Apesar de toda a dor que sentimos em um funeral, o do vovô Álvaro foi muito bonito! Pither disse algumas palavras homenageando o seu pai. Ele como o único filho amparou todo o tempo a Diana.
Minha mãe estava ao meu lado sempre soltando comentários diabólicos.
- Agora o seu tio Pither é um dos homens mais ricos desse estado! Balbuciou.
- E o que tem isso agora? Respondi irritada.
E ela se calou. Minha mãe nunca superou que o avô do meu pai tenha deixado boa parte de sua herança para a família do Pither, sendo que eles já eram ricos.
Raquel é blogueira por isso muitas pessoas que a seguem em seu canal foram dar um abraço nela, a apoiando.
- Essa garota gosta de se exibir! Mamãe sussurou a caminho do cemitério.
- Ela é famosa mãe, tem fãs... Revirei os olhos.
Mas eu não pude deixar de notar o quanto Rebecca se animou com o retorno do Miguel. Eles ficaram o tempo todo perto um do outro, conversando.
Antes de descerem o caixão o padre começou a falar algumas palavras de conforto a família. Diana chorava muito, e outra vez minha mãe fez um comentário m*****o.
- O que Pither viu na Angel? Ela é muito sem sal! Levantei meus olhos para observar o meu padrinho, e vi Angel ao seu lado segurando em sua mão.
Eu ia responder alguma malcriação a megera, mas olhei na direção das beatas fofoqueiras e vi uma mulher. Ela era igualzinha a Anna.
Será que ela veio até o enterro do Álvaro? Conhecia ele? Anna ficou olhando fixamente para Pither e Angel. Quando meu tio notou a presença dela, Anna saiu rapidamente dali.
Se Anna conhecia o meu Tio Pither será que ela conhece o meu pai?
Eu não queria que ela soubesse que sou uma Monteiro. Quero uma vida nova, sem influências de um sobrenome que não me vale de nada!
Me afastei um pouco da multidão e peguei meu celular ligando para Anna. Vi quando ela ia saindo pelo portão do cemitério e olhou rapidamente o visor de seu celular.
É ela!! Anna veio até aqui! Será que ela sabe de alguma coisa?
Na saída papai insistiu em caminhar ao meu lado, com seu braço em meus ombros falou:
- Vamos todos para a casa da Diana...
- Eu dispenso o cafezinho com bolo Papai. Respondi.
- Carol sua família precisa de você agora.
- Pai o que eles menos precisam é de mim! Não quero ter que explicar pra ninguém como fui tão i****a em confiar num garoto de colegial! Falei sem muita paciência.
- Ele não vai mais te incomodar, foi expulso da escola. E foi obrigado a se retratar sobre o que fez a você!
Mas isso não apaga tudo o que aconteceu! Pensei.
- Pai estou me mudando... Consegui alugar um quarto num apartamento com uma moça.
- Vai prosseguir com essa idéia absurda? Me fitou nos olhos.
- Vou sim Papai! Respondi com firmeza.
- Estarei me mudando amanhã. Por favor arrume às minhas coisas, pra casa eu não vou mais voltar!
Eu sei o quão triste meu pai ficou, mas essa decisão eu não podia revogar!
Meu pai me abraçou fortemente, e falou entristecido.
- Eu sinto muito por isso, filha!
- Pai você não tem culpa de nada! Sempre foi maravilhoso comigo, mas eu não tenho mais nada a ver com aquela casa!
- E se eu me mudasse? Você moraria com o seu pai num apartamento? Só nos dois! Deixou transparecer um sorriso de esperança.
- Quem sabe... Dei de ombros. - Por enquanto não fique preocupado comigo! Vá viver a sua vida Pai. Conhecer pessoas novas... O incentivei.
- Eu não sei se saberia viver outra vida! Me acostumei com a vida monótona. Da editora pro jornal, do jornal pra casa! Ele deu um sorrisinho triste. - Minha única felicidade foi ser pai, e você agora está me deixando... Achei que ia te perder para o seu futuro marido, num casamento. Nunca te imaginei saíndo de casa para morar com estranhos, dividindo um apartamento.
- Pai você só tem trinta e seis anos, já imaginou em ser pai novamente? O instiguei. - Ter uma esposa apaixonada, uma casa feliz!
- Não ficaria enciumada? Indagou.
- Mas é claro que não! Sorri. - Eu sempre vou ser a sua menininha. E é por te amar muito que não posso ser egoísta com você!
