Depois da terrível experiência com o asqueroso do tal rei Stefan — que de rei não tinha nada! — eu fiquei sem conseguir encarar o espelho por um mês. Me sentia suja! E sempre que me lembrava daquele dia, escorria uma lágrima de meus olhos.
Peguei o dinheiro e paguei o aluguel atrasado, comprei comida e quitei as contas. Depois, o dinheiro se acabou. O dia do vencimento do próximo aluguel se aproximava, e eu não havia encontrado trabalho ainda, mas precisava dele se quisesse continuar vivendo ali.
E então, angustiantemente, eu voltei àquele lugar... Pensei muito! Sabia que era um caminho sem volta! Depois que colocasse meus dois pés ali, somente um milagre me tiraria de lá.
E foi o que aconteceu. Comecei a trabalhar ali. Não por vontade, mas por necessidade!
Mamãe Gothel me recebeu de braços abertos. Ela gostava de ser chamada assim — “mamãe Gothel” — mesmo nome da mãe da Rapunzel. Não sei que fantasia maluca essa c******a tinha com as princesas, mas com os homens daquele bordel funcionava.
Aos poucos fui aprendendo como devia me comportar. Mamãe Gothel dizia:
— Beleza você já tem, o resto vem depois!
Prometo não esconder nada de vocês. Vou contando tudo o que aconteceu nesse tempo aos poucos, para que não se assustem e abandonem minha história.
Digo “nesse tempo” pois quem achou que seria apenas um escape — dias, talvez semanas — está enganado. Se passaram seis anos, e eu ainda continuo aqui!
Não quis morar no Pub, decidi continuar na minha própria casa. À noite, ia para o castelo club e só saía de lá pela manhã.
Não me orgulho de dizer isso, mas sou a garota mais cara do lugar! Mamãe Gothel faz questão de deixar isso à vista para todo mundo saber.
Logo que comecei a trabalhar ali, conheci as outras garotas. Jasmine, uma mulata de longos cabelos lisos e compridos, alta e exuberante. Branca de Neve, baixinha, pálida, cabelo chanel quase azulado. Ariel, magrinha, olhos verdes, cabelos avermelhados — foi a única que se incomodou um pouco com a minha chegada.
Segundo as meninas, Ariel era a prostituta mais cara do cabaré antes da minha chegada. Mas foi a história de Aurora que mais me comoveu. Ela é filha do maldito Rei Stefan! Isso mesmo, por isso ele se chama assim. Trouxe a própria filha para esse lugar, para trabalhar como garota de programa quando ainda era uma menina. Não consigo imaginar dor maior do que essa!
Se eu contar tudo que vimos e ouvimos no bordel, vocês chorariam dias seguidos. Mas minha intenção não é traumatizá-los, e sim mostrar o outro lado da moeda.
Como mencionei, ninguém sonha em ser prostituta. Isso não é a profissão esperada por nenhum pai de menina! Mas, para chegarmos aqui, podem ter certeza, foram muitos golpes e pancadas da vida.
Usei esse trabalho como intermediário para o meu sucesso. Claro que não desejo vender meu corpo para sempre! Por isso guardo o máximo que posso para investir no meu futuro. No semestre passado, finalmente comprei meu apartamento.
É a casa que sempre sonhei, no condomínio que sempre quis! Foi fácil? Mentiria se dissesse que foi. Foram seis anos consecutivos fazendo sexo oral em homens com moral duvidosa e caráter menor ainda!
Faço de tudo! Só não beijo na boca. Podem implorar, mas não beijo ninguém na boca. Para mim, é algo íntimo demais. E até então, essa é a minha única regra.
Mamãe Gothel acha isso uma idiotice sem tamanho. Já tentou me convencer de que o beijo é apenas uma preliminar, mas insisto: quando beijamos alguém, o outro sente a nossa alma! E eu não vou entregar a minha para esses abutres daqui. Meu corpo eles já possuem.
Algumas de vocês devem ter curiosidade sobre os clientes. A maioria é casada, com filhos, e até netos. Sabe aquele homem quietinho, bonzinho, às vezes religioso? Pois então, eles são os nossos melhores clientes.
Tem um cliente fiel da Jasmine, que vem pela manhã, quando a esposa sai para trabalhar. Ele leva a filha à escola e passa pelo cabaré às oito da manhã. Das oito às nove, faz sem parar. As meninas contam que ele grita feito louco! E eu me pergunto se ele tem esse mesmo entusiasmo com a mulher dele.
Não tenho clientes pela manhã e dificilmente à tarde. Por isso, procuro universidades que oferecem cursos de psicologia nesse horário. Sim, ainda quero ser psicóloga!
Jamais abri mão do meu verdadeiro sonho: me formar em psicologia, andar pelas ruas com meu jaleco branco, o símbolo Psi bordado nele, e poder andar de cabeça erguida, sabendo que um dia fui prostituta, mas hoje não sou mais.
