Era fim de expediente. A maioria dos setores já havia esvaziado, mas na sala de reuniões no décimo terceiro andar, as luzes ainda estavam acesas. Isadora estava sentada na ponta da mesa, analisando o último gráfico do dia em seu notebook. Dante estava ao lado dela, com as mangas da camisa arregaçadas, o paletó jogado na cadeira atrás de si.
- A projeção para o próximo semestre é mais instável do que eu esperava - ele comentou, mas a voz soava distante, quase como se o assunto não importasse de verdade.
- A instabilidade vem do setor de investimentos. Podemos contornar isso com o novo planejamento - Isadora respondeu, sem levantar os olhos. Estava tentando manter a postura profissional, mesmo com a sala vazia, a cidade iluminada do lado de fora das janelas de vidro e o silêncio que se estendia entre os dois como uma tensão invisível.
Dante se aproximou, lentamente, se encostando na mesa ao lado dela.
- Eu admiro o quanto você tenta manter as coisas sob controle - ele murmurou, os olhos cravados nela.
- Porque alguém precisa manter, já que você faz questão de quebrar todos os limites - retrucou, sem desviar o olhar.
Dante soltou um sorriso de canto, aquele meio torto que ela começava a reconhecer como um aviso perigoso. Ele deu mais um passo e se posicionou atrás dela, os dedos tocando de leve os ombros cobertos pelo blazer. Isa fechou os olhos por um segundo, sentindo o calor da presença dele.
- Isa... - ele sussurrou, e o som do nome dela saindo da boca dele pareceu quase íntimo demais.
Ela se virou, com a intenção de pedir que ele parasse. Mas encontrou o rosto dele perto demais, e quando tentou se afastar, ele segurou com firmeza sua cintura, a puxando para si. O beijo aconteceu como uma explosão. Não havia mais contenção, nem palavras. Só semanas de desejo acumulado se dissolvendo num toque urgente.
Os beijos se intensificaram, e enquanto ela segurava o colarinho da camisa dele, sentiu as mãos dele deslizarem por suas costas até alcançar sua cintura. Dante a encostou na mesa, e enquanto a beijava, sua mão deslizou discretamente por dentro da calça justa que ela usava, encontrando-a quente e pronta.
- Você fica insuportavelmente linda quando tenta me ignorar - ele disse contra os lábios dela, a voz rouca de desejo.
Ela arfou, segurando a beirada da mesa, enquanto ele a tocava com maestria, os olhos fixos nela. O prazer veio rápido demais, intenso demais, deixando-a sem fôlego, vulnerável.
Foi então que a porta da sala de reuniões se abriu abruptamente.
- Dante, eu... - Valentina parou no meio da fala, os olhos se arregalando diante da cena.
Isadora se afastou de supetão, tentando recompor as roupas e o autocontrole. Dante, com a respiração acelerada, virou-se lentamente para a loira parada na porta com uma pasta na mão e o orgulho ferido estampado no rosto.
- Valentina - ele disse, sem culpa aparente, apenas firme. - Agora não é um bom momento.
Valentina olhou de Isa para Dante, o olhar oscilando entre raiva e decepção.
- Vejo que você resolveu se distrair... no expediente - ela disparou, virando-se com passos apressados, sem esperar resposta.
O silêncio que se seguiu pareceu mais barulhento que tudo.
Isadora ajeitou o cabelo e se afastou da mesa, ainda com o coração acelerado.
- Isso não devia ter acontecido.
- Mas aconteceu - Dante respondeu, calmo, como se tudo estivesse sob controle. - E vai acontecer de novo, Isa. Você sabe disso.
Ela pegou suas coisas sem responder e saiu antes que a loucura se tornasse um hábito.
Dessa vez, ele não a impediu.
Valentina bateu a porta da própria sala com força, os saltos estalando no chão de mármore como tiros. Em menos de dois minutos, Dante entrou sem bater, o olhar frio, o maxilar travado. Ela se virou imediatamente, os olhos brilhando de raiva e humilhação.
- Você enlouqueceu?! Com uma funcionária, dentro da empresa?
- Cuidado com o tom - ele disse, a voz baixa, perigosa. - Está esquecendo onde está?
- Ah, não! Não vem com essa pose de dono do mundo, Dante. A Corp Group Brasil só existe por causa do capital da minha família! Você pode ter o sobrenome no contrato, mas não se esqueça que sem o meu pai você não teria nem essa maldita sala.
Ele deu um passo à frente, imponente.
- A empresa é minha, Valentina. Está no papel, está assinado e selado. O que você e sua família têm é uma pequena porcentagem e muito orgulho. E você está confundindo as coisas há tempo demais.
Ela riu, sarcástica.
- Confundindo? Você vivia na minha cama até poucos meses atrás. Não vem bancar o CEO isento agora.
