Capítulo 1: Regras

1821 Words
O desejo consumia seu corpo a cada passo que ela dava. Os olhos verdes fixaram-se em Victoria como um leão faminto, pronto para atacar sua presa. No entanto, ele sabia das regras. As malditas regras. E segui-las era a única coisa que o separava de um animal. O salto preto foi a primeira parte a sair do carro. Jack Mordred olhou para as pernas de Victoria, enquanto ela se movimentava pra fora do veículo. Seu vestido era rosa, com um tecido leve, mas cheio de pedrinhas brilhantes e alças finas, que ajudavam a exibir suas costas nuas. As leves ondas em seus cabelos castanho escuro ornavam perfeitamente com o caimento de seu vestido, que deixava um pequeno decote a mostra. Não era a primeira vez que se encontravam, mas nenhuma experiência se igualava a outra. Por um instante, o mafioso não soube sequer para onde olhar. Se admirava sua elegância em cada passo, seu sorriso estonteante e perfeito, ou seu corpo escultural. — Senhor Mordred, é a terceira vez este mês. Estou achando que gostou mesmo da minha companhia. Ela segurou o braço de Jack, esbanjando um sorriso de dar inveja e despertar no mais pacato homem uma predileção inconcebível. Ele sorriu, complacente. Apesar de todo o desejo que emanava por seu corpo, era um homem que mantinha um autocontrole invejável. — Na verdade, eu gostei sim. E a quero mais vezes. Não irei esconder isso. Victoria apenas manteve o sorriso nos lábios, caminhando vagarosamente ao seu lado. Ela observava tudo e todos. Cada passo que dava, era calculado. Principalmente, quando estava em um salão de festas cheio dos mais perigosos homens. Eles circulavam cumprimentando os mais diversos convidados. Políticos, advogados, empresários, médicos, CEOs. Os homens mais bem afeiçoados da cidade costumavam reunir-se em festas como aquelas. Especialmente se fossem financiados ou beneficiados de alguma forma por aqueles que organizavam. Era inegável que os olhares quase sempre se voltavam a Jack Mordred, subchefe da Máfia, o segundo no comando, e suas acompanhantes. Porém, ele reparou que todos que olhavam, homens, mulheres, ficavam muito mais fixados e inebriados com a dama em seus braços. Alguns poderiam se incomodar por não estar recebendo tanta atenção quanto deveria, mas ele adorava. Em especial, porque uma mulher como Victoria elevava ainda mais seu ego. Após o fim da festa, ele a deixou na limusine, como acordado em contrato. — Tem certeza que não deseja que eu a leve em casa? Ele abriu a porta do carro, mas ficou com a mão ali, como em uma tentativa desesperada pra que ela não entrasse. Os olhos serenos e suplicantes, a voz calma e mansa. — Gosto do senhor... — Por favor, me chame de Jack. Pediu, segurando sua mão. Victoria encarou aquele gesto como uma última tentativa em seu pedido. Ela deixou um sorriso de canto surgir, apenas para amenizar suas palavras. — Gosto de você, Jack, é uma companhia agradável, principalmente aos olhos. Mas sabe as regras. — Você nunca quebra as regras? Nem uma vez? — Sem as regras, somos como animais irracionais. Então não, nem uma única vez. Tenha uma boa noite. Ela puxou sua mão devagar e entrou no carro, esperando que ele fosse o cavalheiro que sempre mostrara ser, e fechasse a porta para que pudesse ir embora dali. Jack soltou um suspiro e, a contragosto, deixou que o carro partisse. Ele observou o veículo se afastar com as mãos nos bolsos da calça. Mas seu olhar, que antes era sereno e suplicante, se transformou em irritação e um desejo desenfreado. Retornou para casa, que ficava na mesma propriedade do salão de festas. Subiu direto para seu escritório e fez uma ligação. Do outro lado da linha, um homem cujo nem mesmo Jack gostava de irritar, atendeu a chamada com rispidez. — Isso são horas, Jack? — Eu a quero Thomas. Sua voz clamava o que seu corpo implorava. E ele a queria. De qualquer forma. — Do que está falando? Ela não apareceu na festa? — A quero na minha cama. Que diabos de regras são essas que só vale pra ela? Um silêncio perdurou por alguns segundos, antes de ouvir um suspiro alto do outro lado da linha. — Não lhe devo satisfações. Você aceitou que ela fosse ciente das condições. Jack deu um soco na mesa. Não espantou ou deixou Thomas assustado. Ele até esperava algo do tipo. O conhecia suficientemente para saber que o Mafioso não lidava muito bem com respostas negativas. — Me diga, o que ela tem sobre você? Que poder é esse? Você comanda a p***a de uma agência de acompanhantes de luxo, onde sexo faz parte da propaganda, mas aí tem uma acompanhante que não aceita ir pra cama? Thomas saiu do quarto, para não acordar sua adorável esposa, e respirou fundo novamente. Era a terceira vez em menos de dois minutos de ligação. Sua paciência já tinha ido ao limite quando abriu os olhos e precisou atender ao telefonema. — Escute aqui, garoto, eu sou um homem de palavra. Não lhe interessa meu acordo com a Guinevere, nem o motivo dele existir. A única coisa que precisa saber, é que aquela garota é intocável, você entendeu? É assim há anos e não vou mudar apenas porque quer t*****r. Arranje outra. Mulher é o que não falta. Jack se recostou na cadeira, olhando para o copo com uísque, pensando em cada um dos atributos