Enquanto isso não acontece, sigo atendendo clientes, sendo profissional da cabeça aos pés e escondendo que também tenho um coração.
Semana passada, um gatinho me acompanhou até em casa. Por mais que eu andasse rápido, ele insistia em me seguir, e então deixei que viesse. Aninhou-se aos meus pés, e eu entendi que havia me escolhido. Logo eu!
Levei-o para casa e cuidei dele. Christopher estava faminto. Dei-lhe esse nome porque me lembrou de um cantor pop famoso. Ele tomou água fresca e tirou uma soneca no sofá. Parecia já conhecer a casa e se sentir confortável ali.
Ontem, cheguei ao Pub e vi as meninas sentadas, bebendo e conversando. Jasmine rebatia algum comentário de Ariel.
— Fala aí, Cindy! Escuta essa prosa careta da Jasmine! — Ariel me chamou, rindo.
Sentei-me e servi um pouco de café.
— O que está pegando dessa vez? — perguntei, segurando o riso.
— Jasmine sonhando acordada me perguntou se acredito que algum homem me tiraria da zona e me consideraria esposa! — Ariel continuou.
— Aurora concorda comigo... — prosseguiu. — Nenhum homem quer ter uma mulher que já foi de toda a cidade. E se isso acontecesse, quem garante que ele não volta aqui atrás de algo diferente?
— Eu nunca pensei a respeito... — menti.
Enquanto Ariel rebatia opiniões com Jasmine, Aurora e Branca de Neve, peguei meu celular e anunciei meu apartamento num aplicativo confiável. Procurava uma colega de quarto para dividir as despesas. O apartamento é grande para mim sozinha, as taxas são caras e, por mais que eu ganhe um salário considerável aqui, tenho outras prioridades.
Considero-me extremamente econômica. Invisto no meu corpo, pois é a ferramenta de trabalho, mas nada além disso. Não esbanjo com jóias, e viagens nunca faço. Férias? Não existem para mim.
Já estava inscrita na faculdade, e ter uma colega dividindo despesas talvez fosse uma boa ideia.
— Meninas! Clientes! — Mamãe Gothel passou por nós, ecoando seus saltos.
Levantei-me e fui para meu quarto azul Tiffany, impecavelmente limpo. Tomei banho e me arrumei para mais uma noite exaustiva de trabalho. Alguém bateu à porta: era um cliente conhecido.
— O que você quer hoje? — perguntei sem cerimônia.
Ele não era meu amigo; veio atrás de prazer, e não precisávamos de encenação. Felizmente, abriu logo o zíper da calça, facilitando meu serviço. Meia hora depois, ele saiu, satisfeito.
Passei perfume importado e desci até o bar. O lugar ainda estava vazio; a maioria das meninas estava trabalhando, apenas Aurora circulava pelo pub.
Vi um homem de costas, bebendo no bar. Aurora o serviu, e ele agradeceu. Parecia refinado pelo modo como estava vestido e pela bebida cara em seu copo.
Nunca atravessávamos clientes de outras meninas. Sabíamos nosso lugar e respeitávamos umas às outras. Aurora me deu uma piscadela, liberando passagem para que eu me aproximasse.
Não entendi por que ela não estava interessada nele. E, quando me aproximei, entendi menos ainda: o homem era simplesmente lindo. De imediato, achei seu rosto familiar, embora nunca o tivesse visto ali.
— Olá! — falei com voz sensual. — Como vai?
Sentei-me ao lado dele, cruzando as pernas. Ele levantou o olhar, fazendo-me sorrir. Aurora fez sinal para que eu fisgasse o bonitão.
— Como você se chama? — perguntei, sorrindo longo.
Ele tomou um gole da bebida e apertou os lábios, saboreando o líquido. Achei isso tão sexy.
— André... — finalmente disse.
Ele se virou para mim, olhando direto nos meus olhos. Era o homem mais lindo que já vi: cerca de trinta e seis anos, olhos claros, cabelo em corte quiff, relógio Rolex no braço e aliança dourada na mão esquerda.
— E você, como se chama? — perguntou, voz baixa
Sua voz era baixa, um pouco rouca, e isso me deixou ainda mais encantada.
— Cinderela! — respondi com um sorriso insinuante.
— Está brincando? — ele arqueou as sobrancelhas, o que o deixou ainda mais atraente.
— Já vi que é a primeira vez que vem aqui... — comentei, percebendo que ele não sabia das regras da casa.
André apenas assentiu, baixando o olhar com um sorriso tímido.
— Quer subir comigo? — falei, apertando o meu olhar no dele.
Ele não disse nada. Mas eu peguei em sua mão ousadamente e me levantei da cadeira, puxando-o comigo.
Passei por Aurora com um sorriso presunçoso. Se esse homem for bem-dotado o quanto é gostoso, tirarei a sorte grande em plena quinta-feira.