capítulo 3

1381 Words
O galpão virou uma confusão organizada. Em menos de meia hora, a equipe inteira estava trabalhando. Caixas eram abertas, equipamentos conferidos, veículos examinados e computadores ligados. Era como se um ano não tivesse passado. Ou talvez tivesse passado tempo demais. Derrick estava debaixo de um dos carros, com metade do corpo para fora. — Quem foi o animal que deixou esse motor desse jeito? Felipe, do outro lado do galpão, respondeu: — Você. Derrick saiu debaixo do carro devagar. — Repete. Felipe apontou para o próprio peito. — Eu? Jamais. Eu sou um homem inocente. — Você ficou dez anos preso, Felipe. — Exatamente. Inocente. Chacal começou a rir. — Esse filho da p**a não presta. — Finalmente alguém reconheceu meu talento — Felipe respondeu. Derrick pegou uma chave inglesa. Felipe levantou as mãos. — Calma, irmão. Violência só depois do almoço. — Some da minha frente. — Tá vendo? Pavio curto. Stella observava tudo enquanto separava alguns equipamentos. Era exatamente como lembrava. Derrick continuava explosivo. Felipe continuava falando merda. Chacal continuava com aquele humor seco. Dragon permanecia concentrado. Raul observava tudo como se fosse o responsável por impedir que todos se matassem. Look parecia capaz de arrancar a alma de alguém só com um olhar. E Tejir... Tejir estava sentado diante de três computadores. — Tejir — Stella chamou. — Hm? — Você está invadindo alguma coisa? — Ainda não. Ela arqueou a sobrancelha. — Ainda? — Estou procurando primeiro. Jéssica puxou uma cadeira ao lado dele. — Sai daí. — Por quê? — Porque você está fazendo errado. Tejir olhou para ela. — Quer apostar? — Quero. Ela começou a digitar. Tejir ficou observando por alguns segundos. — Você melhorou. Jéssica sorriu. — Eu nunca precisei melhorar. — Convencida. — Gênio. — Chata. — Nerd. — Hacker. — i****a. — Gostei. Antônio apareceu atrás deles. — Vocês dois vão ficar flertando ou vão trabalhar? Jéssica virou lentamente. — Você quer morrer? Antônio abriu um sorriso. — Depende. Você vai me matar? — Com prazer. — Então vale a pena. Look, que estava passando, parou. — Antônio. — O quê? — Para. — Eu só estou conversando. — Conversa longe da minha irmã. Jéssica cruzou os braços. — Eu sei me defender. Look olhou para Antônio. — Eu sei. Antônio riu. — Tá com ciúme, cunhado? Look fechou a cara. — Não me chama assim. — Ainda. — Antônio. — Tá bom, tá bom. Stella observava de longe e balançou a cabeça. — Vocês continuam completamente malucos. Fernanda passou ao lado dela. — Você esperava alguma coisa diferente? — Não. Fernanda sorriu. — Então pronto. As duas começaram a separar caixas. — E você? — Stella perguntou. — Continua cuidando desse bando? Fernanda olhou para Marcos, que estava conferindo alguns equipamentos do outro lado. — Tento. — E ele continua te obedecendo? Marcos ouviu. — Eu ouvi isso. Fernanda gritou: — Era para ouvir mesmo! O galpão explodiu em risadas. Por alguns minutos, parecia que não existia missão. Não existia perigo. Não existia segredo. Só aquela equipe reunida outra vez. Mas Raul interrompeu. — Gente. O tom dele fez todo mundo parar. — Achei uma coisa. Stella se aproximou. — O quê? Raul segurava uma pasta antiga. — O nome de José aparece aqui. Derrick imediatamente veio até ele. — Onde? Raul abriu a pasta sobre a mesa. — Registro de uma missão de oito anos atrás. Dragon se aproximou. — Qual missão? — Transporte de documentos. Stella olhou para o papel. — Eu lembro. Derrick também. — Foi naquela época em que trabalhávamos com ele direto. Raul apontou para uma assinatura. — Só que tem um detalhe. Todos ficaram atentos. — Essa assinatura não é do José. Silêncio. Jéssica pegou a folha. — Tem certeza? — Absoluta. Tejir aproximou o rosto da tela. — Escaneia isso. Jéssica colocou o documento no scanner. Tejir começou a analisar. — A assinatura foi adicionada depois. Derrick cerrou o maxilar. — Então José já falsificava documentos naquela época? — Talvez — respondeu Raul. Look apareceu atrás deles. — Ou alguém estava usando o nome dele. Stella sentiu um arrepio. — Vocês estão dizendo que