WINDBER, WESTERN USA • 26 DE SETEMBRO DE 2008
Ann-Marie se arrumava para ir a uma festa da faculdade que havia sido convidada, cujo endereço era a uns quinze minutos do seu dormitório. Olhou-se no espelho e gostou do resultado. Ela vestia uma calça jeans escura e uma blusa branca, nos pés usava tênis preto. Borrifou perfume, pegou seu celular, seu dinheiro e saiu dali.
Olivia estava trabalhando, não que fosse fazer tamanha diferença; ela e Alexander estavam sempre juntos. Ann-Marie achava bonita a relação que os dois tinham criado, a qual era completamente oposta da sua com Christoffer, visto que brigavam mais que tudo. O trabalho que estavam fazendo ainda não tinha nada escrito, pois não conseguiam entrar em um consenso.
Ao se aproximar do local da festa, já percebia o movimento, alguns carros estacionados e a música alta, abafada. Assim que entrou no ambiente, procurou em volta por algum olhar familiar. Ann-Marie respirou fundo, frustrada por não conhecer ninguém. O lugar estava cheio. Haviam casais beijando-se pelos cantos, pessoas bêbadas, algumas rodas de jogos e outros fumando maconha. A recém-chegada avistou um minibar ao fundo, mas assim que começou a andar, uma voz baixa e rouca chamou sua atenção.
— Ann-Marie? — Seu corpo inteiro arrepiou ao escutar o seu nome. A morena virou-se, encontrando Christoffer parado atrás dela.
— Ah, é você — fingiu surpresa, não se deixando afetar pelo que sentiu ao ouvi-lo. O rapaz sorriu ladino ao sentir o nervosismo da garota.
— Onde está Olivia? — perguntou, já sabendo a resposta. Na verdade, a pergunta era apenas um pretexto.
— Adivinha… — disse com ironia, enquanto rolava os olhos.
— Achei que ela viria com você… — ele comentou, vagamente.
— Ela está trabalhando e me disse que não precisava esperá-la chegar — murmurou, rolando os olhos.
Ann-Marie não poderia deixar de sentir um pouco de felicidade por Christoffer estar ali. Ela havia sido convidada por uma garota da turma que não tinha tanta i********e, pelo menos ele era um alívio. Por sua vez, o vampiro sorriu ao perceber um pouco de felicidade emanar dela.
— Está rindo do quê? — a morena perguntou confusa, cruzando os braços.
— De nada. — Antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma garota com cabelos cor-de-rosa chegou próximo a eles.
— Ann-Marie! Você veio! — A garota sorriu, abraçando-a.
Ela olhou ao redor e notou Christoffer se distanciando, pegando uma bebida e se perdendo no tumulto.
— Vem, vamos tomar alguma coisa! — A garota, cujo nome a morena não lembrava, saiu puxando-a até o minibar. — Ei, Marcus! Deixa esse vaso aí! — A menina soltou-lhe a mão e foi até um garoto que corria com um enorme vaso de planta pela sala.
— Quer? — Uma voz masculina se materializou ao lado de Ann-Marie, assustando-a. — Desculpe, mas você estava muito distante.
Era um garoto alto, de pele pálida e um cabelo arrumado em um topete bem discreto, o tipo que fazia toda garota se derreter apenas com sorriso. Ann-Marie encarou os profundos olhos escuros, sentindo um arrepio percorrer o seu corpo, porém de um jeito que não era bom. De alguma forma, era como se ele exalasse problemas. A morena sentiu um frio na espinha, como se já tivesse o visto em algum lugar, mas tendo certeza que não o conhecia.
— Obrigada, eu não quero. — Ela buscava uma maneira de sair de perto dele. Algo em seu inconsciente dizia que deveria se afastar.
— Você é Marie… — incentivou-a a falar.
— Ann-Marie. E você é? — Arqueou a sobrancelha.
