O Último dia - Anna Lara

2153 Words
Depois que André confessou que me amava, senti meu coração bater tão acelerado que por um instante pensei que fosse infartar. Ele me amava. E eu tinha certeza de que também o amava — não foi premeditado, apenas... aconteceu. André voltou com um cobertor e se deitou ao meu lado. Tive vontade de tocá-lo, de dizer que seu amor era recíproco, que se eu pudesse ficaria só com ele. Mas me contive. Me calei. Depois que tive certeza de que ele havia pegado no sono, me levantei em silêncio e fui para o quarto. Tomei um banho demorado e fiquei ali, parada, observando a água cair e levando junto um turbilhão de pensamentos. Pensei na trajetória da minha vida, nas palavras da mamãe Gothel assim que entrei no bordel, e em como fui imprudente em aceitar vir para essa viagem. A água quente escorria pelo meu corpo, mas parecia incapaz de lavar o que eu sentia por dentro. Por mais que tentasse, não conseguia apagar o toque dele na minha pele. Cada beijo, cada olhar de André ainda me queimava como se tivesse acabado de acontecer. Encostei a testa no azulejo frio e fechei os olhos. Eu não podia me permitir isso. Ele era diferente — doce, calmo, sincero — tudo o que eu nunca tive. E justamente por isso, me apavorava. Quantas vezes ouvi mamãe Gothel repetir que o amor era a ruína das mulheres como eu? “Garota que sente, perde o controle. E quem perde o controle, perde tudo.” Talvez ela tivesse razão. Porque bastou ele me dizer eu te amo pra minha vida virar um caos dentro de mim. Saí do banho e me enrolei na toalha. Caminhei até a janela e fiquei olhando a noite do lado de fora. O céu estava limpo, a lua inteira — e eu ali, tentando entender o que André tinha feito comigo. Eu não era feita pra isso. Não era feita pra ser amada. E muito menos pra amar alguém. Mas por mais que eu quisesse fugir, a verdade é que, desde aquele primeiro beijo, eu já era dele — mesmo que nunca pudesse admitir isso em voz alta. (...) Acordei com a luz do sol atravessando as frestas da cortina. O lençol ainda estava morno, e o travesseiro carregava o cheiro do meu perfume misturado ao dele. Abri os olhos devagar, tentando entender onde estava, e então lembrei — do tapete, dos beijos, da voz rouca dizendo que me amava. Me sentei na cama com um nó na garganta. O relógio marcava quase nove da manhã. André não estava ali. Vesti o robe e saí do quarto em silêncio. A casa estava quieta, exceto pelo som distante dos pássaros lá fora. Caminhei até o corredor, hesitei por um instante, depois desci as escadas. O cheiro de café fresco tomou o ar, e meu coração se apertou. Fui até o escritório e a porta estava entreaberta. Empurrei devagar — e lá estava ele. André dormia na poltrona, a cabeça apoiada de lado, o corpo coberto apenas com o cobertor que ele havia me deixado horas atrás. O notebook ainda estava aberto, a luz da tela iluminando seu rosto cansado. Me aproximei sem fazer barulho. Ele parecia tão vulnerável dormindo… A barba por fazer, os cabelos bagunçados, os lábios entreabertos — um contraste de homem forte e menino perdido. Me agachei ao lado dele e fiquei observando. O peito subia e descia devagar. A vontade de tocá-lo me consumia, mas me contive. Passei os dedos por sobre o cobertor, bem de leve, sem coragem de encostar de verdade. — Por que você me ama? — sussurrei, sabendo que ele não ouviria. — Você devia ter fugido de mim quando teve chance... Ele se mexeu, o semblante tranquilo, e eu recuei. Saí do escritório devagar, antes que acordasse. Fui até a cozinha e preparei um café forte, tentando afastar o turbilhão dentro de mim. Mas não adiantava. Cada canto daquela casa tinha um pedaço dele — e de mim. Sentei à mesa, olhei para o nada e entendi que estava presa numa encruzilhada perigosa: ou eu me afastava agora, ou André acabaria sendo a minha ruína. Ouvi passos atrás de mim — firmes, compassados — e aquele perfume inconfundível preenchendo o ar. Eu sabia que era ele. Mesmo assim, senti