DEZOITO

1424 Words
Depois que Guilherme nasceu, tudo melhorou um pouco. Não que os problemas tivessem desaparecido como mágica, porque isso não acontece na vida real. Mas algumas coisas ficaram mais suportáveis. Felipe passou a controlar melhor os acessos entre as duas casas e não deixava Dona Olívia entrar na minha quando bem entendesse. A cerca de madeira que eu tinha mandado fazer acabou ficando mais bonita do que eu imaginava. As plantas cresceram rápido, preenchendo os espaços e dando uma sensação de privacidade que eu nunca tinha experimentado desde que me mudei para lá. A cerca tinha aproximadamente um metro e vinte de altura. Não era exatamente uma muralha, mas era suficiente para impedir invasões espontâneas. Dona Olívia não conseguia pular e Adelaide não tinha cópia da chave do cadeado. Então, pela primeira vez desde que cheguei naquela propriedade, alguém precisava pedir licença para entrar no meu espaço. Aquilo fez uma diferença enorme na minha sanidade mental. Eu podia amamentar Guilherme sem ter alguém aparecendo atrás de mim para dizer que ele estava mamando errado. Podia cozinhar sem ouvir que estava desperdiçando gás. Podia organizar minha casa sem alguém reorganizar tudo depois. Aos poucos, comecei a acreditar que as coisas realmente poderiam dar certo. Mesmo assim, ainda não trouxe Jeanzinho para morar comigo. A saudade apertava todos os dias. Toda vez que eu via um brinquedo dele guardado, uma roupa pequena ou uma foto esquecida no celular, meu coração doía. Mas dessa vez resolvi ouvir quem tinha experiência. E o conselho de Dona Zita, minha eterna sogra, foi fundamental. — Filha, eu sei que não é fácil ficar longe do seu filho. Mas o Rodrigo sempre leva ele, e quando ele não puder, um dos meus meninos leva ou até a Paloma mesmo. O que não dá, Sâmi, é pra você tirar o menino daqui tendo toda essa rede de apoio da minha família e da sua, e levar pra casa daquela mulher. Enquanto você está de licença, tudo bem, e quando você voltar a trabalhar? Não tem Adriele, nem eu e nem ninguém pra vigiar o que aquela senhora vai fazer com meu neto! Pensei muito sobre aquilo. Quanto mais pensava, mais percebia que Dona Zita tinha razão. Se comigo, uma mulher adulta, Dona Olívia entrava no quarto escondida para me afrontar, o que impediria que ela fizesse coisas parecidas com Jeanzinho? Na quebrada, meu filho tinha uma aldeia inteira protegendo ele. Rodrigo. Adrielle. Minha mãe. Dona Zita. Meus cunhados. Minhas cunhadas. Os amigos dos meus irmãos. Sempre tinha alguém olhando. Aqui não. Aqui ele estaria sozinho. Então permaneci firme na decisão. Mas, para minha surpresa, Dona Olívia parecia mais controlada depois que Guilherme nasceu. Talvez a chegada do neto tivesse amolecido um pouco seu coração. Ou talvez ela realmente estivesse tomando o Gardenal que eu brincava que ela precisava. Nunca soube. Quando voltei ao trabalho, ficou mais difícil visitar Jeanzinho com frequência. Mesmo assim, conforme prometido, Rodrigo ou algum dos meus cunhados sempre trazia ele para passar o dia comigo. E aquilo era suficiente para manter meu coração funcionando. Os meses começaram a entrar nos trilhos. Tudo parecia caminhar para finalmente ficar bem. Minha transferência para a escolta estava praticamente confirmada. Dentro de dois meses eu voltaria para minha função antiga. O rapaz que estava ocupando meu lugar sairia de férias e eu reassumiria minha posição ao lado de Felipe. Eu sentia falta da escolta. Das estradas. Da adrenalina. Do rádio chiando. Do uniforme. Da sensação de competência. Enquanto isso, Felipe passou a puxar vários plantões extras como folguista. Quatro. Cinco. Às vezes mais. As parcelas dos móveis ainda estavam pesadas e a vida de pobre não permite muito descanso. Toda vez que ele não voltava para casa, Dona Olívia aparecia na cerca. Parecia um relógio. — Isso é culpa sua! No começo eu discutia. Depois eu rebatia. Mais tarde eu ignorava. Agora eu simplesmente ria. Mulher maluca. Felipe tinha quase trinta anos. Dois filhos para criar. Uma casa financiada. Conta de luz. Conta de água. Mercado. Remédio. Qual pai de família conseguia viver apenas com um salário? A realidade do pobre brasileiro era essa. Bico. Hora extra. Plantão. Virar noite. Fazer o que fosse necessário. Mas Dona Olívia parecia acreditar que o filho dela era uma espécie de príncipe encantado