- Quer se livrar de mim né? Brincou me fazendo rir.
- Pai não conta pra mamãe sobre a mudança. Pedi.
- Nunca minha filha! Ele beijou a minha cabeça, e depois soltou a minha mão para que eu pudesse ir embora. - Até amanhã...
- Até amanhã Pai! Falei acenando.
Sei que para o meu pai esse era um dos momentos mais difíceis.
Voltei de táxi para o apartamento do Miguel. Peguei a chave que estava debaixo do capacho e entrei.
Anna me retornou a ligação, falou que já que nenhuma de nós queríamos desistir da vaga. Poderíamos fazer um teste nos três para ver o que ia dar!
Eu topei na hora! Não sei se a outra concordaria. Nesse momento mais do que nunca, precisava dessa chance.
Fui ao banheiro e tomei um banho, fiquei olhando o meu reflexo no espelho e imaginando que essa seria a minha última noite aqui.
Coloquei uma das camisetas de Miguel e sorri, pois sentiria falta de usar às suas roupas.
Depois fui até a cozinha preparar o jantar.
Por uma fração de segundos me veio á cabeça aquela segunda gaveta de Miguel.
O que será que ele guarda alí? Será que se eu bisbilhotasse um segundo ele perceberia?
Nem tive tempo de responder o meu próprio raciocínio. Vi quando a maçaneta da porta girou e ela se abriu num estalo.
Miguel passou pela porta calado, pendurou o casaco no cabidero e se aproximou do balcão de mármore.
- Como você está? Perguntou-me suspirando.
- Estou bem... Respondi levantando meu olhar para ele.
- É... franziu o cenho. - O que pensa que está fazendo com essa faca?
- Estou preparando o jantar! Respondi orgulhosa.
- Vish... Acho melhor pedirmos pizza! Ele me sacanou outra vez.
- Eu sei cozinhar tabom?! Respondi indignada. - Aliás essa noite é importante...
- Essa noite? Ele levantou uma sobrancelha só.
- Sim! É a minha última noite aqui. Amanhã me mudo para o apartamento da Anna.
Respondi entusiasmada.
- Você vai embora? Ele perguntou de um modo diferente.
Assenti.
- Enfim você vai se livrar de mim! Respondi animada.
Miguel me fitou nos olhos, e rapidamente sua expressão mudou.
- É... Ele pigarreou. - Enfim minhas camisetas terão paz!
Sorri continuando a cortar os legumes.
Miguel se levantou indo até a dispensa e trazendo consigo uma garrafa de vinho.
- Achei que não íamos beber hoje... Falei enquanto dourava a manteiga.
- Você conseguiu a vaga no apartamento da Anna. É o que você mais queria! Temos que comemorar! Ele disse pegando um saca-rolhas.
"Não é exatamente o que eu mais quero, mas sim uma alternativa de fuga!" Pensei.
Ele me entregou uma taça e colocou um pouco do vinho nela. Enquanto eu mexia a comida com uma espátula de madeira.
- Ao Tio Álvaro! Disse levantando a sua taça.
- Ao Vô Álvaro! Toquei levemente a minha taça na dele.
E juntos bebemos um pouco. Miguel voltou-se para o seu lugar no balcão.
- Achei que fosse para o cafezinho na casa da Diana! Falei puxando assunto.
-Não... Negou. - Me desculpei prometendo ir vê-los essa semana.
Concordei ainda olhando para o fogão.
- Estive conversando com o seu pai depois que você saiu... Miguel começou.
- Por que não me contou a verdade? Ele me encarou nos olhos. - Por que não disse o que aquele moleque infeliz fez com você?
Meu pai fofoqueiro! Pensei revirando os olhos.
- Carol amanhã eu vou na sua escola e você vai me mostrar quem é aquele desgraçado. Eu vou acabar com a raça dele! Ameaçou.
- Meu pai não devia ter te contado! Resmunguei.
- Achei que fôssemos amigos! Disse ofendido.
- A cidade toda comenta sobre mim agora. Conversar com você me fazia não pensar nisso! Respondi sem olhá-lo.
- Você é uma menina muito legal Carol. Não merecia passar por isso!
Baixei a chama do fogão, e provando um pouco mais da minha taça fui até ele.
- Infelizmente coisas ruins acontecem com gente boa! Respondi fingindo uma superação que não existia.