— Me chamo Amaymon — respondeu, com um sorriso que a fez estremecer. — Meus amigos me chamam de Mitch. Se divertindo?
— Acabei de chegar, até agora nem tanto. — Ann-Marie sentia que precisava sair dali.
— Então vamos dançar! — disse, puxando-a pelo pulso.
— Eu não… — A morena estava nervosa, sem nem saber o motivo.
— Ei, Ann! Ah, vejo que já conheceu o Mitchell! — A garota dos cabelos rosados voltou até eles.
— Sophie! Voltou antes do previsto — Mitch murmurou.
— Pega, Ann! Você vai gostar! — Sophie entregou um copo com um líquido azul para a garota, que virou tudo rapidamente, sentindo sua garganta queimar. — É disso que estou falando! — completou, animada. — Vem!
Sophie estava tão enérgica, que logo contagiou Ann-Marie. A música eletrônica só ajudava, a morena dançava conforme as batidas e a outra garota a acompanhava. Ann-Marie pegou outro copo e bebeu rapidamente, sentindo sua garganta arder. De longe, Christoffer apenas observava a cena, enquanto tomava mais um gole da sua bebida. Estava de olho em Ann-Marie e Mitchell, pois conseguira sentir a maneira desconfortável que ela tinha ficado quando ele a abordou. Por sua vez, a morena já sentia o efeito do álcool no organismo, pois estava um pouco tonta.
— Você está bem? — Mitchell segurou em sua cintura.
— Estou ótima. — Ann-Marie forçou um sorriso, mas não o suficiente para que ele acreditasse. Disfarçadamente, ela tirou a mão alheia de suas curvas, porém o garoto colocou-a novamente.
— Ei, Mitch! — A voz de Christoffer soou com desdém, porém fez com que ela respirasse aliviada. — Pode deixar que eu ajudo.
Ele, então, guiou-a até uma parte da sala, distante das pessoas.
— Sério, não precisa — Ann-Marie começou a falar, quando ele a interrompeu.
— Por que bebe desse jeito? Olhe o seu estado! — disse, irritado.
— Quem você pensa que é para falar comigo desse jeito? — a morena esbravejou.
— Poderia ter acontecido algo com você. Nem conhece aquele homem e claramente não se sente bem perto dele — ele rebateu irritado e passou a mão pelo cabelo, fazendo com que ela o olhasse com surpresa.
— Como sabe disso? — perguntou, confusa.
— Sei o quê? — indagou, respirando fundo.
— Que não me sinto bem perto dele… — respondeu, pensativa.
— A sua feição estava gritando por isso. — Christoffer rolou os olhos. — Vou buscar um copo de água.
— Certo. — Ann-Marie seguiu-o com o olhar até o minibar.
— Está melhor, Ann? — Mitchell apareceu ao seu lado.
— Estou sim, já falei que estou bem. Mas, você me conhece de onde?
— Fazemos aula juntos — disse, com um tom misterioso na voz.
— De quê? Nunca te vi por lá... — o garoto olhou surpreso para ela.
— Me pegou. — Riu, fazendo-a engolir seco. Algo em seu rosto traziam lembranças, mas ela não sabia quais, porque não via com clareza. — Já te vi pelo campus, porém nunca consegui me aproximar.
— Por quê? — perguntou, intrigada.
— Você está sempre com um cachorrinho atrás — disse, com desdém. De longe, Christoffer observava e escutava a conversa dos dois, curioso com o que o rapaz dissera.
— Como assim? — interpelou, confusa.
Antes que pudesse responder, Sophie gritou por Mitchell. Ele simplesmente saiu, deixando-a sozinha novamente. Ann-Marie encostou na parede e apoiou seu pé nela. Naquele ponto, a música já estava incomodando sua cabeça. “Sou tão fraca para bebida”, ela pensou. Sua vontade era voltar para o dormitório e descansar. Foi quando a música parou e Amaymon subiu sobre a mesa.
