Histórias Emotivas - Anna Lara

1456 Words
Enquanto observava o porta-retrato, dois toques ecoaram na porta. Ao me virar, vi André parado, sorriso nos lábios. — Já vi que encontrou o nosso cantinho preferido! — disse, entrando no quarto. — Me desculpe, não quis ser invasiva… — falei, um pouco sem jeito. — Não se preocupe! — respondeu, posicionando-se atrás de mim, tão próximo que precisei levantar o rosto para encará-lo. — São seus irmãos? — perguntei, apontando para o porta-retrato. Ele assentiu devagar, o olhar preso à imagem. — Sim. Pither é nosso primo, mas é como se fosse um irmão. Voltei meus olhos para a foto; eu sabia quem era o primo, mas ele não podia saber disso. — Quem é o mais velho? — perguntei, curiosa sobre o affair da Carol. André foi apontando um a um, com uma calma quase cerimonial: — Esse é o mais velho… Matheus. — sorriu. — Esse é o Lorenzo. — indicou o de cabelos pretos e olhos azuis. — Miguel, Pither e eu. Então esse é o nome dele? Miguel. Fiquei pensativa. — São todos casados? — perguntei. — Sim. — assentiu. — Exceto o Miguel. Ele se separou há alguns anos. Ele não é casado?! Então por que Caroline me fez pensar que sim? Ela me disse que o amor deles era proibido… — Você os conhece? — André arqueou as sobrancelhas. — Não! Por que os conheceria? — respondi de pronto, tentando disfarçar. — Aaaah! — suspirei. — Fique tranquilo, seus irmãos não frequentam o bordel. — Eu não quis te ofender! — ele tocou meu braço, preocupado. — Sei que eles não vão a esses lugares… bom, talvez o Miguel fosse… Mas essa não é a questão! — se atrapalhou, arrancando de mim uma risada. — Não tem problema, não me ofendeu! — sorri de canto. — Sei muito bem quem sou. E já conheci de perto o preconceito… Imagine o que diriam as senhoras que sentam ao meu lado no metrô se soubessem quem realmente sou. — É por isso que nunca vai vestida a caráter para o trabalho — afirmou. — Nem poderia… — dei de ombros, voltando o porta-retrato ao lugar. — Por isso tenho uma vida dupla. — Mas não será para sempre! — disse, caminhando pelo quarto. — Penso que é apenas uma fase. — Diz isso porque te contei sobre o meu sonho… — olhei-o pelas costas. — Acha que vou passar no vestibular. — Você não? — ele se virou. — Não tenho tanta certeza… Talvez não tenha estudado o suficiente. — Cindy, não! — aproximou-se e me abraçou, com calor inesperado. — Eu tenho certeza que você vai se sair muito bem. O jeito como acariciava meus cabelos, com os braços me envolvendo, fez aflorar uma lembrança dolorida: eu nunca tinha sido abraçada assim. Era estranho… alguém tocar meus cabelos, afagar meus braços, apenas por carinho. Sem segundas intenções. Eu não estava acostumada com esse tipo de atenção. — Eu… — afastei-me, desconcertada. — Preciso avisar que não vou trabalhar hoje. Ele apenas concordou com um olhar firme. Que i****a eu sou! Pareço um bicho do mato. Mas eu não saberia como reagir se ele continuasse. (...) Fui até o quarto onde estavam minhas coisas, peguei o celular e disquei para o telefone do Pub. Implorei mentalmente para que uma das meninas atendesse… ou até mesmo o bartender. Felizmente, a voz suave de Aurora soou na linha. Simulei um resfriado repentino, dizendo que havia pego chuva e estava ardendo em febre. Era a única desculpa capaz de convencer Gothel a nos deixar em casa sem fazer perguntas. Ela detestava que trabalhássemos doentes — dizia que isso espantava clientes. Aurora desejou melhoras e prometeu avisar a dona. Respirei aliviada. Voltei ao quarto e encontrei André parado diante de um skate preso num suporte. — O que está fazendo? — indaguei. — Nada demais — respondeu, sem tirar os olhos do objeto. — Apenas voltando ao passado. — Isso é seu? — perguntei, surpresa. Ele sorriu de leve. — Ah, meu Deus… você anda de skate, André?! — falei, boquiaberta. — Andava… há muitos anos. — tocou a base do skate, com carinho. — Eu era bom. Participei de campeonatos, tinha patrocinador e tudo. — E por que parou? — perguntei, sentindo um aperto. Ele se virou, e antes que respondesse, completei: — Porque virou pai. — Eu precisava trabalhar… Não era um atleta profissional. E a