cada pelo do meu corpo se arrepiar quando André parou ao meu lado. — Bom dia… — disse calmo. — Bom dia. — respondi, tentando soar natural. — Café? — Por favor. — pediu, sentando-se à mesa. Levantei-me e servi mais café em sua xícara. — Acordou cedo? — perguntei, apenas para quebrar o silêncio. — Dormi m*l essa noite… — respondeu sem me encarar. — Aproveitei pra terminar um relatório pendente. — E conseguiu finalizar? — insisti, entregando-lhe a xícara. Ele assentiu, forçando um meio sorriso. — André, está tudo bem? — questionei, notando seu semblante abatido. — Estou bem… — hesitou. — É a minha filha. Franzi o cenho. — O que tem a sua Estherzinha? — Hoje cedo recebi mensagem de um colega. Disse que viu ela jantando ontem com o herdeiro dos Trajano. Fiquei sem entender. — E isso é r**m? — perguntei. — É estranho ela não ter me contado. — respondeu, erguendo o olhar pra mim. — Somos muito próximos, ela sempre compartilha tudo comigo. E agora… parecia nervosa, como se escondesse algo. Suspirei. — Ah, André… ela está crescendo. É natural ter segredos. Você é o pai dela — e um homem — claro que vai ser difícil pra ela se abrir completamente. Ele apoiou os cotovelos na mesa e esfregou o rosto. — Tenho medo que ela deixe de confiar em mim. Toquei seu ombro com ternura e o abracei de leve. — Para de pensar em bobagens… — disse em voz baixa. — Hoje a gente volta pra capital, e tudo vai se ajeitar. André ergueu o rosto. Nossos olhares se encontraram — e naquele instante, algo mudou. — Você vai voltar pro Castelo Club… — disse ele, quase num sussurro. — E retomar o seu posto de Cinderela. Engoli em seco. — E você vai voltar pra sua esposa. — respondi, tentando disfarçar o nó na garganta. Ele manteve os olhos cravados nos meus. — Você não tem certeza disso. — É o certo a se fazer… — murmurei, sem acreditar nas próprias palavras. André se inclinou um pouco mais, a voz baixa e firme: — Você sabe que uma palavra sua… e tudo muda, não sabe? Senti o mundo parar por um instante. A xícara em minha mão tremia. E o silêncio que veio depois dizia mais do que qualquer resposta que eu pudesse dar. Por mais que eu tentasse parecer inabalável, minha respiração já me traía. André continuava me olhando — intenso, como se quisesse decifrar cada pensamento que eu lutava pra esconder. — Uma palavra, Anna… — repetiu ele, com a voz baixa, quase num sussurro. Desviei o olhar, tentando não ceder. Fui até a bancada, mas o som da cadeira raspando no chão me fez estremecer. André se levantou e parou atrás de mim. Senti o calor do seu corpo antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa. — Não faz isso… — murmurei, sem coragem de virar. — Fazer o quê? — ele respondeu, se aproximando mais, a voz serena. — Fingir que nada aconteceu? Que não sentiu o mesmo que eu? Fechei os olhos. A lembrança da noite anterior me atravessou como uma corrente elétrica. O toque, o cheiro, o jeito como ele me olhava antes de me beijar... — Aquilo foi um erro, André. — menti, mesmo sabendo que não era. — Então olha pra mim e diz isso de novo. Virei devagar. Ele estava tão perto que podia sentir o ar quente de sua respiração misturando-se à minha. O olhar dele não era de quem queria discutir. Era o olhar de quem estava prestes a me prender de novo num turbilhão do qual eu não sabia sair. — Você devia voltar pra sua esposa. — falei, quase num sussurro. — E eu pro meu lugar. — O seu lugar… — ele interrompeu, chegando mais perto — é onde você quiser estar. As palavras ficaram suspensas no ar. Por um instante, pensei que o tempo tivesse parado. André passou os dedos no meu rosto, depois desceu pela minha nuca. Sua mão ficou ali, firme, sem me forçar — só me esperando decidir. E naquele limite entre o que eu queria e o que eu devia fazer… o silêncio foi a minha escolha. Porque, mesmo sem dizer nada, nós dois sabíamos: aquilo ainda não tinha acabado. — Tá bom, já entendi! — ele suspirou fundo, baixando a cabeça. — Se arruma, vamos dar um passeio. Disse