(POV Dante)
O cheiro de pólvora ainda grudava na minha pele. Não importava quantos banhos eu tomasse, aquele odor parecia fazer parte de mim. O hospital estava impregnado de sangue e medo, e eu, sentado naquela cadeira dura da recepção, observava tudo como quem assiste a um espetáculo já conhecido. Para mim, aquilo não era novidade. Invasão, tiros, correria. Mais uma noite no morro.
Mas havia algo diferente.
Aurora.
Eu repeti o nome em silêncio, como se fosse uma palavra proibida. Li no crachá dela, e desde então não saiu da minha cabeça. Não era comum alguém me encarar daquele jeito. Todos abaixavam os olhos, todos se afastavam. Mas ela não.
Ela me olhou firme, como se não soubesse quem eu era. Ou pior: como se soubesse e não se importasse.
Ruan, o Coringa, estava ao meu lado, inquieto. Kevin, o KM, falava baixo, tentando disfarçar a tensão.
— O Cabeça quase foi pro saco. — murmurou KM, olhando para o corredor.
— Se não fosse aquela menina, já era. — completou Coringa, rindo de canto, como se fosse piada.
Eu não respondi. