Aquele Domingo - Carol

2043 Words
Pensei no nosso beijo a noite toda! Nossos lábios colados, sua respiração quente roçando a minha face... Sua barba por fazer arranhando de leve o meu queixo... Nossa! Tudo nele me fascina! Aquela voz firme, profunda... Seus olhos incrivelmente hazel iluminados pelo clarão da lua... O aroma de sua colônia ainda preso em mim, queimando minha pele, misturado às lembranças de suas mãos deslizando pelas minhas curvas... Cada toque me fazia ter sensações proibidas, pensamentos impróprios... Mas de tanto reviver aquele beijo, me lembrei de um detalhe: Miguel não estava com o seu piercing hoje. Justo hoje! Mas que droga! Não sei se terei outra chance... Ele deixou claro que seria apenas um beijo, e que nunca mais tocaríamos no assunto. Mas justo dessa vez, ele não colocou o piercing! Eu queria sentir o frio do metal contra o calor do nosso beijo... Saber como seria aquela mistura de gelo e fogo em nossos lábios... Pela manhã, Anna chegou do trabalho. Não sei onde ela trabalha, mas sempre chega em casa ao amanhecer. Eu não aguentei, precisei contar! Desabei em palavras... Contei tudo pra ela! Infelizmente não podia compartilhar essa novidade com o meu pai. Sendo irmão de Miguel, com certeza não acharia essa notícia tão incrível assim! Anna vibrou por mim! Seus olhos brilhavam, ela realmente ficou feliz. Então eu a abracei... Eu amava abraços. Anna e eu não conseguimos conversar por muito tempo. Na mesma quadra do nosso condomínio havia uma cafeteria, e meu pai me esperava ali. Ele vai viajar... é a primeira vez que ele viaja sozinho. Em todas as outras, eu sempre o acompanhei. Mas dessa vez respondi que não poderia ir, porque havia acabado de me mudar e era semana de provas. Só que essa justificativa não era totalmente verdadeira. Era mesmo semana de provas, e eu ainda me adaptava à nova casa. Mas, no fundo, a minha verdadeira razão tinha nome e sobrenome: Miguel Ângelo. Eu não queria me afastar dele! Na cafeteria, meu pai parecia cabisbaixo. Imaginei que fosse pelo fato de ter que me deixar. Então tentei ser o mais alegre possível, falei de como estava gostando da nova casa, sem mencionar nada sobre Anna ou Gio. Tomávamos café com croissant quando, vinte minutos depois, o telefone dele tocou. Papai pediu licença e foi atender fora da cafeteria. O quê? Foi a primeira vez que ele se levantou para atender uma ligação longe de mim. Quando voltou, minutos depois, estava diferente. Seu sorriso era evidente, os olhos brilhavam... ele parecia mais leve, quase entusiasmado com a viagem. Eu não perguntei quem era no telefone. Sei que ele não mentiria para mim, mas também não queria deixá-lo desconfortável. E, ao ver aquele semblante feliz, uma pontinha de preocupação me apertou o peito. Ele realmente estava gostando dessa mulher! Meu Deus... será que ela sente o mesmo por ele? Eu conheço meu pai. Ele é como eu: se apega fácil. É um romântico nato, intenso, apaixonado! Tenho medo que ela seja como a minha mãe... e acabe o ferindo. Eu não sei se ele sobreviveria a mais uma desilusão amorosa. Papai terminou o café às pressas. De repente, parecia ansioso para a viagem. Será que ele passaria antes para se despedir dela? Eu gostaria de saber mais sobre essa moça. Mas não quero ser invasiva. Sei que, na hora certa, papai fará questão de nos apresentar. E no fundo... eu torço para que ela seja realmente uma boa mulher para ele. — Filha, vou sentir saudades... Mas prometo chegar antes do seu aniversário! — disse meu pai, despedindo-se com um abraço apertado em frente ao condomínio. — Aai, papai! — retribuí o abraço, sorrindo. — Faça o que precisar e volte em segurança! — pedi, com o coração apertado. — Eu prometo! — ele me olhou fundo nos olhos. — Fica bem, tá? — Assenti, emocionada. — Eu te amo, filha! — Eu também... — abracei novamente sua cintura, sentindo seu cheiro que sempre me confortava. — Dirija com cuidado, papai! Ele