Aquele Homem - Anna Lara

1817 Words
Quando aquele homem passou pela porta do quarto, fechei-a atrás dele e fiquei o admirando por alguns instantes. Ele era alto, corpo másculo; fiquei me imaginando sentada em cima dele. Ele se virou me olhando nos olhos, sua barba bem desenhada. Maxilar definido deixava seu rosto marcado, e seus traços realmente destacavam o seu rosto. - Você me lembra alguém. Ele soltou de repente. - Uma ex namorada? Eu sei! Falei proposital para que ele sorrisse, e eu pudesse deixá-lo mais a vontade. - Não... Negou. - Não é uma ex! Respondeu fechando o sorriso. Fui até ele deslizando meus dedos pelos botões de sua camisa social. Levantei meu olhar para seu rosto notando um desconforto. Ele estava nervoso!! Disfarçadamente ele virou seu rosto esboçando uma feição tímida. Aaah não! Agora que eu quero ele mesmo!! Ele se desviou de mim, me afastando educadamente. - Achei que quisesse companhia? Falei me divertindo com seu jeito meigo e conservador. - Eu quero... Ele fechou seus olhos afirmando. - Podemos conversar primeiro? Nesse momento eu entendi que aquele homem estava no lugar errado! - Claro! Sente-se... Apontei a mesa a nossa frente. Ele ficou esperando eu me sentar, e eu achei isso hilário! - Então André... Do que quer falar? Indaguei. - Do que você quiser... Ele se sentou um pouco mais tranquilo. - É a primeira vez que pensa em trair a sua esposa? Perguntei sendo indiscreta. Ele me olhou atônito! - Eu ... Se atrapalhou um pouco. - Eu já fiz isso! Eu como uma boa psicóloga que sonho em ser um dia, notei que André falava isso cheio de culpa. - Não parece estar a vontade... Comentei. - Mas posso deixá-lo! Falei me levantando e pegando a melhor bebida em meu quarto. - Gelo? Ofereci e ele assentiu. André virou o uísque em sua boca e eu fiquei do outro salivando em vê-lo beber. - Por que Cinderela? Ele enfim esboçou sua curiosidade. - É uma cortesia do lugar... Falei sorrindo.- Literalmente um castelo! Gargalhei. Ele ficou me olhando de um jeito peculiar. - O que foi? Perguntei meia sem jeito. - Você tem um sorriso lindo! Me elogiou. Ninguém nunca tinha me elogiado assim! Aqui os elogios são diferentes... Mais safados e sem escrúpulos! Eu não sei qual era a intenção daquele homem! Me cortejar para ter sexo? Será que ele não sabe que aqui não é necessário ser romântico para ter o quer? Ele estará pagando pra isso! Desci meu braço sobre a mesa alcançando a sua mão o alisando. Eu não podia perder meu foco alí! Sou uma garota de programa, não uma universitária romântica! - André... Quero que saiba que você não é o primeiro homem que fica um pouco perdido ao estar aqui! O tranquilizei. - Devo não ser uma boa companhia... Sorriu com o canto da boca. - Por que não se senta na cama? Eu posso te ajudar a relaxar... Sugeri. - Você costuma apenas beber com seus clientes e conversar? Ou sempre termina ali? Se mostrou curioso. - Se queria apenas beber e conversar, fiz m*l em ter te trazido pra cá? Falei sem tirar minha mão da dele. - Não... Negou. - Eu queria sim um lugar mais reservado! Respondeu. - O que te aflinge André? Se quiser me contar... Dei de ombros. - Eu queria... Começou mas parou sua frase como se exitasse. - Apenas que alguém me ouvisse! Explicou. - Estou te ouvindo agora... Apertei a palma de sua mão. - Sei que você está acostumada com homens diferentes... E se quiser encerrar a sua hora vou entender numa boa! Disse preocupado. - Você pode me pedir o que quiser... Estou aqui nesse momento pra você! Sorri. Ele sorriu concordando. - Você e a sua esposa não conversam? Perguntei. - Não... Ele negou de cabeça baixa. - Há quantos anos estão casados? Perguntei. - Dezessete anos... Respondeu me fitando os olhos. - Meu Deus!!! Me surpreendi. - Você era um menino! Ele assentiu com a cabeça. - Ela estava grávida né? Indaguei. Ele me olhou muito surpreso. - Estava... Concordou. - Eu imaginei! Respondi puxando a minha cadeira mais perto de André. - E quando você sentiu que às coisas não fluíam mais? - Não sei exatamente quando, mas sei que tudo foi esfriando dia após dia... Respondeu. - Vocês transam? Perguntei abertamente. - Não! Negou. - Há quanto tempo? Perguntei. - Anos... Respondeu me olhando. - Pelo jeito seu casamento acabou André... Falei me sensibilizando. - Eu acho que sim. - Por que ainda usa essa aliança? Perguntei vendo ele mais a vontade. - Pela minha filha... Respondeu. - Continua casado por ela? Perguntei já sabendo a resposta. E ele apenas assentiu afirmando o que eu já sabia. - Você nunca esteve num lugar como este, mas me disse que já traiu sua esposa? Fui me aprofundando. - Estávamos passando por uma crise no nosso casamento há sete anos atrás. E ela insistiu em trazermos a prima dela para morar com a gente... O olhei nos olhos. - Eu fui um fraco, e covarde! Ele carregava tanta culpa que eu podia sentir o peso. - E foi bom? Perguntei. - O quê? Disse confuso. - O tempo em que esteve com a prima? Perguntei. Ele me olhava um tanto perturbado. - André não estou aqui para julga-lo, apenas para entende-lo! O assegurei. - Minha esposa trabalha numa clínica o dia todo. Eu trabalhava em casa, e depois que