Derrick ficou parado no corredor por alguns segundos, observando Stella se afastar.
Alguma coisa naquela mulher estava diferente.
Ele não sabia dizer o quê.
Talvez fosse o jeito como ela tinha ficado séria quando saiu daquela sala.
Talvez fosse o modo como guardara o celular rápido demais.
Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, depois de um ano, Derrick ainda conhecia cada pequena mudança na expressão dela.
— Vai ficar me olhando até amanhã? — Stella perguntou sem sequer virar o rosto.
Derrick soltou uma risada nasal.
— Você continua insuportável.
— E você continua me seguindo.
— Eu estou indo trabalhar.
— Claro.
Ela entrou novamente na área principal.
Derrick foi atrás.
Quando chegaram, Raul estava diante de um enorme mapa preso na parede.
— Finalmente.
Stella se aproximou.
— Descobriu alguma coisa?
— Algumas.
Raul apontou para três locais marcados.
— Esses três endereços aparecem ligados a José Matos nos últimos anos.
Dragon se aproximou.
— Empresas?
— Duas empresas de fachada. A terceira está registrada em nome de outra pessoa.
Tejir girou o notebook.
— E eu consegui entrar em uma das bases de dados.
Jéssica olhou para ele.
— Conseguiu ou alguém deixou você entrar?
Tejir sorriu.
— Eu prefiro acreditar que consegui.
— Então fala.
Ele aumentou uma imagem na tela.
— Há quatro meses, alguém movimentou uma quantia enorme através dessa empresa.
Derrick se aproximou.
— Quanto?
— Dinheiro suficiente para financiar uma operação grande.
Chacal cruzou os braços.
— Que tipo de operação?
— Ainda não sei.
Look ficou encarando a tela.
— E José?
— Oficialmente, não aparece.
Raul franziu a testa.
— Oficialmente?
Tejir apontou para outra linha.
— Extraoficialmente, aparece uma sequência de transferências para contas que estão ligadas a pessoas que já trabalharam com ele.
O ambiente ficou silencioso.
Stella apoiou as mãos na mesa.
— Então ele está movimentando dinheiro por terceiros.
— Parece — respondeu Tejir.
Dragon analisou os dados.
— Isso não é uma operação pequena.
— Não — Raul concordou.
Felipe entrou na sala carregando um pacote de biscoitos.
— Gente, vocês têm uma capacidade impressionante de transformar vinte e cinco milhões numa reunião triste.
Chacal olhou para ele.
— Como você consegue pensar em comida agora?
Felipe abriu o pacote.
— Porque, diferente de vocês, eu tenho inteligência emocional.
— Você tem fome.
— Também.
Stella pegou um biscoito da mão dele.
— Obrigada.
Felipe olhou indignado.
— Era meu.
— Agora é nosso.
— Você sumiu um ano e voltou roubando minha comida?
Ela mordeu o biscoito.
— Sim.
— Eu senti saudade de você.
— Eu também senti.
Felipe sorriu.
Por alguns segundos, o clima ficou mais leve.
Até Raul falar:
— Temos que decidir se aceitamos a missão.
Look respondeu imediatamente:
— Já aceitamos.
Raul virou para ele.
— Você nem perguntou.
— Vinte e cinco milhões já estão na conta. Equipamento fornecido. Galpão fornecido. Carros fornecidos. Nosso antigo contato reapareceu. É suspeito pra c*****o.
Ele fez uma pausa.
— Justamente por isso eu quero descobrir o que está acontecendo.
Derrick assentiu.
— Concordo.
Chacal também.
— Eu quero saber quem está por trás.
Dragon fechou o notebook.
— Eu também.
Tejir ergueu a mão.
— Nem preciso perguntar.
Felipe suspirou.
— Então eu estou oficialmente condenado a participar.
Stella sorriu.
— Você sempre participa.
— Eu poderia fugir.
Derrick olhou para ele.
— Não.
— Eu nem terminei.
— Não precisa.
Felipe resmungou.
— Ditadura.
Jéssica se aproximou da mesa.
— Eu tenho uma coisa.
Todos olharam para ela.
Ela colocou o celular sobre a mesa.
— Encontrei uma comunicação antiga.
Raul pegou.
— De quando?
— Oito meses atrás.
Stella ficou séria.
— Oito meses?
— Sim.
Jéssica abriu o arquivo.
Era uma mensagem criptografada.
Não havia nome.
Não havia número.
Apenas uma sequência de caracteres.
Tejir imediatamente puxou o computador.
— Deixa comigo.
— Já tentei — Jéssica respondeu.
Ele olhou para ela.
— E?
— Não consegui quebrar.
Tejir abriu um sorriso.
— Agora você me deixou interessado.
Os dois começaram a trabalhar juntos.
Enquanto isso, Antônio se aproximou de Stella.
— Você está bem?
Ela olhou para o irmão.
— Estou.
Antônio não acreditou.
— Stella.
— Antônio.
— Não faz essa cara comigo.
Ela desviou o olhar.
— Eu só estou cansada.
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa.
Stella ficou em silêncio.
— Eu sei.
Antônio abaixou a voz.
— E eles não sabem.
Ela o encarou.
— Não.
— Então continua assim.
— Eu sei.
