Depois que minha mãe foi embora eu tive certeza de que ela me via como a sua inimiga, e não como filha.
Nós nunca tivemos uma relação boa de mãe e filha, mas ela nunca me ameaçou dessa forma! Se bem que ela ter me expulsado de casa é bem pior do que isso!
O que esperar de uma mulher que aprisiona o marido?! Meu pai é tão bonzinho! Meus olhos marejam só de pensar em deixá-lo sozinho com aquela louca!
Ela tem sentimento de posse sobre ele. O despreza mas também não quer perde-lo pra outra mulher. Não precisa ser psiquiatra pra saber que ela é narcisista!
Quando ele apareceu na frente do colégio meu sorriso se abriu espontaneamente. Ele também sorriu em resposta, e então abri a porta e entrei em seguida.
- Pai! Falei o abraçando. - Que saudade!
- Eu também querida! Ele beijou meu ombro em demonstração de afeto.
Fiquei o observando enquanto dirigia.
- Pai, você está mais bonito! Franzi meu cenho analisando seu semblante. - E está sorrindo...
Papai me olhou sem jeito.
- Você acha? Se atrapalhou um pouco.
- Não está comemorando minha partida né? Ironizei.
- Caroline!! Disse espantado. - Deus sabe como estou quebrado por dentro por deixar você ir! Se eu pudesse evitar...
- Papai eu sei... É brincadeira! Respondi.
- Além disso precisamos conversar... Começou. - Eu não poderei ir embora como você me propôs... Ele suspirou. - Sua mãe ouviu a gente ontem e está histérica! Disse que se eu sair de casa, ela te entrega no conselho tutelar.
Então ela fez isso. Ameaçou papai e depois a mim! Assim nenhum de nós a enfrentaria!
- Pai ela não pode fazer isso com você! Respondi aflita.
- Querida pensa que será apenas um ano. Logo você fica de maior e sua mãe não poderá mais nos pressionar! Deu-me um leve sorriso.
Eu sei que ele fazia isso por mim! Ele sempre fez tudo por mim!
- Pai, me dói vê-lo abrindo mão de sua felicidade por mim! Encostei minha cabeça em seu ombro chateada.
- Você é a minha felicidade, eu faria qualquer coisa por você! Ele beijou o topo da minha cabeça.
No restaurante pedimos os mesmos pratos. Temos gostos iguais e já tínhamos ido lá outras vezes.
Meu pai colocava água em meu copo quando comecei a falar.
- Pai... Você tem uma amante? Perguntei.
Ele levantou seu olhar pra mim.
- Foi sua mãe né? Ela disse isso pra você!
- Pai eu quero saber por você! Não interessa o que a minha mãe fala. Eu só confio no que o senhor diz! Respondi.
Ele suspirou fundo e de cabeça baixa negou.
- Não é amante. Falou.
- É sua namorada? Insisti.
- Não também... Ele m*l conseguia me olhar. - É complicado!
- Pai! Peguei a sua mão sobre a mesa e segurei. - Está tudo bem! Sou eu!
- Por enquanto ela não tem definição, filha! Respondeu-me um pouco cabisbaixo.
- Mas você gosta dela! Afirmei.
Ele se calou, mas fitou meus olhos se entregando sutilmente.
- Estou feliz que esteja conhecendo alguém! Falei sendo sincera.
- É só uma amiga filha, não tem possibilidade nenhuma de algo sério! Ele disse resoluto.
- Acho quase impossível ela te conhecer e não se apaixonar por você! Pai você é incrível! É trabalhador, inteligente, bem-humorado, e lindo!! Sorri o olhando.
- Disse bem, eu sou o seu pai! Sorriu.
- Aah não digo só por isso! Dei-lhe um tapinha. - Ela é uma tonta se te deixar escapar!
Nossas comidas chegaram e então nos calamos. Provamos juntos, e ele mudou de assunto educadamente.
- Eu preciso fazer uma viajem á trabalho dentro de alguns dias. Você ficará bem?
- Claro pai! Assenti.
- Me passa o número da conta da sua colega de quarto, quero adiantar três meses, para que você fique despreocupada. E use o cartão de crédito que eu deixei pra você! Sinalizou.