— Queridos amigos, vamos começar... — ele disse em voz alta e os outros gritaram em saudação. — Nossa primeira rodada de verdade ou desafio desta noite. — Mais e mais gritos.
— Em todas as festas jogamos, dá uma animação a mais na noite — Sophie disse com um sorriso satisfeito no rosto, parando ao lado de Ann-Marie.
— Hm, acho que não vou participar — anunciou a morena, com dúvida.
— Quando se entra na festa, você automaticamente está concordando participar — Mitchell disse, com um sorriso perverso.
As pessoas se ajeitaram, formando uma espécie de círculo. As perguntas, sem girar garrafas, eram diretas mesmo. Alguém falava um nome e o escolhido optava entre verdade ou desafio.
— Eu começo — Uma garota loira que usava óculos se pronunciou. — Robert! — Todos gritaram, mas Ann-Marie não fazia ideia de quem era. Apenas percebeu quando um rapaz, em sua direção oposta, escondeu o rosto nas mãos. — Verdade ou desafio?
— Verdade. — Todos vaiaram. — Ah, qual é! — resmungou.
— Ok, é verdade que você ficou com aquele cara estranho, o que comia cebola, no verão retrasado? — Todos olharam rapidamente para Robert.
— Bem, acho que aquilo não foi bem ficar, foi só um selinho. — E as pessoas foram à loucura, enquanto uns falavam m*l e tiravam sarro da cara dele. — Tudo bem, minha vez...
E assim foi seguindo, nesse jogo que era possível descobrir várias coisas das pessoas. Ann-Marie não prestava tanta atenção, até falarem o nome de Sophie, a única garota que ela conhecia naquele momento.
— Sophie — Um garoto com cabelos black power começou. — Verdade ou desafio?
— Desafio — ela respondeu, determinada.
— Boa... Então, lhe desafio a... dar um beijo na Sam. — As pessoas gritaram, eufóricas.
Sophie levantou-se, caminhou até uma jovem loira e as duas trocaram beijos, ali na frente de todos.
— Minha vez — falou ao voltar para seu lugar, limpando a boca. — Ann-Marie! Verdade ou desafio? — perguntou com firmeza, enquanto todos começavam um alvoroço.
O coração de Ann-Marie disparou. Ela não queria brincar de nada, apenas se divertir em uma festa.
— Ann? Verdade ou desafio? — Vários olhares se voltaram para a morena.
— De-desafio — respondeu, fechando os olhos ao perceber a besteira que havia dito.
— Gostei — Sophie disse sorrindo, despertando a euforia das pessoas. — Então... Esse gato do seu lado… Desafio você simular uma preliminar com ele, aqui no meio. — Todos começaram a bater no chão, formando um coro.
— Mas... — Ann-Marie olhou para o lado e notou um garoto que nunca havia visto.
— Não tem “mas”. Vamos! — Sophie deu-lhe uma piscadela.
— Eu me ofereço para esse desafio. — A voz de Mitchell ecoou pelo ambiente, fazendo a respiração da morena descompassar.
Ela não fazia ideia da enrascada que havia entrado quando veio naquela festa. O sorriso de Amaymon causava-lhe arrepios e ela ainda não entendia o motivo. Nunca sequer tinha o visto pelo campus, mas algo lhe dizia que era melhor se afastar.
Ann-Marie olhou constrangida para o rapaz, que nessa altura já estava sentado em uma cadeira no centro do local. Sua respiração encontrava-se ofegante e ela sentia a necessidade de sair dali o mais rápido possível. Ao olhar ao redor, ela viu Christoffer encarando-a. Sem nenhuma vontade, levantou do seu lugar e caminhou lentamente para onde Mitchell estava. O garoto mantinha um sorriso perverso em seu rosto, que só aumentava a cada passo que dava. Ao se aproximar, ele a puxou pela cintura, aproximando mais rapidamente seu corpo do dela. Contudo, um enfeite de iluminação com formato de estrelas despencou em cima de sua cabeça. Ann-Marie caiu para um lado e Amaymon para o outro, gemendo ao cobrir a testa com a mão, logo atraindo uma certa plateia ao seu redor. Por sua vez, Ann-Marie levantou-se com dificuldade, notando estar trêmula e com o coração agitado. Um par de mãos a apoiou e ela, logo ao toque, percebeu uma corrente elétrica a percorrer-lhe o corpo.
