005

1482 Words
Assim que chegamos, minha mãe entrou direto pro quarto dela, exausta. Eu e Navÿlla ficamos na sala por alguns segundos, em silêncio, só ouvindo o ranger da porta do quarto fechando. Aquilo dizia tudo: o luto ainda tava ali, sentado com a gente. — Vamo? — Navÿlla perguntou baixinho. Assenti. Fomos até o bar novamente porque ela queria “pegar as coisas que tinha deixado na mesa”. Mentira. Eu sabia que, no fundo, ela queria ficar um pouco mais comigo fora de casa, pra eu não desabar no mesmo ambiente onde meu irmão vivia. Chegando lá, sentamos na mesma mesa de antes. O bar tava mais cheio, música mais alta, riso espalhado, aquela sensação de normalidade que nunca bate igual pra quem tá com a alma quebrada. — Fica aqui, vou pegar as coisas — Navÿlla disse. Fiquei observando quando a atendente apareceu de novo, aquela mesma que mais cedo tinha ficado me encarando. Ela reconheceu a mesa, olhou pra mim rápido e desviou. Navÿlla percebeu. Claro que percebeu. Ela voltou, colocou a mão na minha cintura e, do nada, levantou minha blusa, dando uma olhada na pistola que eu tinha colocado ali antes de sairmos de casa. Negou com a cabeça e suspirou fundo, tipo quem já não aguenta mais viver nesse misto de amor e medo. Antes que eu perguntasse algo, a atendente chegou com duas torres: a nossa, pela metade, e outra cheia. Navÿlla sorriu daquele jeito cínico que só ela sabe. — Que que tu fez, garota? — perguntei. — Eu? Nada — respondeu com a maior cara de sonsa do mundo. — Só falei umas coisinhas pra ela. — Coisinha tipo o quê? Ela virou o corpo pra mim, apoiando o queixo no meu ombro. — Você ia gostar se outro cara ficasse me comendo com os olhos? — perguntou séria. Neguei. — Pois é. Eu também não gostei. Então informei pra ela que você é casado, muito bem casado, e que, se ela continuasse, ia aprender o significado da palavra problema. Porque ela é isso, né? p*****a. Te olhando desde cedo. Eu ri, provocando: — O pai também é bonitão, pode falar. Ela arregalou os olhos. — Tá querendo dizer o quê? Que gostou da atenção? Porque se for, eu levanto e deixo você livre pra ela. — Tá maluca, mulher? Não quero ninguém. Só você. Ela deu um gole no copo e respondeu: — Espero mesmo. Porque eu não nasci pra ser corna, não. Se tu me trair, eu te mato com a tua própria arma. Independente do teu cargo — falou séria, mas com aquele brilho de ciúme que me fazia rir. Enchi meu copo, depois o dela. — Mô, preciso te pedir um bagulho… — Fala. Tirei do bolso o dinheiro que o chefe tinha me dado. — Tem trezentos reais aqui. Queria que tu fosse no mercado e no hortifruti amanhã fazer uma compra maneira pra lá de casa. Nada chique, só coisa boa. Ela franziu o cenho. — De onde tirou esse dinheiro, Thayan? Eu só a encarei. Ela suspirou. — Tá. Eu faço. — Só não fala pra minha mãe que partiu de mim. Diz que tu pegou um extra e quis ajudar. Tu sabe como ela é… Navÿlla ficou séria. — Essa é a primeira e última vez que você me coloca nessas tuas mentiras. Principalmente envolvendo ela. Você sabe o quanto gosto da Tia Ana, e não acho justo enganar a mulher desse jeito. Ela tá destruída, Thayan. Fiquei quieto, olhei pra mesa, pro copo, pra qualquer canto que não fosse o olhar dela. — Tá bom, amor… eu prometo. Só dessa vez — beijei a mão dela. — Amanhã meu plantão é noturno. Entro às 19h, saio só no outro dia. Ela respirou fundo. — Só se cuida. Eu te amo pra c*****o. Não quero te perder. E espero que um dia você acorde pra vida, esqueça essa parada de tráfico, volte a ser o Thayan que você tem potencial pra ser. — Talvez um dia… — É… talvez — ela murmurou, encostando a cabeça no meu ombro. Eu beijei o topo da cabeça dela, puxando-a mais pra perto. O bar seguiu cheio, a música seguiu tocando, as conversas seguiam rolando… mas o mundo, pra mim, ficou só naquele abraço. Era o único lugar onde tudo parecia menos torto. Mesmo que eu soubesse que, cedo ou tarde, a vida ia cobrar caro. Sempre cobra. Navÿlla apoiou o copo na mesa, respirou fundo e me encarou daquele