- Pai eu vou ficar bem! Tentei tranquiliza-lo.
- Eu quero ter certeza! Não é porque não estamos morando mais juntos que vou te abandonar! Seus olhos brilharam.
- Eu sei! Obrigado pai! Agradeci. - Eu te amo! Falei carinhosa.
- Eu te amo mais! Respondeu.
Na volta seguimos até o prédio de Anna. Papai voltou mudo, acho que enfim a ficha havia caído de que eu estava indo embora.
Entramos no condomínio e ele parou em frente ao edifício.
- Pai! Falei vendo-o chorar.
- Esquece tudo isso e volta comigo pra casa?! Pediu.
Sequei suas lágrimas com meus dedos.
- Me desculpe! Senti minha garganta sufocada.
Ele assentiu e tirando o cinto de segurança abriu a sua porta indo pegar às minhas malas. Também saí do carro em seguida.
- Eu embalei tudo o que consegui. Se eu tiver esquecido algo me ligue e imediatamente eu trago! Papai falou.
- Tudo bem pai! Peguei o puxador das malas de rodinhas e indo em direção a portaria.
- É melhor eu entrar com você! Ele sugeriu.
- Não pai. Eu quero fazer isso sozinha! Pedi.
- Carol quero conhecer quem é a pessoa que vai morar com você. Saber se é de boa índole! Insistiu.
Mal sabia ele que são duas pessoas!
- Pai, eu sei que me ama e se preocupa comigo! E não tem no mundo alguém que eu ame mais do que você. Más me deixe ter minhas próprias experiências? Por favor!
Ele assentiu desanimado.
- Promete que vai ligar? Disse preocupado.
- Todos os dias! Jurei de mão levantada.
- E se tiver em apuros...
- Não se preocupe eu ainda carrego na bolsa o spray de pimenta que você me deu! Respondi.
- Ainda se lembra como dar um mata leão? Indagou.
- Sim lembro... Concordei.
E me arrependi de não ter dado um em Guilherme quando tive oportunidade.
- Então essa é a minha deixa! Ele disse me dando um abraço forte. E beijou minha testa em seguida.
Eu queria ter dito mais alguma coisa mas meu pai se afastou, e caminhou rapidamente até o carro. Ele não queria que eu o visse saíndo arrasado.
Papai fez o retorno com o carro e eu fiquei o olhando ir embora.
- Também vou sentir a sua falta pai! Sussurrei deixando às lágrimas caírem.
Entrei no prédio, Anna havia liberado minha passagem. Agora eu também fazia parte daquele condomínio como moradora.
Subi de elevador e quando cheguei no andar de Anna toquei a campainha de seu apartamento. Ela abriu a porta com um sorriso, em sua cabeça havia uma toalha enrolada.
- Aah desculpe você estava tomando banho? Perguntei sem graça.
- Não se preocupe, já terminei. Estava hidratando os cabelos. Ela explicou.
Entrei no apartamento puxando às malas e ela fechou a porta.
- Seus cabelos são tão bonitos, achei que você cuidava deles no salão! Comentei, e me arrependendo imediatamente por ser tão tagarela.
Mas Anna não se importou.
- Salões estão há cada dia mais caros, prefiro cuidar das madeixas em casa mesmo! Sorriu.
Ela era tão doce, tão meiga...
- Carol você pode ficar com a cômoda só pra você. A tia da Gio comprou um armário pra sobrinha e ela me disse que chega hoje. Explicou.
Fiquei pensando se eu e a tal Gio daríamos certo!
- Obrigada. Respondi.
- Estarei no meu quarto caso precise de algo! Fique a vontade, a casa é literalmente sua!
Sorri assentindo, e ela chamou seu gato que estava no sofá dormindo.
- Christopher! Vem com a mamãe?! E ele se levantou seguindo-a até o quarto.
Fui até o quarto que pertencia a mim e a esquisita. Havia apenas uma cama, e eu sozinha decidi que dormiria na sala. Naquele sofá maravilhoso de Anna junto do gato.
Desfiz às minhas malas ajeitando às minha coisas na cômoda. O quarto não havia decoração nenhuma, e apenas dois móveis.
