Paramos diante te uma casa velha de madeira com um quarto dela suspensa numa ribanceira que mais parecia um precipício. A ribanceira terminava num canal que estava se tranformando num rio lamacento.
— Chegamos — avisa Cristiano.
— Que casa é essa, meu filho? — remunga Lucas. — Quem faz um casa perto de uma ribanceira?
— Não tava assim antes da última enxurrada — explica Cristiano.
Não temos outro lugar para onde ir, tem que ser ali mesmo. Entramos e a casa parece firme no chão, mas como a madeira é velha, se pularmos todos ao mesmo tempo vai arrombar o piso. Ela está pouco mobiliada com móveis velhos e mofados, uma decoração rústica. Julgaria elegante se não estivesse parecendo que tem 100 anos.
O vento a faz ranger e temos a sensação de que também o vento a faz balançar um pouco.
— Tem certeza que aqui é seguro? — pergunta Estêvão.
— Somente eu e mais dois amigos meus vínhamos para cá. Sempre dormíamos aqui até mesmo em dias de tempestade e nunca nos sentimos ameaçados.
— Por que vinham para cá? — pergunta Lucas com ar de riso no rosto.
— Não é nada disso que você está pensando... Pelo menos, eu não. O prefeito mandava a gente sair para explorar o ambiente, procurar planas medicinais, etc. Os únicos que conheciam sobre plantas.
— E os amareles? — pergunto.
— É difícil encontrar amareles nas florestas, sempre estão nas cidades.
— Ah! É verdade.
— E como você aprendeu sobre plantas? — questiona Lila.
— Com a minha mãe.
— Onde estão os seus amigos? — pergunta Estêvão.
— Morreram... Chega de perguntas.
Estamos com muito frio.
Não podemos trocar as roupas molhadas, é tudo o que temos. Cristiano sugere que retiremos as roupas e durmamos abraçados para compartilharmos o calor corporal, mas Lucas n**a por todos nós, fora dizer que sentiria ereção só de pensar em ficar nu e ver o Estêvão o deixa com t***o.
Ainda bem que cancelam a ideia, mas o frio nos perturba. E Lila é a mais afetada por não estar acostumada com isso. Ela se deita por cima do Cristiano e ele me chama para eu me deitar por cima dela. Compartilhariamos calor para mantê-la aquecida.
Uma lanterna está acesa na sala para não ficarmos totalmente no escuro. A gente dorme por volta das 21:00 horas da noite e todos acordamos juntos por causa de um trovão muito forte.
***
São 3:00 horas da madrugada. A chuva não para e sentimos a casa levemente inclinada para o lado da ribanceira. Concordamos em evitarmos o lado esquerdo.
Como estamos acordados, decidimos conversar.
— A esta hora já devem ter descobrido tudo — comenta Cristiano. — Vão dizer ao prefeito que encontraram um buraco no muro, depois vão procurar por vocês, depois por mim, o vigia que me viu vai contar, vão ligar os pontos e por último, o prefeito vai atrás da Lila, não vai ter a chave e vai querer m***r todo mundo.
— Se ele for obcecado por ela, ele vai querer vir atrás dela — diz Adam.
— Ele trancou ela num apartamento cheio de livros por 6 anos — complemento. — Fora ter abusado dela todo este tempo. Com certeza ele é um doente obcecado. Além de tudo, ela é a única mulher que existe em toda a redondeza, sabe lá Deus até onde.
— Por que, meu Deus? — Lila fica inconformada com aquilo.
— Lila — Lucas faz questão de explicar —, a raça humana está em extinção, é difícil ver uma mulher humana atualmente e você tem uma mina de ouro debaixo das pernas. Entende isso?
— Entendo que as mulheres engravidam com o s**o — diz Lila. — Mas eu nunca engravidei do Sinésio. Por quê? Será que eu tenho algum problema?
— Quem é Sinésio? — indaga Lucas.
— O nome do Prefeito Lemos — respondo.
— Você não tem problema algum, meu amor — diz Cristiano para Lila. — O prefeito fez vasectomia. Isso é uma operação que o homem faz nas bolas para quando f********o, não derramar aquilo que faz as mulheres engravidarem. Ele me contou que fez, mas ainda tinha esperança de um milagre acontecer.
— Entendi — afirma Lila.
— Lila, você é uma jovem muito linda — continua Lucas, — eu já estou obcecado por você, que dirás aquele triste asqueroso?
— Como assim? — pergunta Estêvão aos risos.
— Não fica com ciúmes, amor, eu não gosto da rachada, descobri isso aos 11 anos — Lucas beija o Estêvão, em seguida estapeia o seu rosto por brincadeira. — Mas você pode gostar, então fique longe dela.
— É brincadeira dele — tranquiliza Adam o Cristiano. — Agora, se outros homens descobrirem sobre ela, podem ficar obcecados também.
— Eu posso mudar alguma coisa, gente? — pergunta Lila.
— Não precisa, meu amor — Cristiano a beija no rosto. — Eu vou te proteger.
— Mas eu quero, meu amor — ela retribui o beijo. — Não quero atrapalhar as coisas por causa da minha aparência.
— Gente — diz Lucas com os olhos lacrimejando ao juntar as mãos e inclinar o rosto sobre elas —, eles não são tão fofos?
— Alguém sabe trançar cabelos? — pergunta Cristiano, mas todos negam.
De repente, o som de uma explosão nos pega de surpresa e olhamos uns para os outros desconfiados. Imediatamente, Adam apaga a lanterna. Ficamos em silêncio, e a chuva não cessa de cair.
— Deve ter sido o trovão... — sugestiona Lila, mas é interrompida por outra explosão e desta vez, mas próxima.
Depois ouvimos um som muito estrondante e familiar passar por cima da casa. Como estou no ponto exato, olho para o lado e vejo pela janela do quarto sem porta, no lado esquerdo da casa, um helicóptero girando e caindo, a sua cauda pega fogo e por isso, o aeromóvel não se mantém no ar.
Por ímpeto, eu me levanto e corro até à janela para ver o cena.
— Calebe, não — grita Adam.
Nossa! Ele me chama de Calebe.
Eu esqueço completamente. Todos se levantam, mas ninguém tem a coragem de entrar no quarto com apenas uma antiga cama de solteiro. De súbito, ouço um creck na madeira velha, depois o chão e o teto se racham a dividir a área onde estou do resto da casa.
Aquela parte da casa cai na ribanceira comigo dentro e é levada pela enxurrada no canal que agora se transformou num rio. Eu fico coberto de lama e água da chuva.
Tudo o que me lembro de ouvir por último são os gritos de desespero da minha família. Quando eu penso que as minhas aventuras tinham terminado... Só começam.