levava a minha filha pra escola ficava sozinho... Foi culpa minha! Disse desviando o seu olhar. - Como se interessou pela prima? Instiguei. - Eu também sou escritor... Começou. - Estava escrevendo um de meus livros quando a vi sair de toalha do banheiro. E no outro dia ela deixou a porta aberta enquanto se trocava. A vi se vestir pelo espelho... Fungou pelo nariz. - Eu devia ter me virado e ido embora, eu... - Você é humano André... Há coisas muito difíceis de resistirmos! Sua esposa não ligava pra você. Estava sedento por carinho e atenção! - Pensar assim só transfere a culpa que é só minha pra ela! Respondeu. - Quando um casamento está apto ao fracasso não existe culpados e inocentes... Toquei em seu rosto o virando pra mim. - Apenas se perdoe! Vai se sentir mais leve! André baixou seu olhar dos meus olhos para a minha boca. E aproximou seu rosto do meu, como se quisesse tocar meus lábios. - Não... O rejeitei. - Eu só não beijo na boca! Respondi me levantando e o servindo mais de bebida. - Desculpa... Ele disse pegando o copo. - Como consegue começar algo sem beijar alguém? - Normalmente os homens que entram aqui já chegam um pouco eufóricos ou preferem ser estimulados de outras maneiras... Respondi. André terminou a sua bebida e se levantou com um sorriso nos lábios. Ele tirou a sua carteira do bolso da calça, e eu me entristeci porque sabia que ele ia embora. - Você foi o primeiro homem que pagou por nada! Falei forçando um sorriso. - Por nada? Disse colocando o dinheiro sobre a mesa. - E a sua companhia? Conversamos e você me compreendeu! É uma boa ouvinte senhorita Cindy. Devia valorizar mais os seus serviços! Ele disse com um toque de bom humor e eu sorri. O levei até a porta desejando que ele mudasse de idéia e voltasse. Mas definitivamente ele não veio pra isso! - Espero um dia vê-lo de novo... Quem sabe?! Dei de ombros. - Eu voltarei... Se virou me olhando. - Sempre antes da meia noite, para que o encanto não se acabe... Até mais cinderela! Assenti vendo-o descer às escadas, passar pelo bar e ir embora. Eu nunca me senti estranha em relação a ninguém. Deve ser pelo fato dele apenas entrar, conversar e sair; não sei exatamente o que pensar! Minutos depois bateram em minha porta e eu imaginei que fosse cliente. Mas eram Ariel e Aurora. - Se deu bem hein?! Ariel adentrou meu quarto entusiasmada, com Aurora logo atrás. - O cara é um gato! - É... Respondi sem entusiasmo nenhum. - Espera aí... Levantou seu indicador. - Pela sua cara é brocha? - Cinderela tem anfetaminas! Aurora disse se sentando. - E então não quis pagar? Odeio homem que pechincha! Ariel prosseguiu seu interrogatório. - Mas ele tem cara de rico! Aurora respondeu me fitando os olhos. - Ele não quis nada! Enfim matei a curiosidade das meninas. - Como é que é? O maxilar de Ariel caiu. - É gay? Aurora perguntou. - É casado, com filha. Respondi. - Será que tem problemas de ereção? No meu quarto tem tadalafila caso precisasse! Ariel sugeriu. - Mas a questão é o que vocês ficaram fazendo aqui dentro todo esse tempo? Aurora questionou. - Bebendo e conversando... Dei de ombros. - Espera essa grana foi ele quem pagou? Aurora foi até a mesa contando o dinheiro. - Aqui tem mais de uma hora sua! Disse me entregando o dinheiro. - O cara pagou apenas pra beber com você! Ariel disse como se fosse óbvio. - Que inveja! Um gostoso desse preza apenas pela companhia. Os idiotas que me aparecem fazem valer até os segundos do relógio! Aurora e eu rimos. - Vamos trabalhar antes que aquela velha entre reclamando?! Aurora disse se levantando, e levando Ariel com ela. Depois que elas saíram fiquei pensando. Realmente é curioso pensar que em algum lugar do mundo homens vão a bordéis somente para conversar. (...) Na volta pra casa estava muito cansada, lembro-me de sentar ao lado da janela do metrô. Eu deixava todas as minhas roupas e acessórios no quarto da Cinderela, E voltava como uma pessoa normal. Não que tivesse vergonha do meu trabalho, mas também eu não precisava andar com o meu personagem por aí! Infelizmente o mundo ainda é bastante preconceituoso! Por um breve período eu me vi no banheiro do meu apartamento. Me vestia depois de um banho revigorante, a porta entreaberta. Só depois de ter colocado meu sutiã, calcinha e camiseta que fui me ligar no espelho. Vi nitidamente uma silhueta que me observava, quando me virei era o homem misterioso do bordel. Acordei assustada quase metendo a cabeça na janela, com meu corpo indo pra frente. A mulher que estava sentada ao meu lado me olhou preocupada e depois sorriu. Com aquele sorriso de compreensão. Tive medo de ter falado alguma besteira enquanto dormia. Fiquei acordada pois ia descer na próxima estação. A mulher jamais sorriria pra mim se soubesse quem eu realmente sou! E eu fiquei me perguntando porque havia sonhado com o André? Justo a história que ele havia me contado no quarto! Nunca sonhei com nenhum de meus clientes. Sempre deixo minha vida profissional do Castelo Club pra dentro. E ele veio até aqui no metrô me perseguir com suas confissões. Será que ele voltaria ao Pub?
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