- Você me trouxe num bar? Perguntei ao sairmos do carro.
- Não é só um bar! Deu de ombros.
- Tem música ao vivo! Falei ouvindo o som que vinha de dentro.
- Seu pai me mataria se soubesse... Ele disse ao meu lado.
- Estou animada demais para pensar nisso! Respondi e juntos entramos.
Eu bebia cerveja com o meu pai nos dias de jogo de futebol pela televisão, sim! Mas isso era muito legal! Eu nunca havia estado num bar antes. E ter essa primeira experiência ao lado de Miguel deixava tudo ainda mais interessante!
- Sabe jogar sinuca? Ele perguntou apontando a mesa.
- Não... Neguei com a cabeça.
- Hoje você vai aprender! Ele respondeu e eu congelei o meu sorriso, achando tudo aquilo o máximo.
Sentamos em uma mesinha e Miguel ficou olhando á nossa volta.
- Não vão vender bebidas pra mim, sou menor de idade! Sussurrei.
- Quer apostar que vão?! Ele levantou às suas sobrancelhas.
Não estava muito movimentado, ainda era dia. Mas às poucas pessoas que tinham estavam se divertindo muito.
- Coma algo antes, não beba de estômago vazio! Não quero te levar pra casa de ambulância! Advertiu.
Sorri revirando os olhos.
- Como conhece esse lugar? Indaguei.
- Vínhamos muito aqui. Seu tio Pither e eu! Ele esboçou um sorriso presunçoso. - Eram días de glória!
Fiquei imaginando que se tratava de mulheres e farra. Pelo modo como ele sorria, se via que estava relembrando.
- O que foi? Perguntou o dissimulado.
- Melhor eu nem dizer nada! Falei com desdém.
Miguel pediu bebidas e uma porção pra nós dois. Depois sorriu quando ouviu o soar de sua música preferida.
- Vem, vamos dançar? Pegou a minha mão me tirando da mesa.
- Eu não sei dançar... Respondi sussurando.
- Quem liga? Você está num bar! Gargalhou.
- Tio eu nem estou bêbada o suficiente pra isso! Falei envergonhada.
- Eu quero que você se lembre desses momentos quando tiver ido embora! Ele falou próximo ao meu ouvido e eu o fitei nos olhos.
Apesar do meu jeito desengonçado consegui dançar junto a ele. Eu me divertia mais do que dançava, e ele também.
- Já bebeu tequila? Neguei com a cabeça.
- Então vira! Disse com seu copinho na mão.
Apertei os olhos sentindo o líquido me queimar a garganta. Miguel esboçou um sorriso quando me viu bater o copinho sobre o balcão.
- Vamos dançar de novo! Falou rindo.
- Aaah não! Respondi relutante. Mas ele acabou me convencendo.
Momentos mais tarde a mesa de sinuca teve uma vaga. E eu vi ele se juntar aos outros homens para jogar.
- Observe o mestre! Disse polindo a ponta do taco com giz de lousa.
A alegria de Miguel era nítida, ele parecia confortavelmente em casa.
Permaneci afastada, sentada em um banquinho alto vendo-o dar a sua primeira tacada. Ele acertou duas bolas em caçapas diferentes.
- É sorte de principiante! Um dos jogadores brincou.
Ele me olhou e eu levantei a minha garrafa brindando. Miguel voltou a jogar e prosseguiu vencendo todas às vezes.
Não sei se era o efeito do álcool mas ele ficava tão sexy se apoiando sobre a mesa para jogar. A forma como ele apertava os olhos para mirar a bola, e o seu sorriso de canto quando as acertavam o deixava atraente demais.
Quem diria que ontem eu estava pulando de uma ponte, e hoje estou num bar afastado da cidade vendo o meu tio gato jogar!
Ainda o observando vencer notei que um sujeito sentou-se ao meu lado. Ele também tinha uma cerveja em uma das mãos e um sorrisinho falso nos lábios.
- Ooi moça! Disse sendo invasivo.
Franzi o cenho tentando intimida-lo. Mas ele continuou sorrindo como se não se importasse.
Voltei a olhar para a mesa de sinuca e percebi que Miguel estava tentando dar mais uma tacada, quando notou a presença do indivíduo ao meu lado. Ele se desconcentrou e errou aquela jogada.
O adversário vibrou e usou toda a sua energia para acertar a caçapa. Miguel por outro lado ainda com o seu taco nas mãos ficou encarando o sujeito ao meu lado.
- Vocês são parentes? O homem continuou sendo incoveniente.
- Ele é o meu namorado! Respondi sem pensar.
Ele arqueou suas sobrancelhas surpreso. E segundos depois se afastou com a desculpa de pegar outra cerveja.
Eu por outro lado vibrei quando o adversário errou a tacada e finalmente era a vez de Miguel. Ele mordeu o lábio e se concentrou ainda mais, fiquei instigada tentando entender o jogo.
Vi quando ele encaçapou a bola número nove e todos que assistiam o jogo foram a loucura!
Eu desci da banqueta e comemorei alto. Miguel não quis jogar mais uma vez e entregou o seu taco para o próximo rapaz.
- Uhuuuuuu! Falei o abraçando quando ele veio até a mim. - Você foi demais!
Ele se afastou de meu abraço um pouco sem jeito.
- Queria ter dado mais emoção ao jogo, mas é eu virar às costas e os gaviões já pousam em você! Desferiu chateado.
- Então você finalizou o jogo de propósito? Perguntei segurando o riso.
- Não seja convencida! Reclamou. - Eu tenho que cuidar de você narizinho arrebitado!
- Não sou convencida! Falei vendo o sentar em minha frente. - Você que está se gabando por ter vencido tão rápido!