barriga de um bebê não espera. Abriu a estante, revelando dezenas de troféus e medalhas. — São todos seus? — perguntei. Ele assentiu. — Por que não guarda na sua casa? — Ela não os quer lá. Diz que só servem para juntar poeira. — notei a amargura em sua voz. — Pither deixou que eu guardasse tudo aqui. — Por isso disse que essa casa e você têm uma história… — relembrei. — Tudo o que eu não quero esquecer, trago para cá — respondeu, me fitando. Nossos olhares se cruzaram e, como num ímã, nossos corpos se aproximaram. Nossos lábios se encontraram num beijo longo, intenso. Um fogo invisível cresceu dentro de mim, cada vez mais forte. André me deitou sobre a cama, os beijos descendo pelo queixo até meu pescoço. Arfei, olhos fechados. Ele tirou a camiseta num movimento rápido e voltou a me beijar com urgência. Toquei seus braços, sentindo seu corpo quente, o desejo pulsando entre nós. Minha blusinha voou para o outro lado da cama; apenas meu sutiã nos separava. Ele acariciou minha barriga, explorando cada centímetro como se fosse vital para ele. Não me considero tímida, mas o jeito como me olhava ao tirar minha calcinha — misto de desejo e adoração — fez meu coração disparar. — Você me deixa louco… — sussurrou, entrando em mim. Minhas unhas cravaram em suas costas. Ele colou a testa na minha, olhos nos meus, estocando firme. Por minutos, me entreguei à ilusão de que aquele homem era só meu. Ele me levou ao clímax antes de se satisfazer. Pela primeira vez, fora do Castelo Club, ouvi-o gemer alto. Seus olhos escurecidos, respiração entrecortada, eram um convite à perdição. Deitou-se comigo no peito dele. O cafuné suave me fez adormecer — algo que nunca havia acontecido depois de t*****r. Acordei horas depois, assustada. Adormeci na cama de alguém… na casa de alguém… com o marido de alguém! Mas, ao me virar, vi que estava sozinha. André já havia saído. No criado-mudo, uma foto de Esther. Seu sorriso doce me fez lembrar a última vez que a vi: grávida, na véspera de Natal, levando brinquedos ao orfanato com Pither. Eu tinha oito anos. Ela me abraçou e disse que eu sempre seria uma princesa. — Oi, amiga… — falei ao porta-retrato. — Acho que você não fazia ideia de onde a Cinderela ia parar. Sinto muito por te decepcionar. Toquei seus cabelos através do vidro, respirei fundo e voltei a foto ao lugar. O aroma de comida tomou conta da casa. Tomei um banho longo, lavei os cabelos, esfoliei a pele e passei meu perfume preferido. Desci as escadas e encontrei André na cozinha, cortando legumes, cantando ao lado de uma Alexa. Usava um avental que o deixava perigosamente sexy. — Olá, Bela Adormecida — disse, concentrado. — Como consegue picar tão rápido? — perguntei, sentando-me na banqueta. — Anos de prática! — respondeu, vaidoso. — Estou preparando medalhão ao molho madeira com legumes. Não temos vinho madeira, então improvisei com um da adega do Pither. — O cheiro está ótimo. — Vou fazer arroz à piamontese, com creme de leite sem lactose, caso seja intolerante. — Você pensa em tudo… — sorri. — Minha sobrinha Rebecca é intolerante. Cozinhamos assim para incluí-la em todas as refeições — disse, com um sorriso de canto. — Como aprendeu a cozinhar? — perguntei, apoiando o queixo na mão. — Quando meu avô apareceu na véspera de Natal com uma menina grávida e praticamente a deixou lá em casa, meus irmãos Lorenzo e Matheus trabalhavam como garçons num restaurante. Me ofereceram um emprego de ajudante de cozinha, e aceitei. — Sua filha deve ter muito orgulho de você. — Eu tenho muito orgulho dela. — Seus olhos brilharam. — É autêntica, inteligente, bem-humorada e carinhosa. Adora cozinhar comigo e ama futebol. — Ela é sua cópia fiel? — Definitivamente, nada da mãe. Estherzinha é doce, meiga e simples. Muito parecida com a tia. — Estherzinha? Sua filha se chama Esther? — ele assentiu. — Colocou o mesmo nome da primeira mulher do Pither? Meu coração gelou. Eu não fazia ideia da besteira que acabara de dizer. André se virou lentamente e me olhou nos olhos. — Como sabe que a primeira mulher do Pither se chamava Esther?
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