beijou o topo da minha cabeça e, com aquele olhar de despedida que só um pai tem, caminhou em direção ao carro. Partiu para sua viagem de trabalho... e eu fiquei ali, sentindo como se parte de mim tivesse ido com ele. Voltei para o apartamento, um pouco triste por deixá-lo ir sozinho pela primeira vez. Quando abri a porta, um cheiro estranho me atingiu de imediato, junto a uma fumaça leve que pairava pelo ar. — Meu Deus! Está pegando fogo! — gritei, assustada. Gio surgiu da sala, segurando algo fumegante na mão. — Não é incêndio, sua doida... é só incenso! — disse, impaciente. Ainda atônita, olhei em volta, tentando me situar. — E por que está intoxicando a casa com tanta fumaça? — questionei. — Não estou intoxicando, estou purificando! — sorriu, enigmática. — E o que a Anna acha disso tudo? — perguntei, caminhando pela casa. — Ela não está... teve que viajar às pressas. Parecia algo importante! — explicou casualmente. Estranho... Anna não me disse nada! — pensei comigo. — Estou pedindo para que a viagem dela seja de paz, e que nós também fiquemos bem — Gio disse, erguendo o objeto fumegante. — Hum... tudo isso através desse... desse...? — apontei, sem saber ao certo o que era. — É um bastão — explicou com suavidade. — Não tenha medo. É um defumador de limpeza energética. Promove proteção e cura. — Então... ele é do bem? — perguntei, desconfiada. — Claro! — gargalhou. — Você nunca tinha visto? — Não... me desculpe, eu não compartilho da sua fé. Meu pai sempre me ensinou a orar todas as noites... — confessei, lembrando que já fazia algum tempo que não rezava. — E o que pensa que eu sou? — Gio segurou o riso. Tive medo de ofendê-la, então neguei rápido. — Acha que sou macumbeira? — sorriu, divertida. — Bem... não quero que pense que sou preconceituosa, mas... suas roupas, essa fumaça... é tudo meio diferente pra mim — admiti. — Eu também não sou preconceituosa, mas não sou macumbeira. Não sigo religião nenhuma. — sua voz ficou mais firme. — Acredito em Deus, acredito no mundo espiritual... confio nele e no poder das plantas. Elas têm poder curativo. E sei que a fé é a arma mais poderosa que carregamos conosco. Um sorriso leve escapou de mim, quase como um alívio. — Você se daria bem com a minha prima Rebecca... — comentei, lembrando de Becca sempre falando coisas parecidas. — Se você não gostar dos incensos, eu paro! — Gio disse, preocupada. — Oh, não! — balancei a mão. — Se a Anna não se importar, por mim tudo bem! — Sério? — seus olhos brilharam. — Sim... — sorri. — E eu posso acender uma vela de sete dias para São Miguel Arcanjo? — aproveitou a brecha. — Pode acender o que quiser, eu não me importo. Só não incendeia a casa! — respondi rindo. Ela abriu um sorriso satisfeito. E eu ri junto, imaginando qual seria a reação da Anna ao descobrir que sua casa estava se transformando em um verdadeiro campo energético. Fui para o quarto de Anna, o único lugar onde o incenso de Gio não havia alcançado. Deitei-me com Christopher na cama e logo apaguei. Acordei meio desorientada por ter dormido tanto. O quarto de Anna era simples, mas aconchegante. O cheiro forte do incenso já havia desaparecido, e agora um leve aroma de alho predominava no ambiente. — Oii, Carol! — Gio disse entusiasmada quando me viu passar pela sala. — Estou fazendo almoço... Exibi um sorriso convincente e fui até o banheiro lavar o rosto. Em seguida, voltei para a cozinha, curiosa para descobrir o que Gio aprontava. — O que está cozinhando? — perguntei cheia de expectativas. — Ah... — ela respondeu animada. — Arroz integral, legumes no vapor e salada verde. — Sem feijão? — falei desapontada. — Eu não costumo comer feijão todos os dias. Mas tenho peito de frango que vou grelhar. Naquele instante, desejei que ainda houvesse um pouco do strogonoff do outro dia. — Deixa que eu tempero o frango pra você? — sugeri, já imaginando os temperos. — Ah, não será necessário. Eu já o