UM

1483 Words
Samira empurrou o portão devagar, como se o ferro velho pudesse denunciar sua presença com um simples rangido. O coração batia descompassado, não de medo, mas de uma ansiedade amarga, daquela que já vem carregada de desconfiança. Rodrigo estava logo atrás, inquieto, passando a mão na nuca, olhando pros lados como se o perigo estivesse na rua, quando na verdade estava lá dentro. — Sâmi… ainda dá tempo de ir embora — ele murmurou, baixo, quase suplicando. Ela nem respondeu. Só entrou. A primeira coisa que estranhou foi o silêncio. Não o silêncio de casa vazia, mas aquele silêncio cheio, pesado, como se tivesse gente ali dentro respirando baixo. A porta da casa estava fechada. Aquilo já era errado. Jean nunca fechava a porta daquele jeito quando estava sozinho. Ela girou a maçaneta e entrou. O cheiro veio primeiro. Comida. Comida feita. Samira parou na cozinha como se tivesse levado um soco. Panelas no fogão, ainda sujas, com resto de comida grudado. O pano de prato pendurado de qualquer jeito. Aquilo não fazia sentido nenhum. Jean almoçava fora e jantava na casa da mãe ou na dela. Ele não cozinhava. Nunca. Nunca. Os olhos começaram a arder na mesma hora. Não era só traição. Era invasão. — Ele… ele tá trazendo alguém pra cá… — a voz saiu baixa, falhada. Rodrigo não respondeu. Nem precisava. Samira andou mais pra dentro da casa, cada passo mais pesado que o outro. A sala foi o segundo golpe. As cortinas. Trocadas. O sofá. Sem a capa que ela mesma tinha colocado. A televisão desligada. Nenhum som. Nenhum riso. Nenhuma discussão. Nada. Aquilo não era visita. Aquilo era vida. Uma vida acontecendo no lugar da dela. A mente de Samira disparou. Não foi lento, não foi confuso. Foi rápido, afiado, c***l. As peças se encaixando uma atrás da outra. Não era uma escapada. Não era uma noite. Não era carência por ela estar de resguardo. Era rotina. Era costume. Era outra mulher vivendo dentro da casa dela. Ela engoliu seco, sentindo o gosto amargo subir pela garganta. Pensou que preferia pegar os dois no ato. De verdade. Gemendo, se pegando, qualquer coisa. Aquilo, pelo menos, seria só sexo. Mas dormir? Dormir juntos? Na cama dela? Aquilo era pior. Muito pior. Ela parou no corredor de repente. Rodrigo quase trombou nela. Samira levantou o dedo, pedindo silêncio, os olhos fixos na porta do quarto. Depois fez um gesto curto com a cabeça. Volta. Rodrigo franziu a testa, confuso, mas ela já estava se movendo. Passou por ele e saiu da casa como se nada tivesse acontecido. Deixou a porta aberta. O portão também. O ar da rua bateu no rosto dela, mas não refrescou nada. — Acende um — ela falou, estendendo a mão. — Tá maluca? — Rodrigo arregalou os olhos. — Eu não fumo isso. Ela virou o rosto devagar, encarando ele com um olhar que ele não conhecia. — Você engana a mamãe. Não me engana, não. Eu sei. — Sâmi, eu não— — Me dá essa p***a. Ele hesitou. Mas deu. O cigarro e o Zippo. Ela pegou com firmeza. Mas não acendeu. Não ali. Samira virou de novo e entrou na casa como um vento. Rápida demais. Decidida demais. Rodrigo foi atrás, já com o coração apertado. Ela passou direto pela cozinha, abriu o armário debaixo da pia e puxou a garrafa de álcool como se já soubesse exatamente onde estava. Sabia. Porque aquela ainda era a casa dela. Ela não desacelerou. Não pensou. Não hesitou. Quando chegou na porta do quarto, parou. Respirou fundo. E entrou. A luz do abajur iluminava o suficiente. O suficiente pra destruir ela por dentro. Jean estava exatamente como sempre dormia. De lado. Pernas dobradas. O maldito travesseiro entre elas. Sempre aquele maldito travesseiro que nunca deixava ela se encaixar nele. Nunca tinha conseguido dormir abraçada com ele. Nunca. E agora… Agora tinha alguém ali. Cíntia. Usando a camisola dela. Aquela velha, que ela tinha deixado pra trás sem nem pensar. De bruços. O braço debaixo da cabeça. A coberta só até a metade da b***a. Como se fosse dona de tudo. Como se sempre tivesse sido. Rodrigo parou na porta, o choque estampado na cara. Mas Samira… Samira ficou em silêncio. Imóvel. Observando. Gravando. Cada detalhe. Cada respiração deles. Cada centímetro daquela cena. Então, sem tirar os olhos de Cíntia, ela