Eu não quero sentir essas coisas! Não posso desejar o meu próprio tio! Ele mesmo disse… me viu nascer. Ainda lembra da minha mãe dormindo na sala da casa deles até que meu pai conseguisse um lar para os dois.
É errado, eu sei. É incesto. Mas, ainda assim, eu o quero como jamais imaginei querer alguém.
O que senti por Guilherme nem se compara ao que sinto por Miguel. Com ele não é só desejo — é paixão, é querer tê-lo pra mim, é sonhar em acordar um dia em sua cama e poder admitir sem medo o meu amor.
Eu sei que, independentemente de eu ser sua sobrinha, Miguel se controla… mas não porque me vê como algo sagrado. Ele se controla porque não se apega a ninguém. Se algum dia chegássemos a t*****r, para mim seria o mundo, mas para ele… apenas sexo.
Mesmo depois de admitir que amou me beijar da primeira vez — e repetir apenas para comprovar — o que move Miguel é o proibido. Esse homem é atraído pelo risco, e a ideia de sermos flagrados pela família só atiça ainda mais a sua curiosidade.
Eu não sou inocente. Ele pode ter a mulher que quiser. Nunca mais quis casar, mas bastaram poucas horas para fazer Cassandra se abrir pra ele.
Duas mulheres apenas resistiram ao seu magnetismo. Esther — graças a Deus — porque no fim descobriram que eram irmãos. E tia Deborah, porque o coração dela já pertencia a Lorenzo, que também é um homem admirável.
Talvez você pense: “Nossa, que exagero dessa garota mimada.” Mas eu desafio qualquer uma a ficar frente a frente com Miguel sem vacilar. Duvido que consiga encarar seus olhos firmes por dois segundos sem se perder.
Quando ele sussurra frases em meu ouvido, eu simplesmente esqueço de tudo. É como se só restasse nós dois no mundo. Sem impedimentos, sem laço de sangue, sem diferença de idade… apenas nós.
Eu me pergunto, às vezes, se não estou perdendo a razão. Como posso desejar tanto alguém que, por laço de sangue, nunca deveria ultrapassar a linha? Mas quando penso em Miguel, não é só o tio que vejo... é o homem. O homem que tem um olhar que me despedaça e me reconstrói ao mesmo tempo. O homem que tem o poder de me fazer tremer só de encostar a ponta dos dedos na minha pele.
É errado, eu sei. É um peso que carrego em silêncio. Mas dentro de mim existe essa chama que não apaga. Quanto mais tento fugir, mais ela me consome. Eu poderia rezar todas as noites, tentar sufocar o que sinto, mas bastaria um único olhar dele para que tudo desmoronasse outra vez.
Às vezes, tenho medo... medo de que ele descubra o quanto já me entreguei a ele sem que tenhamos ido até o fim. Medo de que perceba que, mesmo quando brigo, quando o insulto, é porque não suporto a força que ele exerce sobre mim. Miguel é como um vício. E eu, covarde, me deixo viciar.
Se algum dia eu me render por completo, sei que não haverá volta. Não seria só um beijo roubado, não seria apenas o "proibido" que tanto o instiga... seria a minha vida inteira se misturando à dele. E ainda assim, por mais que eu tente me convencer do contrário, eu quero. Quero tanto que chega a doer.
E foi por isso que, quando o vi atravessar a porta do quarto em direção ao banheiro, tomei a decisão de ir embora. Peguei meu celular e a bolsinha sobre o balcão, virei as costas e saí o mais depressa possível, fechando a porta atrás de mim com o coração acelerado.
Enquanto chamava o elevador, uma voz dentro de mim insistia que talvez eu estivesse errada em sair sem avisar. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que ir embora era o certo a se fazer. Não poderia permanecer naquele apartamento depois do que tinha acabado de acontecer.
Miguel não pediu para eu esquecer, tampouco demonstrou arrependimento como da primeira vez. E era exatamente aí que residia o perigo. Eu não sabia se teríamos forças para nos conter quando ele voltasse do banho. Só de imaginar a cena dele saindo com os cabelos molhados, a toalha enrolada nos quadris e gotas deslizando pela pele quente... um arrepio cortou minha espinha.
O elevador chegou. Entrei apressada, uma mistura de medo e vontade de chorar dominando meu corpo. Eu estava prestes a quebrar a confiança que meu pai sempre depositou em mim. Nunca guardei segredos dele — e agora carregava um que jamais poderia sequer pensar em revelar.
O visor iluminado mostrou o elevador descendo até o primeiro andar. Saí em passos rápidos, sem olhar para os lados, sem cumprimentar ninguém. Só queria atravessar o portão, chamar um táxi e desaparecer dali.
Para minha sorte, um táxi estava parado bem em frente. Entrei quase sem pensar e pedi que me levasse para casa. Foi só quando a porta do meu prédio surgiu diante de mim que o celular começou a vibrar insistentemente.
Era Miguel.
Ele não parava de ligar. O nome dele piscava na tela, um chamado atrás do outro, sem trégua. Resisti até onde consegui, mas dentro do elevador, como se já não tivesse forças, atendi.
A chamada era de vídeo.
E lá estava ele.
Miguel apareceu na tela, ofegante, cabelos ainda úmidos, o peito nu reluzindo sob a luz do quarto e apenas uma toalha amarrada nos quadris. A expressão em seu rosto era de puro desespero.