Anna deixou para que a gente decorasse. Porém seria um pouco difícil pois se via de longe que Gio e eu tínhamos gostos totalmente diferentes.
Ouvi do meu quarto o barulho de secador vindo do quarto de Anna, e imaginei que ela estivesse finalizando o seu cabelo.
Deitei-me na cama e mandei uma mensagem para Miguel. "Eu disse que estava bem e que havia dado tudo certo."
Mas sinceramente estava com saudades de sua companhia, e só queria puxar assunto.
Como Miguel não me respondeu acabei me aninhando naquela cama e adormecendo sem perceber.
(...)
Acordei com uma porta se abrindo, passei a mão pelo rosto envergonhada de ter dormido tanto tempo.
- Desculpe, não queria te acordar! Gio apareceu toda atrapalhada com vários livros nas mãos e uma mochila nas costas. - Como você está?
- Acho que bem! Respondi atordoada.
- Que horas são? Perguntei.
- Cinco e meia da tarde. Ela respondeu.
Misericórdia! Minha mente deu um estalo. Eu havia dormido tempo demais!
- Sinto muito por ter dormido na sua cama. Falei me levantando.
- Oh não se preocupe! Ela disse ajeitando às suas coisas. - Eu compro um colchão e a gente reveza!
- Ah não, eu prefiro dormir no sofá mesmo! Falei a olhando. - Caso a Anna não se importe! Dei de ombros.
- Por mim tudo bem! Ela respondeu.
Gio era timida, não encarava nos olhos. Ela estava usando óculos de grau, mas atrás deles se via que seus olhos eram extremamente lindos.
- Gio! Anna bateu na porta.
Gio abriu para que Anna entrasse.
- O porteiro avisou que sua tia chegou com o seu armário, quer ir recebê-los?
- Aah sim... Ela disse atrapalhada. E desceu rapidamente.
Anna e eu rimos. Acompanhei Anna até o sofá e falei sobre a hipótese de dormir nele. Com receio de que ela fosse contra.
- Por mim tudo bem! Ela deu de ombros.
Anna contou que não sabe cozinhar. E me disse que nunca janta em casa, pois ela trabalha á noite.
- Eu sei fazer comida. Revelei. - Não é algo muito elaborado más... Meu pai me ensinou algumas coisas.
- Ótimo! Você e a Gio podem ficar com a função da cozinha. E eu organizo o resto!
Anna era prática e bem resolvida. Com ela eram respostas curtas e atitudes rápidas!
Já que ela me designou na função "cozinhar" fui me familiarizar com às panelas.
A tia de Gio não subiu, ela soube respeitar bem a regra de Anna. De não trazermos Ninguém Pra Casa! Isso inclui qualquer parente, namorado ou amigos!
Eu achei a ideia perfeita! Não sou hipócrita de negar que meu pai é conhecido por fazer parte do jornal de São Paulo. E também por suas colunas onde ele descreve o movimento político em sátiras.
Ela rapidamente ligaria meu sobrenome ao Tio Pither. Ele também é um dos médicos mais reconhecidos pois fez psicologia em Harvard; e depois que casou com a Tia Angel decidiu fazer uma especialização em psiquiatria, onde estudou mais três anos.
Anna facilmente já ouviu falar dele! Ou até mesmo do Tio Lorenzo com a sua construtora e engenharia.
Eu jamais mencionarei o sobrenome Monteiro nessa casa em hipótese nenhuma!
Enquanto Anna gargalhava no sofá de novelas antigas em sua TV. Ouvíamos o barulho de algo sendo montado no quarto, sobre a supervisão de Gio.
Eu prossegui com meu strogonoff e arroz branco. Quando notei a mensagem de Miguel em meu celular.
Um alívio me tomou por enfim ter notícias dele!
Miguel comentou que foi visitar Diana, e depois passou no trabalho do Tio Lorenzo para vê-lo. Ele perguntou como foi meu dia no colégio, e eu respondi "normal."
Alguns instantes digitando algo que nunca parecia ter fim, apareceu a mensagem mais esperada por mim.
"Vamos sair essa noite?"