abriu a garrafa. O cheiro forte de álcool subiu no ar. Rodrigo entendeu. E o desespero veio na hora. — Sâmi, não— Ela não ouviu. Ou não quis ouvir. Despejou metade do líquido direto na cama. No cobertor. No corpo de Cíntia. Frio. Violento. Cíntia se mexeu na hora. Um arrepio. Um susto. Os olhos abrindo, confusos. — Que— A outra metade veio logo depois. Mais forte. Mais direta. Cíntia sentou de repente, assustada, a perna batendo em Jean. — O que tá acontecendo?! Jean acordou no susto. Mas Samira já estava um passo à frente. O clique do Zippo cortou o ar. Pequeno. Mas definitivo. O fogo acendeu. Os olhos dela não tinham lágrima nenhuma. Só vazio. Ela jogou o isqueiro. E virou as costas. O grito veio depois. Alto. Desesperado. O tipo de grito que ecoa. Que marca. Mas Samira já estava saindo. Rodrigo travou por um segundo. Depois correu. — Fudeu… — ele murmurou, quase sem voz. Ela subiu na moto sem olhar pra trás. Nem uma vez. O barulho do motor cortou a noite da quebrada. Eles saíram voando. O caos ficando pra trás. Ou talvez só começando. Rodrigo parou de repente, alguns minutos depois, ainda longe o suficiente. — O que foi? — ela perguntou, seca. Ele virou pra ela, sério. — Incêndio criminoso dá cadeia, Samira. O peso da frase caiu. Mas ela não respondeu. — Eu vou tirar você dessa — ele continuou, já decidindo tudo. E foi. Não voltou pra casa. Entrou mais fundo na favela. Parou na casa do Deco. Explicou tudo rápido, direto, sem enfeite. Samira só assistia. Como se estivesse fora do próprio corpo. Deco pegou o rádio. Falou códigos. Deu ordens. Em minutos, o som de motos começou a ecoar pela quebrada. Movimento. Resposta. Organização. Rodrigo voltou pra ela. — Vão segurar o Jean. Ou pelo menos tentar. Mas se der r**m… Ele respirou fundo. — Teu álibi já tá pronto. — Álibi? — ela franziu a testa. — Você não tava lá. — Como assim? — Você tava com o Alexis. O nome caiu pesado. — A noite inteira. Samira entendeu. Rápido. — E o motivo? — Jean vai dizer que você fez isso por ciúme. Mas a gente vira o jogo. Diz que ele quis te incriminar porque você tava com o gerente da boca. Ela ficou em silêncio por um segundo. Depois assentiu. Simples assim. Foi levada até a casa do Alexis. E ali… Ela não fingiu. Não fez por obrigação. Fez porque queria sentir outra coisa. Qualquer coisa. Menos aquilo que tava queimando dentro dela. E foi intenso. Cru. Sem carinho. Sem promessa. Só necessidade. Só fuga. E, por algumas horas… Funcionou. No dia seguinte, Alexis ainda estava ali, tranquilo, como se nada fosse demais pra ele. — Se quiser ficar… tem proteção — ele disse. — Posso te colocar no meu nome. Ela soltou um riso curto. — Nando… cê sabe que não é minha vida. — Mas agora já tá dentro — ele rebateu. Ela balançou a cabeça. — Eu preciso pensar. — Vai voltar praquele cara? Ela não respondeu. — Sereia — ele falou, encarando ela. — Com esse corpo aí… qualquer um se perde. Ela revirou os olhos, mas um canto da boca subiu. — Melhor que r**o de arraia. — Muito melhor. Ela vestiu a roupa devagar. — Fica tranquilo. Nosso segredo. E saiu. Quando chegou em casa, viu os filhos. E pela primeira vez desde a noite anterior… Sentiu alguma coisa quebrar de verdade. Cansaço. Peso. Realidade. Dormiu. Pesado. Profundo. Sem sonho. À tarde, Rodrigo chegou com notícias. — Ela tá viva. Samira ficou parada. — Mais de 70% do corpo queimado. Silêncio. — Jean tentou apagar. Não conseguiu. Os vizinhos chamaram os bombeiros. Ela ouviu tudo. Sem expressão. — Ele foi pro hospital também. Fumaça. Rodrigo respirou fundo. — E o depoimento… Ele soltou um riso sem humor. — Perfeito. Samira olhou pra ele. — Ele disse que ela era louca. Que tava rodando casa de gente. Que tentou seduzir ele… e que, quando ele recusou, ela fez isso. Os olhos de Samira estreitaram. — E acreditaram? — Até chorou, Sâmi. O silêncio voltou. Pesado. Denso. — Quinze dias — Rodrigo completou. — Ele sumiu esse tempo todo. Ela assentiu devagar. Quinze dias. Quinze dias sem ele. Quinze dias pra ela respirar. Ou se afundar de vez. — E agora? Rodrigo perguntou. Samira olhou pro nada. Mas, no fundo… Ela já sabia. Aquilo não tinha acabado. Nem de longe.
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