- Eu estou de carro, quer que eu te leve pra casa? Ele disse se mostrando gentil.
Neguei rapidamente com a cabeça. Minha casa é o último lugar que eu pretendia ir!
- Minha casa não! Minha voz quase não saiu.
Ele apenas assentiu abrindo a porta de seu carro pra mim e me tirando dali. Se a situação fosse outra eu jamais entraria no carro de estranhos, mas pra quem tinha atentado contra a própria vida... Há essa altura não tinha mais medo de nada!
Ele fez o retorno e saiu comigo pela cidade, meu celular estava desligado. Eu o desliguei com medo da minha mãe me rastrear!
Fiquei olhando as luzes pela janela, m*l olhei pra ele. Mas estava curiosa em saber quem era o meu salvador? Ele me conhecia perfeitamente bem, pois falou meu nome corretamente.
Vinte minutos depois paramos em frente a um condomínio de prédios.
- Olha... Ele disse se virando pra mim. - Eu vou ficar aqui. Se você tiver uma amiga que possa te buscar... Ou eu mesmo posso te levar até lá.
Mal sabia ele que eu não tinha ninguém! Ninguém que realmente se preocupasse comigo! Exceto meu pai, que por minha culpa estava no hospital!
Apenas baixei minha cabeça e a balancei negando.
- Então tá! Ele concordou. - Se você quiser entrar um pouco eu...
- Eu quero! Respondi rapidamente.
Ele voltou a dirigir o carro e então deu seta para entramos no condomínio. Quando a luz tocou seu rosto e seus braços nitidamente aparente, eu me toquei de que também o conhecia.
Saímos juntos do veículo e eu caminhei sentido a portaria junto dele.
Apesar de quase nove anos sem vê-lo, ele praticamente estava igual!
Vi ele falar alguma coisa com o porteiro e sorrir. Entramos juntos no elevador e ele acionou o último andar, me olhava de vez em quando; mas eu evitava contato visual.
Saímos do elevador e seguimos até o apartamento, ele abriu a porta e me olhou dizendo:
- Olha deve estar estar cheirando poeira aí dentro! Há oito anos eu não venho aqui! Tudo bem pra você?
Nessa altura dos fatos eu estava aceitando qualquer coisa!
Passei pela porta adentrando o apartamento. Os móveis estavam cobertos com panos brancos, que até pareciam lençóis.
Ele puxou o lençol do sofá e fez sinal para que eu me sentasse.
- Acho que alguém já limpou tudo! Disse com um sorriso estonteante.
Ele abriu a janela da sala, e depois se voltou para mim um tanto preocupado. Como se estudasse o que ia dizer.
- Eu sei que você deve estar se perguntando quem sou eu... Ele deu um meio sorriso.
- Eu sei quem é você! Respondi com toda certeza, então ele me olhou diretamente nos olhos.
Os olhos dele era "hazel" algumas pessoas chamam de castanhos esverdeados, mas eu costumo dizer que eles mudam de cor conforme o humor, a iluminação ou a roupa.
Apenas cinco por cento da população possuem esses olhos. São extremamente raros; e dos quatro irmãos somente o Tio Miguel herdou.
- Se lembra? Ele indagou se sentando no outro sofá.
E eu assenti concordando.
- Você é o meu Tio Miguel. Respondi.
Ele deu um sorriso satisfatório, e eu só conseguia prestar atenção em suas tatuagens. Ele tinha um braço totalmente fechado com porções dela, até a mão.
- É... Eu tive uma fase um pouco agitada! Disse quando me viu fitar suas tatuagens.
- São lindas! Falei sendo sincera.
- Então Esther... Ele começou.
- Carol... O corrigi. - Prefiro que me chame assim.
Ele franziu o cenho um pouco confuso mas assentiu concordando.
- Por que ia pular daquela ponte? Enfim ele perguntou o óbvio.
Pra mim era tão difícil contar.
- Não conta pro meu pai que estou aqui! Pedi.
- Você precisa dizer que está bem... Ele te adora Esth... Carol! Se auto corrigiu.
Eu concordei com ele assentindo.
- Bom... Aqui não tem nada, eu vou pedir comida pra mim. Você quer? Perguntou-me.
Eu nunca negava comida, sempre estou com fome!