temperei — disse, me lançando um olhar firme. — Nossa, mas ele está tão sem cor... vamos colocar um colorau nele? — falei sem pensar. Gio me olhou em silêncio, mas era evidente que não havia gostado. Afastei-me e fui até o sofá, deitando-me para evitar um atrito desnecessário com minha colega de apartamento. No fundo, senti uma pontada de saudade da deliciosa culinária do meu pai, sempre cheia de temperos marcantes e daqueles assados de domingo que enchiam a casa de aromas irresistíveis. Mas a minha salvação chegou em forma de mensagem: Raquel me convidara para almoçar em sua casa, e eu aceitei rapidamente. Qualquer coisa era melhor do que arroz integral com legumes. Enquanto me arrumava, Gio me observava com um olhar cabisbaixo. — Não vai ficar para almoçar? — perguntou-me. — Infelizmente não! Vou ter que ir até a casa dos meus tios. Mas volto logo! — prometi. — Tudo bem... — ela deu de ombros. — Quem sabe conseguimos jantar juntas? — Ótima ideia! — respondi, torcendo para que sobrasse bem pouca comida, só para eu poder finalmente cozinhar. — Você fica linda nesse vestido! — elogiou, desviando o olhar. — Você acha? — perguntei, olhando para minha roupa. — Não sou acostumada a usar vestidos... — Sim. Deveria usar mais vezes. Ele combina com seus olhos. Naquele instante, senti-me culpada por ter julgado sua comida. — Me desculpe por deixá-la almoçando sozinha... — falei tocando de leve em seu ombro. — Não tem problema! Depois do almoço vou visitar minha tia. Nós vamos ao cinema juntas! — disse, entusiasmada. — Christopher está no quarto, caso o procure — avisei. — Ele só dorme! — rimos juntas. Então peguei minha bolsa transversal, a “bolsa saco”, e caminhei até a porta. — Até mais tarde! — despediu-se, acenando. — Até! — sorri, antes de sair. (...) Meu Deus... a casa do meu tio Pither me trazia tantas lembranças boas! Assim que cheguei no portão, me vi correndo ainda criança naquele jardim, junto de Raquel e Rebecca. O portão se abriu e entrei já tomada pela nostalgia, lembrando que minhas melhores memórias estavam gravadas ali, entre risadas e brincadeiras com minhas primas. Raquel me recebeu na porta da sala. Usava uma canga de tule transparente, deixando à mostra o biquíni azul-marinho cavado. Ela, como boa blogueira, não perdeu tempo: logo ligou a câmera do celular, gravando um vídeo animado, dizendo que sua prima havia chegado e que estava feliz. Senti um desconforto imediato. Eu sabia que boa parte dos seguidores de Raquel eram do colégio... e certamente lembravam da maldita montagem e de tudo que aconteceu depois. — Venha... Becca está esperando na piscina! — ela disse sorridente, puxando minha mão e me levando para dentro. Raquel era dona de uma beleza estonteante. Apesar de ser gêmea de Becca, todos diziam que puxara mais ao tio Pither. E convenhamos... meu tio era um homem deslumbrante. Entrei na grande sala sorrindo. Conhecia cada canto daquela casa, afinal, já havia passado inúmeras noites ali. Meu tio festejou a minha chegada me abraçando apertado. Eu sabia que ele ainda sofria com a morte do vovô Álvaro, mas, como sempre, fazia questão de esconder a dor atrás da sua postura firme. Ele sempre foi um homem forte! Conversei um pouco com ele, perguntando como estava. Foi então que senti alguém se aproximar. Me virei, certa de que era tia Angel — eu queria abraçá-la também. Mas minha surpresa foi outra... — Esse é o seu tio Miguel, Carol! Lembra dele? — Pither disse, imaginando que ainda não tivéssemos nos visto. Miguel surgiu com todo o seu charme perigoso, um sorriso provocador nos lábios e um copo — que eu só podia imaginar ser caipirinha — em uma das mãos. — Como vai, Carol? — ele disse descaradamente, como se não nos conhecêssemos tão bem. Meu coração disparou. Me ajuda, Deus... a manter o foco! — pedi em silêncio, enquanto via o brilho divertido dançar em seus olhos.
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