isso enquanto tirava a mão de mim e se afastava. — Onde vamos? — perguntei, tentando disfarçar a tensão que ainda pairava no ar. — Hoje é o nosso último dia aqui. Não quero que passemos dentro de casa. — Ele exibiu um sorriso sincero antes de subir as escadas rumo ao quarto. Fiquei o olhando enquanto subia, com aquele jeito calmo e sereno que só ele tinha. Um sorriso involuntário escapou dos meus lábios. Pensei em todas as lembranças que levaria comigo quando tudo isso terminasse — e em como seria difícil deixá-las para trás. (...) André e eu passeamos pelas cachoeiras da propriedade. Um lugar lindo de se ver! Por um instante me dei conta de que passei anos apenas trabalhando e juntando dinheiro para comprar meu apartamento — e nunca me dei ao luxo de viajar ou conhecer lugares incríveis. O sol parecia reluzir no sorriso de André. Apesar de ser o nosso último dia ali, estávamos felizes. Ele lembrou-se das brincadeiras e dias incríveis que viveu com os irmãos e o primo naquele lugar. Contou algumas histórias, e eu sempre o ouvia cheia de entusiasmo. Depois tocou meu rosto com carinho e disse suave: — Vamos almoçar? Assenti, e fomos até a cidade. Era interior, por isso tudo era tranquilo. Encontramos um restaurante de comida caseira. A comida era deliciosa, mas ainda assim não se comparava ao magnífico tempero de André. Ele não apenas cozinhava bem, mas comia com gosto. Gargalhei das suas piadas sobre ter engordado alguns quilinhos nessa viagem. — Vão querer sobremesa? — perguntou a garçonete, toda sorridente. — Eu não vou me arriscar! — disse André, simulando culpa por ter comido demais. — Aah, vamos? — insisti, divertida. — Só uma torta! — Duas colheres? — perguntou a garçonete. — Sim! — respondi, ainda rindo. Ela saiu, e André se virou me olhando com um sorriso travesso. — Nããão! — negou, tentando conter o riso. — Eu não me importo se você ficar gordinho! — falei, tocando em sua barriga e sorrindo. A garçonete voltou com um pedaço generoso de torta de chocolate e as duas colheres. — Desculpe, senhor, o senhor vem sempre à cidade, não é? — perguntou a moça, simpática. — Sim, sempre — respondeu ele, educado. — É a primeira vez que traz a sua esposa. Parabéns, ela é linda. Formam um lindo casal! — disse doce. — Obrigado! — respondeu André sem negar. Senti meu rosto corar e exibi um sorriso tímido. Ela se afastou, e ele se inclinou até minha orelha, sussurrando: — Viu? Até quem não nos conhece já está nos casando. E você aí se fazendo de difícil... — provocou, divertido. — Não foi bem isso que você me propôs, André, seu grandíssimo malandro! — rebati, entre risos. Ele sorriu e se serviu da torta, passando a língua pelos lábios como se saboreasse cada pedacinho — e o gesto, simples, me fez corar. Dividimos a sobremesa até o último farelo, entre risadas e olhares que pareciam se perder mais do que queríamos admitir. André pagou a conta e saímos dali, caminhando lado a lado pelas ruas calmas da pequena cidade. O fim de tarde pintava o céu em tons de laranja e ouro, e uma brisa leve fazia o cabelo dele bagunçar de um jeito absurdamente bonito. Ao longe, uma aglomeração chamava atenção na praça central. — O que será que está acontecendo ali? — André perguntou curioso. Um vendedor ambulante, que vendia algodões-doces, respondeu prontamente: — Hoje tem show na cidade! O cantor Gustavo Mioto vai se apresentar. — Eu adoro ele! — André disse com os olhos brilhando. — Pena que estamos indo embora... nunca consegui ver um show dele ao vivo. Ele continuou andando, ainda segurando minha mão, mas eu parei. — André... — chamei, e ele se virou, confuso. — Vamos ficar pro show! Ele soltou uma risada incrédula. — Tá maluca? — Por que não? — retruquei arqueando as sobrancelhas, provocante. — Tem algo melhor pra fazer essa noite? O sorriso dele se desfez num suspiro divertido, como se pensasse em dizer não — mas seus olhos entregaram antes a resposta.
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