- Estou pensando em dezenove maneiras de matá-lo! Miguel estreitou seus olhos.
- Não vale a pena! Me debrucei sobre o balcão o olhando. - Meu pai vai resolver de outra maneira!
- Infelizmente seu pai e eu não pensamos da mesma forma! Ele esboçou um sorrisinho de canto.
- Meu pai é centrado! E muito correto! Respondi orgulhosa.
- Não... Ele é triste! Miguel soltou o que realmente pensava.
Baixei minha cabeça porque era verdade.
- Carol em seu pai havia uma alegria que ele não conseguia conter! Costumávamos falar que a risada do Andrézinho era mais engraçada do que a piada que ele contava!
Senti uma pontada no peito ao perceber que meu pai não era mais assim.
- O que a sua mãe fez com ele todos esses anos?! Miguel parecia indignado. - Sei que estávamos em um funeral, mas nota-se que a tristeza do meu irmão vai além disso!
- Concordo que meu pai merece mais! Respondi.
- Sua mãe continua com aquela mania de achar que seu pai foi passado para atrás na divisão dos bens não é? Ela é avarenta! Você disse que eles dormem em cama separadas porque ele teve um romance com aquela fulana mas... Miguel suspirou. - Creio eu que eles nunca se amaram... Não de verdade!
- É! Minhas mãe vive jogando isso na minha cara; que meu pai só se casou com ela porque estava grávida de mim! Respondi indo olhar as panelas.
- Meu Deus! Essa mulher é sem coração! Não se sinta rejeitada Carol! Miguel falou amavelmente.
- Eu? Pelo meu pai nunca! Ele é o melhor pai do mundo! Tudo o que eu sei aprendi com ele! Respondi com um sorriso.
- Você brilha seus olhos quando fala dele! Miguel disse me observando.
E eu sorri timidamente.
- Mas mudando de assunto... Fiquei feliz em rever á todos! Quase não dá pra acreditar que Pither e eu ja temos quarenta anos! Ele disse revirando os olhos. - Eu nem conhecia o filho dele, Gael!
- Você também ficou muito feliz em rever às gêmeas né?! Falei com uma pontada de ciúmes encubada.
- Sim! De qualquer forma me sinto padrinho das duas. Já que o Matheus quase nunca está presente! Elas já são mulheres... E lembram tanto a Esther!
Ele disse quase meditando.
- Agora são seus olhos que ganharam um brilho especial! Falei sorrindo.
- Falar dela sempre me traz bons sentimentos... Ele disse se levantando da banqueta. - Mas não fique enciumada nós dois temos uma afinidade maior do que tenho com às gêmeas!
Ele apertou seus olhos quando se referiu à mim.
- Por que acha isso? Perguntei curiosa.
- Eu nunca as levei num bar em beira de estrada! Disse gargalhando.
- i****a!! Joguei o pano de prato em sua cara mas ele se esquivou.
- Vou tomar banho! Disse ainda rindo.
- Já vai tarde! Falei alto.
- Confessa que vai ficar entediada no apartamento da sua colega de quarto?! Choraras todas às noites lembrando do meu sofá! Disse quase cantando só pra me provocar.
- Anda logo Tio! Falei porquê sabia que isso o zangava.
- Êêê... parou! Disse perdendo a piada.
- Por que não me deixa te chamar de tio? Falei provando a massa que estava quase pronta.
- Só se me deixar te chamar de Estherzinha? Arqueou às sobrancelhas.
- Nem ferrando! Neguei.
- Estamos acertados então! Ele respondeu indo para o seu quarto. E eu entendi que ia para o seu banho.
Logo ouvi o barulho nos canos que passavam às águas e percebi que ele já estava no banheiro. Fui até a porta de seu quarto que estava entreaberta, e senti um enorme desejo de entrar.
A porta do banheiro também não estava trancada. Não sei se foi um desleixo de sua parte, ou se assim como eu, ele queria ser visto por mim.
Fiquei observando pelo reflexo do espelho, escondida atrás da porta como um fantasma.O box embaçado pelo vapor do chuveiro.
Ele parecia lavar os cabelos, desviei meu olhar. Aquilo é errado! Eu não podia cobiça-lo, sei que ele também não gostaria disso!
Ele jamais olharia para a própria sobrinha.
Talvez por respeito ao meu pai! Ou talvez por me considerar uma garota boba! Infantil e simplória demais pra ele!