- Sim... Aceitei.
Ele pegou seu celular e eu me levantei para olhar pela janela. A vista de lá dava para a cidade, e era simplesmente linda.
- O que você prefere cheeseburger ou pizza? Disse ao meu lado.
- O que você quiser... Respondi sem me virar.
Ele voltou a sua atenção para o seu celular, eu liguei o meu ainda pensando no meu pai.
- Quer que eu ligue para o seu pai? Ele disse atrás de mim. Eu assenti.
Me virei pra ele enquanto o telefone chamava. E quando ouvi a linda voz do meu pai meus olhos se encheram de lágrimas.
Tio Miguel foi um cavalheiro, não contou que já tinha voltado de viagem, e nem que eu estava ali. Apenas perguntou como ele estava.
Meu pai relatou que havia passado m*l mas que já estava se sentindo melhor. Contou que chegou em casa mas não sabia meu paradeiro; e confessou que estava muito preocupado!
Sutilmente Tio Miguel apenas disse que com certeza eu ia dar notícias logo. E o tranquilizou assegurando que ele acreditava que eu estava bem!
Depois ele desligou o telefone.
- Vou buscar às minhas malas no carro. Por favor não faça nada i****a! Ele disse antes de sair.
Andei pelo apartamento pensando que o homem que minha mãe mais criticou em sua vida, estava agora me ajudando! Eu nunca soube o porquê, mas sabia que ela odiava de todas as formas o Miguel.
Meu celular vibrou e o visor anunciou o número do meu pai.
- Alô. Falei amedrontada.
- Filha? Graças a Deus! Onde você está meu amor? Sua voz era de alívio.
- Pai eu juro que àquela foto não sou eu! Respondi sentindo meus olhos marejarem.
- Eu sei Carol, eu conheço a filha que eu tenho! Volta pra casa, a gente senta e conversa...
- Minha mãe me expulsou... Falei sentindo meus olhos arderem. - Pai desculpa por ser toda a desgraça da sua vida!
- Meu Deus Caroline! Você não é nenhuma desgraça! Você é o amor da minha vida filha! Me diz onde você está e o papai te busca!
- Eu não quero voltar... Respondi chorando.
- Eu sei que você só aguenta ela todos esses anos por minha causa! Pai vamos embora nós dois dessa casa? Não precisamos dela pra nada! Falei cheia de dor.
- Carol eu estou muito preocupado com você...
- Eu estou segura. Estou na casa de... Exitei.
- De uma amiga... Respondi.
- Eu vou ficar com o celular ligado a todo instante, se você quiser voltar eu te busco. Não tenha medo de nada minha filha! Eu confio em você sempre! Você volta amanhã e a gente conversa sobre tudo, tabom?
- Tá bom pai... Concordei.
- Eu te amo filha! Disse amoroso.
- Eu te amo pai! Falei sentindo meu coração doer.
A porta principal fez um barulho e eu sequei os olhos rapidamente. Miguel apareceu no quarto, ele puxou o pano da cama e colocou suas malas em cima dela.
- Falou com o seu pai? Perguntou me olhando.
- Falei. Respondi.
Ele puxou o zíper de sua mala abrindo-a.
- Se você quiser tomar um banho aqui tem sabonete e toalhas limpas.
Eu queria muito tomar um banho.
- Na lavanderia tem uma máquina e secadora. Caso queira lavar às suas roupas...
- Obrigada! Respondi sendo grata.
- Eu vou buscar a nossa comida. Ele me avisou e saiu.
Abri a sua mala e tomei a liberdade de pegar seu shampoo. Ele tinha camisetas muito legais, e eu que sempre apreciei camisetas masculinas fui logo escolhendo uma.
No banho tentei esquecer tudo o que a minha mãe havia me dito, e me apeguei ao carinho do meu pai que sempre me amou.
Quando saí do banheiro vi Miguel com várias cervejas abastecendo a sua geladeira.
- O síndico me disse que a sua esposa limpou o apartamento três dias antes da minha chegada. E que colocou esses lençóis para preservar o lugar.
Sorri em ver a sua animação.
- Fui na conveniência aqui do prédio e comprei alvejante para as roupas, desodorante e uma escova de dente pra você. E cerveja pra mim.
Sorriu se virando para me olhar.