de Victoria que despertavam todas as células do seu corpo. — Nenhuma é igual a ela. — b****a é tudo igual. E não me perturbe mais com isso. Boa noite, Jack. Ele desligou, sem direito a resposta. Jack se levantou e arremessou o celular na parede, o partindo. Sua vontade era de quebrar nas próprias mãos, mas precisaria delas no dia seguinte. Um dos seus capo bateu na porta e a abriu. Após a confirmação de que poderia, ele entrou e olhou para o chefe e para o aparelho caído ao lado da porta. — Está tudo bem, senhor? — Sim, tudo certo. — Precisa de alguma coisa? — Ah, sim, mas você não pode me dar. Ele levantou e foi até a mesa no canto, servindo outra dose de uísque. Sua mente vagava em ideias. Precisava ter aquela mulher de alguma forma. Possuir seu corpo era o único jeito de aplacar todo aquele desejo reprimido. Mas não podia ir contra as regras de Thomas Hayes, ou criaria um problema maior do que ele. Mas ele iria encontrar uma solução. Não importava o tempo que levasse, ele a teria. E pagaria o preço que fosse necessário. Victoria se desarmou por completo ao entrar em seu quarto. Roupas, sapato, acessórios. Era seu momento preferido da noite. Poder ficar à vontade, sem forçar sorrisos, sem precisar usar toda sua educação com pessoas que jamais a valorizariam se ela não tivesse usando toda essa capa de beleza. Para aqueles homens, ela era como eles, mas somente por parecer ser assim, por se portar daquela forma. Jamais aceitariam a verdadeira Victoria. Ela tomou um longo banho, depois se enrolou em sua toalha e bebericou uma taça de vinho, enquanto procurava algo de interessante na TV. Estava quase adormecendo, quando despertou com a campainha. Vestiu um roupão e desceu para atender. Ao abrir a porta, um par de olhos azuis claro e travesso lhe encarou, acompanhado de um sorriso mordaz. — Atrapalho? — O que faz aqui a essa hora, Lance? — Só queria saber se topa uma aventura. Ela cruzou os braços, o encarando. Não era a primeira vez que fazia aquele tipo de proposta, por isso não estava surpresa. Da última vez, foram parar em uma cachoeira muito distante da agitação Londrina. — De que tipo? — Se troca, eu te espero aqui. — Não vai me dizer pra onde pretende me sequestrar? Ele balançou a cabeça, sorrindo. — Qual a graça de revelar onde será seu cativeiro? — Eu espero não me arrepender. — Não irá, eu prometo. Victoria subiu e trocou de roupa. Colocou algo pesado, pois a noite em Londres costumava ser fria. Ela entrou no carro e apenas aproveitou a paisagem. Lancelot era um dos únicos homens em quem confiava sua vida. Eram jovens quando se conheceram, se afastaram por longos anos e, um belo dia, ele retornou à sua vida como se nunca tivesse saído. O mesmo sujeito cheio de energia, senso de humor e desejo de justiça. Estava mais velho, com barba, os fios loiros de seu cabelo mais longos, porém ainda tinha muito do adolescente que conheceu e por quem um dia fora apaixonada. Mas qualquer sentimento se perdeu há muitos anos. E para ela, não existia mais onde procurar. Nem mesmo queria. Quase uma hora depois, eles chegaram em uma praia deserta. Assim que desceram do carro, Victoria avistou a fumaça. — O que é isso? Ele sorriu e atravessou o carro, estendendo a mão pra ela. Balançando a cabeça em negação, sem conseguir esboçar nenhuma outra reação além de estampar em seu rosto o quanto achava aquilo uma loucura, ela o acompanhou. — Eu soube que encontrou o mafioso de novo. — Como? Ah, esqueci... — Não foi meu pai que disse. Mas não importa. Fiquei preocupado e pensei que poderia querer relaxar. Aquele pessoal é macabro. Além da fogueira, tinha um lençol estendido com um cesto de frutas, vinho, guloseimas e outras besteiras que Victoria adorava. — Você preparou tudo isso pra mim? — Claro, você é minha melhor amiga. E se preocupa com todos a sua volta e esquece de se preocupar consigo. Então essa é minha função. Victoria perdeu a compostura, deixando um sorriso transbordar em seu rosto. Ela segurou o rosto de Lancelot e deu um beijo em sua bochecha, rápido e molhado, o suficiente pra que ele paralisasse por alguns instantes. Na euforia, sequer reparou em mais nada. Apenas sentou em frente a fogueira, fechou os olhos para ouvir o som do mar e estendeu as mãos para se aquecer. Lancelot sentou ao seu lado, devagar, sem parar de encará-la. Então pegou o cobertor que tinha levado e a cobriu. Mesmo que aquela região não fosse tão fria quanto a capital, jamais permitiria que ela passasse por qualquer desconforto. Ela agradeceu o gesto, se aconchegando. Ele continuou olhando pra ela, como se seu mundo tivesse virado de cabeça pra baixo com aquele toque tão íntimo e inocente ao mesmo tempo. Fazia pouco mais de um ano que ela tinha voltado pra sua vida. Durante um tempo, ele cogitou algo a mais, porém Victoria sempre dedicou seu tempo a sua mãe e irmãs, além do trabalho, que parecia não ser capaz de ter espaço pra mais nada em sua vida. Além do mais, não achava que estava a altura dela. Então manteve sua vida boêmia e com rompantes de aventuras sem qualquer perspectiva. Mas aquele gesto, tão simplório e caloroso, parecia ter virado uma chave na cabeça de Lancelot Hayes.
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