— Obrigada — agradeceu envergonhada, encarando Christoffer.
— Vamos sair daqui — ele propôs e antes mesmo de concordar, os dois estavam já fora do local.
Um calafrio percorreu todas as entranhas da morena e só então ela percebeu que, quanto mais perto de Christoffer, mais agradável se sentia, sensação esta que era completamente diferente da qual fora causada por Mitchell.
Por outro lado, o vampiro também estava nervoso, pois nunca havia se aproximado tanto da garota como naquele momento. De perto, ela parecia ainda mais com sua amada Marie-Jeanne. Parando em frente a um carro, ele abriu a porta deste. Para Ann-Marie, ele parecia sério e sereno ao mesmo tempo, com um olhar preocupado e triste.
Os dois sabiam de suas discussões e que não conseguiam entrar em um acordo, mas o rapaz jamais deixaria que algo acontecesse a ela, isso tinha certeza. Já Ann-Marie estava confusa, pois para ela, o garoto não a suportava. Quando a morena se deu conta, ele estava estacionando em frente ao local onde ficava seu dormitório.
— Você está bem? — Christoffer a encarou, com um olhar profundo e preocupado.
— Sim, muito obrigada — respondeu com toda sinceridade.
Ele desceu do carro e abriu a porta para ela. A morena desceu e notou que talvez estivesse próxima demais dele.
— Você está machucada — falou, olhando para o braço alheio e em direção à altura do ombro direito, que parecia ter um corte superficial.
Então, pegando uma camisa que estava no painel do carro, Christoffer limpou superficialmente o ferimento, chegando mais perto dela. Ann-Marie notou que algo na feição dele dizia que era difícil fazer aquilo, mas por quê? A garota se questionou, confusa.
Christoffer tocou levemente as pontas dos cabelos de Ann-Marie e em seguida a ponta de seus dedos tocaram seu rosto. A garota levou seu olhar até o dele, que estava concentrado em seu rosto. Ele encarou-a e finalmente seus olhares se cruzaram. Borboletas no estômago, correntes elétricas, frio na barriga, tudo isso causado apenas por um olhar e toda aquela aproximação. Christoffer fechou seus olhos, respirou fundo e rapidamente desviou seu rosto para o outro lado.
— Parece que você está melhor — disse, friamente. — Está entregue.
Ele voltou para dentro do carro e deu partida, saindo dali. Seu coração estava despedaçado, pois quanto mais tempo ficava perto daquela garota, mais se lembrava da sua amada. E todas as memórias, boas e ruins, vinham à tona.
Confusa, Ann-Marie respirou fundo e correu para dentro do prédio. Assim que entrou em seu dormitório, refletiu sobre os ocorridos daquela noite. Estava incerta sobre várias coisas, principalmente em relação à Christoffer. Ela sabia que não se davam bem e que era parecida com alguém importante na vida dele, mas naquela noite havia notado um outro lado nele. Um lado gentil e preocupado, como se tivesse que defendê-la, não deixando que nada acontecesse a ela.
Depois de desviar seus pensamentos, resolveu tomar um banho para espairecer a mente, e após alguns minutos deitou-se, pensando e encarando o teto.
Pensou em Mitchell e um arrepio percorreu seu corpo, apenas por lembrar do sorriso dele. Perturbada, ela sabia que deveria manter-se longe dele, e também não entendia aquela sua fala, sobre sempre andar com um cachorro do lado. Franziu a testa, pois a única pessoa que a acompanhava pelo campus era Olivia. Em meio a diversos pensamentos, ela acabou adormecendo.