Miguel me olhou nos olhos.
- Às vezes você me coloca numa sinuca de bico! Disse sem sorrir.
- O que isso quer dizer? Indaguei.
- Nada importante! Se desvencilhou. - Outra saideira? Disse mudando de assunto.
- Por quê não? Dei de ombros.
Miguel ia chamar o garçom quando ouvimos seu celular tocar. Ele me olhou nos olhos preocupado.
- É o meu pai? Perguntei engolindo em seco.
- Não... É o Pither! Respondeu.
- E porque está assim? Perguntei sem entender.
- Pither costuma mandar mensagens, talvez áudios. Mas não liga se não for extremamente importante!
Tentei acompanhar a sua linha de raciocínio.
- Preciso atender! Ele disse se levantando rápido e indo para fora do bar.
Nem tive tempo de imaginar o que poderia ser. Senti meu celular vibrar no bolso da calça.
Era uma mensagem do meu pai.
"Carol querida, volta pra casa. O Álvaro faleceu, Pither está arrasado. Precisamos de você!"
Fiquei por alguns instantes perplexa, olhando para um ponto fixo do bar. A única imagem de avô que eu tive na vida tinha acabado de partir.
Doutor Álvaro era apenas avô dos filhos do Pither. Mas eu sempre o considerei como avô, pois não conheci os meus avós paternos. E o pai da minha mãe morreu quando ela estava grávida de mim.
Tenho ótimas recordações brincando com às gêmeas na casa do Vô Álvaro e da Vó Naná. Eles sempre foram muito amáveis comigo!
Senti como se a minha garganta fosse ficando sufocada. E foi inevitável conter às lágrimas.
Miguel voltou eufórico lá de fora, sequei às lágrimas de uma forma sutil.
- Você já está sabendo... Ele disse como se já me conhecesse.
Apenas assenti me levantando, e nos abraçamos fortemente.
Miguel pagou a conta e saímos daquele lugar entristecidos.
- Ele estava doente... Comecei falando quando entramos no carro. - Lutava contra um câncer há alguns anos.
Miguel apertou os olhos querendo segurar o choro. Depois socou o volante algumas vezes tentando espairecer a sua dor.
O vi soltar o ar que reprimia, segurando cada lado do volante com as mãos. E de cabeça baixa disse:
- Droga!!! Eu nem pude me despedir! Chorei imensamente com as suas palavras.
- Eu sou tão grato a ele! Miguel levantou seus olhos molhados me olhando.
Miguel realmente se importava com ele.
- Quando a minha mãe morreu meu pai deixou os filhos na responsabilidade da Tia Raquel. Eu só lembro do Tio Álvaro ajudando a gente...
Eu o fitei nos olhos tentando imaginar a sua dor misturado com gratidão. Meu pai também devia estar se sentindo assim; eu já o vi contar essa história de que seu pai não aguentou a barra da morte de sua mãe, e deixou seus filhos em São Paulo aos cuidados dos Defragma.
- Eu falei ao Pither que estava voltando ao Brasil. Contei que estava no aeroporto de Madri esperando o meu vôo para São Paulo. Me desculpe...
- Não precisava se desculpar! Você fez muito por mim! Não posso ser tão egoísta de te impedir de se despedir do Álvaro.
Ele assentiu segurando em minha mão.
- Pra toda a família eu chego daqui dez horas e meia.
Concordei secando meus olhos com a outra mão.
- Obrigada por tudo o você fez por mim!
- Eu sinto muito por não ter dado certo com a moça do apartamento.
- Faz parte! Dei de ombros desanimada.
- Eu não gostaria que precisasse você voltar pra perto da sua mãe! Falou sendo sincero.
- Você tem dez horas e meia... Deixa eu ficar mais essa noite? Falei sem muita esperança.
- Eu gostaria muito! Respondeu dando um sorriso triste. E ligou o carro em seguida.
Me senti um pouco culpada por Miguel precisar esconder da família que já havia chegado. Ele sempre foi muito ligado a família do Pither, não é atoa que foi o irmão preferido da Esther.
Mas ele mesmo comentou que não suportaria ver Álvaro careca e magrinho pelas sessões de quimioterapia. Isso nos mostra que a doença não escolhe idade, e muito menos classe social.
Um dos homens mais importantes de São Paulo, com uma carreira histórica tinha partido. Deixando o seu irmão Osvaldo, a esposa, o filho Pither e três netos.
Miguel voltou pra casa calado, pediu o jantar e ficamos esperando próximo ao balcão.
- Se quiser tomar banho eu libero uma de minhas camisetas. Disse de uma forma gentil.
- Acho que às suas camisetas vão enfim ter paz a partir de amanhã! Respondi.
- Eu acredito que elas vão sentir falta...
O olhei nos olhos com o coração apertado. Querendo confessar que eu também ia sentir falta delas.
- Obrigado por ter salvado a minha vida ontem! Falei comovida.
- Teria mesmo pulado por aquele garoto? Franziu a sua testa.
- Por ele não, mas pela vergonha sim! Respondi constrangida.
- Nada e ninguém vale a sua vida Carol! Ele me encarou nos olhos. - Você é especial demais para não acreditar nisso!
- Diz isso porque é o meu tio! Falei com desdém.
- Não... Falo independente disso! Respondeu. - Há última vez que há vi, você era apenas uma menininha loura de oito anos. Hoje se tornou uma mulher linda, engraçada, e meiga; não deixe nenhum babaca te dizer o contrário!
Consegui acreditar nisso em meio ao caos que estava a minha vida!
O irmão degenerado e cafajeste do meu pai que a minha mãe sempre criticou, conseguiu me fazer enxergar o que em anos ela nunca me fez.