que não deveria sacrificar nem uma noite de sono. Naquela noite, porém, eu não estava pensando nela. Guilherme tinha acabado de tomar banho. Estava cheirosinho. Aquela mistura perfeita de bebê limpo com sabonete infantil. Troquei sua fralda. Beijei sua barriga. Fiz cócegas. Ele gargalhou daquele jeito gostoso que só bebês conseguem. Foi então que meu telefone tocou. Peguei o aparelho distraidamente. Mas quando vi o nome na tela, meu coração disparou. FD. Por um segundo inteiro fiquei olhando para o visor. Anos podiam passar. Outros homens podiam entrar na minha vida. Mas bastava aquele nome aparecer para alguma coisa mexer dentro de mim. Atendi. — Sereia, preciso que você venha pra casa imediatamente. E me diga o que fazer. Meu estômago afundou. A voz dele estava estranha. Tensa. Controlada. — O que aconteceu? — Dri acabou de ser vista entrando em um dos abatedouros! Fechei os olhos. Meu Deus. Não. De novo não. — Não posso sair correndo daqui toda vez que Adrielle coçar a periquita, Alexis. — Pelo menos uns 15 caras... Meu sangue gelou. — Putä que pariu, Alexis. Invade. — Não posso, Sereia. Não estava sendo forçada nem ameaçada! Já pulei da cama. — Ela está bêbada ou drogada? Enquanto falava, segurava o telefone entre o ombro e a orelha. Vestia uma calça jeans. Procurava uma blusa. Nem pensei em sutiã. — Drogada, garanto que não. Você sabe que eu cuido deles. Não deixo comprar nem usar por aqui e a ordem é que quem deixar ela consumir, vai subir. Mas ela foi vista bebendo, o que leva a crer que embebedaram ela pra arrastar. — Então é estuproo do mesmo jeito, caramba! Faz alguma coisa! — Só quem pode invadir é você ou sua mãe, Sereia. Quer que eu chamo? — Claro que não, veja o que você faz. Eu tô indo! Desliguei. Meu coração parecia querer sair pela boca. Peguei a chave da moto. Peguei Guilherme. Peguei a bolsa dele. Entreguei tudo para Dona Olívia sem dar explicações. Nem lembro o que falei. Só lembro de sair. Pilotar. Voar. Atravessar ruas. Ignorar semáforos. Ignorar o bom senso. Ignorar o medo. Mais tarde percebi que tinha feito o trajeto em aproximadamente dez minutos. Uma loucura. Se eu tivesse sofrido um acidente, até o retrato da família em casa teria balançado. Quando cheguei, descobri que Alexis já tinha feito tudo o que podia. Usou influência. Usou medo. Usou reputação. Convenceu boa parte dos envolvidos de que aquilo acabaria muito m*l. Que eu estava chegando. Que aquilo poderia ser interpretado como estupro. Que polícia significava problema. Que problema significava prejuízo. E na quebrada ninguém gosta de prejuízo. A verdade era simples. Eu e ele sabíamos. Pela lógica da comunidade, se uma Maria Fuzil queria dar, o problema era dela. Mas também sabíamos que se aquilo terminasse em escândalo, todo mundo perderia. Inclusive eles. Quando cheguei, a situação já estava parcialmente controlada. Dos quinze, restavam três. Alexis nem aparecia por perto. Claro que não. Se alguém o visse se envolvendo diretamente, levantaria perguntas demais. Mas ele tinha mandado ajuda. Tinha colocado um carro à disposição. Tinha organizado tudo sem aparecer. Do jeito dele. Entrei. Cobri minha irmã. Empurrei um colega nosso que me deu nojo ver participando daquilo. Puxei Adrielle. Tirei ela dali. Antes de entrar no carro, ela começou a vomitar. Muito. Violentamente. Eu a segurei. Limpei. Afastei seus cabelos. Protegi sua dignidade da forma que consegui. Depois a coloquei dentro do carro. E então veio a pergunta. O que fazer agora? Para onde levar uma menina de dezesseis anos. Nua. Embriagada. Vomitada. Destruída. Foi quando o vapor abriu a porta do carro. — Segue! Obedeci. Enquanto pilotava atrás dele, reconheci o rapaz. Primo de Alexis. E só então percebi uma coisa. Alexis estava cada vez mais distante da parte da comunidade onde eu sempre o conheci. O carro foi seguindo. Subindo. Entrando em ruas melhores. Mais largas. Mais silenciosas. Casas maiores. Muros altos. Portões bonitos. Nenhuma música estourando. Nenhum grupo na esquina. Nenhuma movimentação estranha. Aquilo não parecia mais a mesma quebrada. E então me lembrei de uma aula do curso. Lembrei do meu instrutor explicando a dinâmica das comunidades. E a frase dele veio inteira à minha cabeça. Se estivéssemos no Rio de Janeiro, acabamos de chegar no asfalto.
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