Antônio respirou fundo.
— Só toma cuidado. Agora que vocês estão juntos de novo, vai ficar muito mais difícil esconder qualquer coisa.
Stella apertou os lábios.
— Eu consigo.
— Você sempre acha que consegue tudo sozinha.
— Porque geralmente consigo.
Antônio deu uma risada curta.
— Essa arrogância é nossa família inteira.
Ela bateu de leve no braço dele.
— Vai trabalhar.
— Sim, senhora.
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Algumas horas depois, a equipe já tinha transformado o antigo galpão em uma verdadeira central de operações.
Os carros estavam escondidos.
As armas organizadas.
Os computadores funcionando.
As comunicações protegidas.
Os suprimentos catalogados.
E o mapa principal cobria quase uma parede inteira.
Raul entrou na sala carregando algumas folhas.
— Temos um problema.
Todos olharam.
— Que tipo de problema? — perguntou Derrick.
Raul colocou os papéis sobre a mesa.
— O depósito que recebemos não veio diretamente do José.
Stella franziu a testa.
— Como assim?
— O dinheiro passou por quatro contas antes de chegar.
Tejir imediatamente pegou os documentos.
— Quatro?
— Quatro.
Dragon se aproximou.
— Então José não está pagando diretamente.
— Não.
Look ficou sério.
— Ele está escondendo a origem.
Chacal olhou para Stella.
— E isso significa que alguém não quer deixar rastros.
— Ou quer que a gente pense que não existem rastros — respondeu ela.
Todos olharam para ela.
Derrick sorriu de canto.
— Aí está.
— O quê?
— A Stella que eu conheço.
Ela cruzou os braços.
— Eu nunca fui embora.
Derrick sustentou o olhar.
— Foi exatamente isso que você fez.
O sorriso dela desapareceu por um instante.
— Não vamos começar.
— Não comecei nada.
— Derrick.
Raul interrompeu.
— Chega.
Os dois olharam para ele.
— Temos uma missão para planejar.
Derrick respirou fundo.
— Tá.
Stella voltou para o mapa.
— Qual é o primeiro passo?
Raul apontou para uma área industrial.
— Amanhã.
Dragon perguntou:
— Horário?
— Às três da manhã.
Felipe arregalou os olhos.
— Três da manhã?
Chacal deu um tapa no ombro dele.
— Você é piloto.
— Eu sei.
— Então dirige.
— Eu preferia dirigir às três da tarde.
— Ninguém perguntou.
Felipe bufou.
Stella segurou o riso.
Raul continuou:
— Vamos investigar um dos depósitos ligados à empresa de fachada.
Look pegou a arma que estava sobre a mesa e verificou o carregador.
— Quantos homens?
— Não sabemos.
Chacal sorriu de leve.
— Melhor ainda.
Felipe olhou para ele.
— Você tem algum problema?
— Nenhum.
— Você sorri quando não sabe quantos inimigos tem.
— E você reclama quando sabe.
— Porque eu tenho bom senso.
Stella bateu as mãos na mesa.
— Chega.
Todos ficaram quietos.
Ela apontou para o mapa.
— Entramos, verificamos, saímos. Nada de heroísmo.
Derrick levantou uma sobrancelha.
— Você falando isso é quase engraçado.
— Eu estou falando sério.
— Eu sei.
— E se der errado?
Look respondeu:
— A gente improvisa.
— E se o improviso der errado?
Dragon sorriu.
— Improvisamos de novo.
Stella balançou a cabeça.
— Vocês são loucos.
Raul pegou o mapa.
— Mas somos bons.
— Isso vocês são.
A equipe começou a se dispersar.
Cada um foi cuidar de sua parte.
Stella ficou sozinha diante do mapa por alguns segundos.
Seu celular vibrou.
Ela olhou discretamente.
Outra mensagem da mãe.
Mãe: Denis perguntou por você hoje.
O coração dela apertou.
Stella fechou os olhos por um instante.
Digitou:
Stella: Diz que a mamãe está trabalhando. Logo eu volto.
Ela apagou a conversa.
Guardou o celular.
Quando levantou o rosto, viu que alguém estava parado na entrada.
Derrick.
Ele não tinha visto a tela.
Mas tinha visto o sorriso que ela deu para o celular.
— Quem era?
Stella ficou imóvel por uma fração de segundo.
— Minha mãe.
Derrick assentiu.
— Tudo bem com ela?
— Tudo.
Ele ficou olhando para ela.
— Você está escondendo alguma coisa.
Stella sentiu o coração acelerar.
Mas manteve o rosto tranquilo.
— Todo mundo esconde alguma coisa, Derrick.
Ele deu um passo para dentro.
— Eu não.
Ela sorriu.
— Você esconde sim.
— O quê?
Stella passou por ele.
— Que ainda sente minha falta.
Derrick segurou o braço dela por um instante.
Ela parou.
Os dois ficaram se encarando.
— Isso nunca foi segredo — ele disse.
Stella não respondeu.
Apenas soltou o braço devagar e saiu.
Derrick ficou sozinho.
E, pela primeira vez desde que ela voltara, uma pergunta começou a incomodá-lo de verdade:
o que Stella tinha feito durante aquele ano inteiro longe deles?