jeito que só ela tem — mistura de preocupação, bronca e amor. Passou a mão no meu rosto devagar, como quem tenta aliviar uma tensão que ela sabe que não vai sair tão cedo. Navÿlla: Eu queria poder arrancar essa dor do teu peito, sabia? — falou baixinho, quase num sussurro que só eu ouvi. Thayan: Eu sei, mô… cê já faz mais do que devia. Só de tá aqui comigo, já ajuda pra c*****o. Ela deitou a cabeça no meu ombro e eu passei o braço pela cintura dela, puxando ela mais pra perto. Ficamos ali, só respirando o mesmo ar, ouvindo o barulho distante da rua — as risadas, o funk estourando em alguma casa, moto passando depressa, alguém discutindo na viela. O caos de sempre. Mas com ela no meu colo… tudo perdia força. Depois de alguns minutos, ela levantou a cabeça. Navÿlla: E tua mãe? — perguntou com a sobrancelha franzida. — Tu acha que ela vai aguentar? Sozinha desse jeito? Thayan: Minha mãe é forte… sempre foi. Mas dessa vez… — respirei fundo — Dessa vez quebraram ela, mô. Fizeram ela virar casca vazia. Navÿlla: Então você precisa ficar mais presente. E não falando presente só de corpo, Thayan. Tô falando de cabeça, de atitude. Não adianta nada tu tentar animar ela se daqui a pouco ela descobre que você tá entrando pro mesmo mundo que levou o filho dela. Thayan: Navÿlla… Navÿlla: Não, sério. — ela colocou a mão no meu peito, me impedindo de responder. — Eu sei que tu tá machucado. Eu sei que tá com ódio. Mas ódio não resolve nada. Ódio só cava buraco. Fiquei quieto. Não porque eu concordava. Mas porque ela tava falando com sinceridade. E quando a Navÿlla falava daquele jeito, era impossível ignorar. O garçom passou por nós rapidinho, recolhendo uns copos da mesa ao lado. A música no bar mudou, entrou um pagode antigo, daqueles de quebrar até quem nunca amou na vida. Minha mulher abriu um sorriso pequeno, quase triste. Navÿlla: Lembra quando a gente se conheceu aqui? Thayan: Lembro. Tu fingindo que não tava me olhando. Navÿlla: Eu? — ela riu — Cê que parecia um filhote de cachorro me seguindo com o olhar. Até gaguejou quando eu fui pedir bala no balcão. Thayan: Cê que me deixou nervoso, pô. Mulher bonita faz isso com o homem. Ela apoiou o queixo no meu ombro, rindo baixinho. Depois ficou séria de novo. Navÿlla: Você precisa prometer que não vai fazer m***a. Thayan: Prometer eu não prometo. Mas eu tento. Navÿlla: Thayan… Thayan: Mô… olha pra mim. — segurei o rosto dela com as duas mãos. — Eu tô com dor, tô com raiva, tô fodido da cabeça. Tô querendo sangue, eu sei disso. Mas eu não sou burro. Não vou me jogar no fogo sem pensar. Ela respirou fundo, tocando minhas mãos. Navÿlla: Então pensa em mim… pensa na tua mãe. Pensa na vida que tu ainda pode ter. Você não precisa seguir o mesmo caminho que todo mundo daqui segue. Você não precisa morrer novo. Ficamos em silêncio. Eu sabia que ela tava certa. Mas sabia também que nenhuma palavra no mundo apagava a imagem do meu irmão estirado no chão. A música mudou de novo. Alguém gritou “roda de samba”, outro riu, e o bar começou a encher. A vida seguia como se o mundo não tivesse acabado pra mim. De repente, meu celular vibrou. Olhei a tela. Era mensagem do chefe: “Amanhã, 19h. Sem atraso.” Bloqueei o celular rápido, antes que ela visse. Navÿlla percebeu. Navÿlla: Quem é? Thayan: Ninguém, mô. Só besteira. Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada, mas não insistiu. Voltou a beber, encostou na mesa, mexeu no cabelo e ficou olhando o movimento. Eu olhei pra ela como quem olha pra um anjo que caiu no lugar errado. Se um dia eu tiver salvação… vai ser por causa dessa mulher. Ela percebeu que eu tava encarando. Navÿlla: Que foi? Por que essa cara? Thayan: Tô pensando… no que seria de mim sem você. Navÿlla: Ah, isso é fácil. — ela deu um gole e sorriu — Ia tá morto ou preso. Eu ri. Ela também. E naquele momento, mesmo com a guerra lá fora, com o luto dentro de casa e o ódio dentro de mim… ela fez o mundo parecer menos c***l.
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