ele pode não ter sido o verdadeiro responsável por algumas das missões? — Estou dizendo que precisamos descobrir — Look respondeu. Derrick olhou para Stella. — E isso deixa tudo ainda pior. Ela sustentou o olhar. — Eu sei. Raul fechou a pasta. — Vamos levar isso para o antigo galpão. Look concordou. — E nada sai daqui sem passar pela gente. Derrick apontou para os veículos. — Quanto tempo? — Duas horas para carregar tudo — respondeu Dragon. — Uma hora e meia — corrigiu Derrick. Dragon olhou para ele. — Você não controla o tempo. — Eu controlo os carros. — Não é a mesma coisa. Felipe entrou no meio. — Gente, por favor. Não briguem antes de eu terminar de comer. Stella riu. — Você só pensa em comida? — E dinheiro. — E mulheres — Chacal acrescentou. Felipe colocou a mão no peito. — Eu sou um homem de prioridades. Derrick balançou a cabeça. — i****a. — Obrigado. --- Duas horas depois, os carros estavam carregados. A equipe saiu do galpão em comboio. Stella dirigia um dos veículos da frente. Derrick estava logo atrás. Ele não conseguia evitar. De vez em quando, olhava pelo retrovisor. Stella estava ali. Depois de um ano. Dirigindo como se nunca tivesse ido embora. Raul percebeu. — Para de olhar para o carro dela. — Não estou olhando. — Está. — Cuida da sua vida. Raul soltou uma risada. — Você nunca superou. Derrick apertou o volante. — Cala a boca. — Só estou constatando. — Raul. — Tá bom. Mas o sorriso dele continuou. Na frente, Stella percebeu o carro de Derrick atrás. E sorriu. Ela sabia. Ele continuava igual. Todos continuavam. O comboio atravessou a cidade até chegar a uma região mais afastada. O antigo galpão apareceu entre construções abandonadas. Por fora, parecia completamente morto. Sem movimento. Sem placas. Sem câmeras aparentes. Stella estacionou. Todos desceram. Look olhou ao redor. — Nada mudou. Derrick respirou fundo. — Faz um ano. Raul observou a fachada. — E ninguém mexeu. Tejir já estava procurando sinais eletrônicos. — Não existe conexão ativa. Jéssica sorriu. — Melhor ainda. Stella abriu a porta principal. O cheiro de poeira e lembranças veio de uma vez. Ela ficou parada. Olhou para dentro. Aquele lugar guardava anos da vida dela. Missões. Brigas. Risadas. Beijos. Discussões. Noites em claro. E os sete homens que ela havia amado. Derrick percebeu a mudança na expressão dela. — Stella? Ela piscou. — Estou bem. — Tem certeza? Ela respirou fundo. — Tenho. Entrou. Os outros vieram atrás. Pouco a pouco, o galpão voltou a ganhar vida. Computadores foram ligados. Armários abertos. Equipamentos posicionados. Mapas presos nas paredes. Era oficial. A equipe estava de volta. Mas enquanto todos trabalhavam, Stella se afastou discretamente. Entrou em uma pequena sala no fundo. Fechou a porta. Pegou o celular. Havia uma mensagem da mãe. Mãe: As crianças estão bem. Não se preocupa. Stella ficou olhando para a tela. O rosto duro desapareceu. Um sorriso pequeno surgiu. Ela abriu algumas fotos. Denis e Ruan brincando juntos. Luis sentado no chão com um brinquedo. Milena sorrindo. Luiza fazendo careta. Leo dormindo. Julia dando os primeiros passinhos. Daniela agarrada a uma boneca. Diana sorrindo para a câmera. Stella levou os dedos até a tela. — Meus amores... Ela sorriu. Digitou rapidamente: Stella: Cuida deles pra mim. Eu vou ficar bem. Prometo. A resposta veio pouco depois. Mãe: Seu irmão está sabendo de tudo. Só tenha cuidado. Stella olhou para a porta. Antônio. O único além da mãe que sabia. Ela apagou a conversa. Guardou o celular. Respirou fundo. Quando abriu a porta, encontrou Derrick parado no corredor. Ele estava olhando para ela. — O que você estava fazendo? Stella não se abalou. — Nada. — Você demorou. Ela deu um sorriso. — Sentiu minha falta por um ano e agora está contando meus minutos? Derrick soltou uma risada baixa. — Você continua desviando. — E você continua curioso. Ela passou por ele. Derrick ficou olhando. Alguma coisa estava diferente. Ele só ainda não sabia o quê. E Stella faria de tudo para que continuasse assim. Por enquanto.
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