— Onde você está? — perguntou, a voz grave e carregada de preocupação.
— Voltando pra casa... — respondi, sem coragem de encará-lo na tela.
— Carol, o que foi que aconteceu? — insistiu, o tom carregado de culpa.
Me atrevi a levantar os olhos para ele. A imagem me feriu e me atraiu ao mesmo tempo. Os cabelos molhados pingavam em sua pele, o olhar firme me prendia, e eu evitava a todo custo imaginar o resto do corpo escondido sob aquela toalha.
— Você ainda pergunta? — murmurei sufocada, sentindo o nó na garganta apertar.
O elevador abriu e caminhei pelo corredor, ainda com a chamada ativa, sem conseguir desligar. O peso daqueles olhos me perseguia pela tela, me consumindo. Entrei em casa e, por um instante, tudo pareceu silencioso demais. Christopher veio miando, enroscando-se em minhas pernas, me acompanhando até o sofá.
Na tela, Miguel hesitou.
— É... Carol... eu... — respirou fundo, a expressão séria. — Eu não vou te beijar mais. Se isso te tranquiliza.
Suspirei, mas o alívio que ele esperava não veio. Pelo contrário, as palavras me cortaram.
— Esse é o problema, Miguel... — confessei, a voz trêmula. — Eu não quero que você pare. Foi por isso que voltei pra casa... porque sei que não consigo resistir.
Ele se inclinou para mais perto da câmera, como se pudesse atravessar a tela.
— A gente precisa conversar. Quer que eu vá aí?
— NÃO! — respondi de imediato, nervosa. — Você não entende? Olha só a forma como você está, Miguel! Sem camisa, molhado... e ainda me liga desse jeito!
Meus olhos ardiam. Respirei fundo, tentando segurar as lágrimas.
— Você sabe que isso é errado... — sussurrei.
— Não me corta da sua vida, Carol! — a súplica dele foi quase um grito abafado. — Se você quiser, colocamos a culpa na tequila, fingimos que não aconteceu nada!
— E ontem? — perguntei, engolindo seco, sem ceder ao seu charme. — Também vamos culpar o álcool?
Ele me fitou em silêncio, como se buscasse as palavras certas. Então, quase num desespero, deixou escapar:
— Me diz o que você quer... e eu faço. O que você quiser, Carol... só diz.
Como assim? Era isso mesmo que eu estava ouvindo? Miguel Ângelo estava mesmo pedindo — ou melhor, quase implorando — para que eu não me afastasse dele!
— Depois que voltei de Portugal, você não faz ideia de como eu estava quebrado por dentro. E te encontrei, felizmente, naquela ponte... mas é como se eu também precisasse de uma segunda chance. Carol, você me faz voltar no tempo! É como se eu tivesse dezessete anos outra vez! Você bebe e dança comigo, me acompanha nos meus lugares preferidos sem reclamar, é engraçada, fala o que pensa... e ainda fica linda vestida com as minhas camisas — revelou, a voz carregada de verdade.
— Talvez você só esteja vendo no meu jeito um reflexo do seu melhor amigo, o Pither! — dei de ombros.
— Eu nunca tive vontade de beijar, nem de dormir com o Pither! — foi direto, depois suspirou. — Desculpe... eu não devia ter dito isso.
— Hoje mesmo você estava me incentivando a ficar com o Bernardo Trajano! — falei, soltando o ar em frustração, sem conseguir entendê-lo.
— Aquilo era o seu tio Miguel falando... porque é o certo a se fazer! Deixar que você namore alguém da sua idade.
— E o que o Miguel homem falaria? — indaguei, firme.
Miguel hesitou. Seus olhos fugiram dos meus pela tela, ele suspirou fundo, como se travasse uma batalha interna.
— Acho melhor encerrarmos a ligação... — disse baixo, sem coragem de me olhar.
— Você disse... — falei firme, meu coração acelerado. — Que faria qualquer coisa. Que era só eu pedir. Então me diz...
— Pra quê você quer saber? — rebateu, a voz atormentada.
— Porque eu tenho a opção de escolher se ouço o meu tio... ou o Miguel homem. — respondi, calma, mas decidida.
— Caroline... você quer me ouvir falar pra depois jogar na minha cara o que eu já estou cansado de saber! Que é errado... Eu sei. E estou lutando todos os dias contra os meus próprios instintos para não te querer, para não dormir com você! — confessou, a voz carregada de dor.
— E o que você acha que aconteceria? — perguntei, firme, sentindo minha garganta secar. — Que depois eu ficaria correndo atrás de você, igual uma cachorrinha? Eu conheço bem o seu estilo de vida! — falei com desdém, tentando esconder a dor.
— Você não sabe nada sobre mim! — retrucou, a voz mais grave. — E mesmo que soubesse... acha mesmo que nós dois teríamos futuro?
Por um instante, o silêncio foi absoluto. Nossas respirações pesadas preenchiam o espaço entre nós, mesmo separados pela tela do celular. Eu podia sentir a fúria, a dor e o desejo dele atravessando o vidro. E, no fundo, sabia que a pergunta que ele fez não era uma dúvida... era um aviso.
Porque se eu dissesse “sim”, se eu dissesse que acreditava em um futuro para nós dois, nada mais seguraria Miguel. Nem sua consciência. Nem a culpa. Nem o medo.
E eu... não tinha certeza se queria ser salva dessa queda.