- Nós transamos, Valentina. Algumas vezes. Ponto. Não havia relação, não havia promessa. Você sabia disso. Nunca houve sentimento da minha parte - ele foi direto, sem anestesia. - E não vou tolerar você se metendo na minha vida pessoal como se ainda tivesse algum espaço nela.
Ela apertou os lábios, tentando controlar as emoções que ameaçavam transbordar.
- Acha que vai bancar o cafajeste arrependido agora? Vai correr atrás da funcionária toda ferida que caiu de paraquedas aqui?
- Se for esse o caso, é problema meu. Não seu. - Ele parou diante dela, os olhos cravados nos dela. - E se tentar desrespeitar ou intimidar a Isa de novo, Valentina, você vai descobrir que o meu lado gentil é só uma fração do que eu posso ser.
Ela estreitou os olhos.
- Você vai se arrepender de misturar trabalho com essa... carência.
Dante inclinou a cabeça com um meio sorriso gelado.
- E você vai se arrepender de achar que pode me ameaçar.
Em silêncio, ele virou-se e saiu, batendo a porta com firmeza.
Valentina ficou ali, sozinha, o orgulho em frangalhos. Mas se tinha uma coisa que ela sabia fazer... era transformar dor em vingança. E, dessa vez, Isa estava no caminho errado da tempestade.
Isadora apertou os botões do elevador com dedos trêmulos. A reunião tinha terminado com seus sentidos em chamas e a realidade a atingindo como um balde de água fria assim que a porta se abriu e Valentina entrou. O olhar de desprezo da loira ainda queimava em sua memória, mas o que mais a incomodava era o que tinha permitido acontecer.
O som dos saltos ecoava no estacionamento vazio. O sol já havia sumido, e o vento da noite soprava leve, mas cortante. Ela destravou o carro, jogando a bolsa no banco do passageiro e se preparava para entrar quando ouviu passos.
Dante surgiu por trás de uma das colunas, ainda em camisa social, as mangas dobradas até os cotovelos. O rosto estava sério, mas o olhar... o olhar denunciava algo mais.
— Isa — ele chamou, a voz grave e firme.
Ela parou com a porta entreaberta, mas não se virou.
— Não tem mais nada pra dizer, Dante. O que aconteceu ali foi um erro.
— Um erro? — ele perguntou, se aproximando. — Não foi isso que seu corpo dizia minutos atrás.
Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
— Foi no pior lugar, na pior hora, e com a pior pessoa para ver. Acha mesmo que isso não vai ter consequências?
Ele parou ao lado da porta do motorista, observando o perfil dela.
— Eu lido com a Valentina. E com qualquer um que tente te prejudicar. Não vou me desculpar por te querer.
Ela finalmente o encarou.
— Mas eu talvez me arrependa por ter deixado você chegar tão perto.
Sem dizer mais nada, entrou no carro, ligou o motor e saiu, deixando Dante parado ali, encarando o rastro das luzes traseiras.
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Em casa, Isa encontrou Júlia sentada no sofá, comendo brigadeiro direto da panela, já de pijama.
— Você chegou tarde — Júlia comentou, erguendo as sobrancelhas. — E com essa cara de quem viu um fantasma... ou cometeu um pecado.
Isa jogou a bolsa no chão e se largou no sofá com um suspiro longo.
— Júlia do céu... acho que eu me meti num problema sério.
A amiga deu pausa na colherada.
— Fala logo. Se tem homem envolvido, quero detalhes sórdidos.
Isa riu, sem humor.
— Dante. A gente se beijou. De novo. E... foi além disso. Dentro da empresa. Na sala de reunião.
— O quê?! — Júlia arregalou os olhos. — Você tá de s*******m! Amiga, isso é cena de filme adulto!
— E foi interrompida. Por ela.
— "Ela" quem?
Isa olhou para a amiga como quem implorava por compreensão.
— A loira do restaurante. Valentina. Ex dele. Sócia. E agora me odeia oficialmente.
Júlia se jogou de costas no sofá, levando as mãos ao rosto.
— Isso é uma novela. E você é a mocinha que se meteu com o CEO perigoso. Mas, amiga... você tá bem?
Isa demorou a responder. Depois disse, com um nó na garganta:
— Eu não sei. Ele me tira do eixo. E agora sinto que estou prestes a ser engolida por algo que não consigo controlar.
Júlia segurou a mão dela.
— Então respira. E lembra quem você é. Não deixa esse homem — ou essa loira surtada — apagar a mulher incrível que eu conheço. A gente vai sair dessa juntas.
Isa sorriu, mesmo com o caos dentro dela. E pela primeira vez naquela noite, sentiu que ainda podia ter algum controle sobre o próprio destino.