogo os meus problemas e meu mundo conturbado em cima de ti. E eu nem sei nada de você! André falou com seu jeito doce.
Virei minha cabeça pausadamente o olhando nos olhos.
- Eu não tenho nada interessante pra te contar! Respondi tentando desanima-lo.
- Pode ter certeza que tem, mas não quer! Ele respondeu, e então o sinal verde se abriu e ele voltou a dirigir.
Poucos metros adiante André parou em frente a uma cafeteria.
- Amanhã é o meu vestibular para o curso de psicologia da USP...
Falei morrendo de vergonha pois não sabia a sua reação. Eu não tinha amigos, nem amigas e muito menos pais para contar algo assim.
- Cindy!! André me olhou desacreditado.
- Isso é maravilhoso! Seus olhos se iluminaram.
- Se eu conseguir passar vou gastar só com os livros e alimentação. Mas...
André me puxou e me abraçou fortemente em seguida. Senti sua mão grande sobre meus cabelos.
- Você vai passar! Ele sussurou próximo ao meu ouvido. - Eu vou estar torcendo por você!
Suas palavras me trouxeram um estímulo interno, arrancando de meus lábios um sincero sorriso.
Depois ele se afastou e me olhando fixamente nos olhos beijou me na boca, como se seus lábios quisessem me dizer alguma coisa.
Eu apenas correspondi, queria levar sua energia e seu beijo como um amuleto da sorte para o dia da prova.
Mamãe Gothel a c******a do bordel nos treinou para sermos perfeitas garotas de programa. Ela trocou nossas identidades alí dentro, e nos proibiu de termos contato amoroso com os clientes. Segundo ela isso não é bom para os negócios!
Minha aparência na noite é constituída por uma maquiagem pesada e fantasias. Saltos quinze e perfumes com feromonio. E um apelido ridículo de conto de fadas.
Nada meu é realmente real! Toda a minha vida é uma atuação. Eu vivo uma personagem sexy e determinada todas às noites. Um símbolo s****l para os homens, mas dentro de mim só eu sei o quanto a Anna Lara é triste e sozinha!
Beijar André foi a coisa mais real e verdadeira que já me aconteceu. Eu achei que ele só beijaria a Cinderela mas alí estava eu como Anna em sua frente, sentindo seus lábios me tomarem mais uma vez.
- Eu sei que você disse... Ele começou.
- Esquece o que eu disse! Falei já não me importando com nada.
André sorriu, depois ele saiu abrindo a porta do carro para mim. E juntos entramos naquele café.
A forma engraçada e humilde que André levava a vida me fazia rir a todo instante.
Ele encheu a sua bandeja de quase tudo do self-service e me olhou sarcasticamente.
- O que foi? Eu sou grande acha que é fácil de encher?! E gargalhou de si mesmo.
Ele fez piada várias vezes, brincou e sorriu mesmo com a vida complicada que levava. E eu o admirei por isso!
E isso me fez se perguntar o que André poderia ter feito de tão grave, para que Ariadne tivesse por ele tanto desafeto?!
Ele acha que é consequência de sua traição com a prima dela. Mas eu duvido muito disso! Por mais i****a e inconsequente que André pudesse ter sido. Se Ariadne não conseguiu perdoar porque não se separou?
Eu não sei como ela consegue viver na mesma casa, e nem por um segundo não se sentir tentada a beijá-lo ou fazer amor com ele!
Nosso café da manhã foi incrível! E então decidimos voltar... Eu pra minha casa; e André disse que passaria na sua apenas para tomar um banho, depois seguiria direto para a redação.
- Tem certeza de que não quer que eu te leve em casa? André insistiu mais uma vez.
- Tenho. Prefiro que me deixe na estação mesmo. É mais rápido! Respondi não querendo que ele soubesse onde eu moro.
Ele apenas assentiu e seguimos até a estação. André estacionou em frente, e esboçou um sorriso desanimado.
- André eu gostei muito de você ter me procurado! Admiti. - E obrigada pelo café da manhã. Foi muito agradável!
- Eu também gostei muito! Ele tirou um cartão do bolso e me entregou. - Esse é o meu telefone pessoal e o do escritório. Me ligue em qualquer emergência que aparecer!
Peguei o na mão e li mentalmente seu nome no cartão... "André Monteiro Linhares "
- Obrigada. Sorri agradecida. - Agora preciso ir!
- Espero te ver em breve! Ele disse dando um leve beijo em minha mão.
- Eu também... Respondi concordando.
- Até mais André!
E saí do carro em seguida.