- Você colocou a minha camiseta?! Disse sem tirar os olhos dela.
- Espero que não se importe! Respondi um pouco sem jeito.
- Não, claro que não! Voltou a me olhar nos olhos. - Tem comida no balcão pra gente.
Fui até lá me sentando na banqueta. Peguei meu lanche, e vi quando ele pegou sua cerveja na geladeira.
- Eu quero. Falei.
- Nem pensar mocinha! Pra você é Coca-Cola! Quero te entregar ilesa amanhã pro meu irmão! Sorriu.
- Meu pai e eu bebemos cerveja assistindo ao jogo às quartas-feiras. Comentei.
Ele me olhou nos olhos pensativo.
- Meu irmão André da cerveja pra filha dele de dezesseis anos? Questionou.
- Faço dezessete no mês que vêm! Respondi me gabando.
Miguel gargalhou alto.
- Você é mesmo filha do seu pai! Disse me sacaneando.
Ele pegou uma garrafinha e tirando a tampinha com o abridor, se virou procurando um copo.
- Meu pai me ensinou a beber cerveja no gargalo! Falei virando o líquido na boca.
- Ele te educou muito bem! Disse sorrindo.
Depois se sentou junto a mim, também bebendo a dele.
- A última vez que te vi você era loira, e se chamava Esther! Falou de um jeito engraçado.
- Eu tinha sete anos! Não quero mais ser loira, e não gosto de me chamar Esther!
- Por que não? Indagou. - Sua tia era perfeita!
- Por isso mesmo! Respondi. - Não quero ser perfeita! E não quero que às pessoas esperem isso de mim! Respondi
- O André é um bom pai? Ele perguntou, e em seguida bebeu um pouco de sua bebida.
- Excelente... Respondi provando às minhas batatas fritas.
- Então quê "raios" você estava tentando fazer naquela ponte?
Eu ri do modo como ele trazia o sotaque de Portugal para a nossa conversa. E depois de tanto rir senti lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto, e quando vi estava chorando de verdade.
- Eiii calma! Disse segurando a minha mão.
- Se não quiser falar sobre isso...
- Fizeram uma montagem minha e espalharam em todas as redes sociais.
Miguel me olhou compadecido.
- Eu aposto que foi alguém do sexo masculino! Digo isso porque não posso chamar alguém assim de homem!
Assenti concordando.
- E meu pai passou m*l por minha culpa! E a minha mãe me acusou de ser irresponsável! Miguel revirou os olhos.
- Sua mãe sempre gentil! Disse irônico.
- Eu não queria magoar o meu pai! Falei.
- Eu sei que não! Me consolou. - E o cara é o seu namorado? Perguntou.
- Não... Neguei.
- Mas vocês ficavam? Interrogou.
- Uma vez... Respondi constrangida.
- Caroline não tem nada para se envergonhar! Esse moleque foi um filho da p**a com você! Respondeu irritado.
- Eu fui ingênua demais! Falei me martirizando.
- Ele é de maior? Perguntou.
- Sim... Respondi assentindo.
- Já pode levar uma surra! Falou.
- Isso só complicaria ainda mais às coisas... Respondi.
- Então podemos ferra-lo judicialmente! Ele procurava soluções. - Você tem o ticket do motel que vocês foram?
Quase caí da banqueta de nervoso. Fiquei vermelha com a pergunta direta dele.
- Me desculpe eu sou muito direto! Deu um sorriso travesso. - Mas se você tiver ajudaria...
Neguei com a cabeça.
- Nunca fui nesses lugares... Falei bebendo em seguida.
- Você foi pra casa dele? Ele perguntou.
Neguei outra vez, e bebi novamente para criar coragem de admitir meu fracasso.
- Foi no carro dele, mas especificamente em cima da ponte. Daquela maldita ponte! Falei mordendo o lábio envergonhada.
- Agora eu entendo tudo! Por isso te encontrei lá! Disse comendo. - Vários casais namoram no carro Carol, não se sinta m*l por isso! Mas acho que por ser a primeira noite de vocês, esse inútil teria que ser mais gentil!
Fiquei quieta por alguns instantes, e Miguel me olhou chocado.
- Aaah não!! Você não fez isso? Carol... Agora sim ele tinha entendido tudo.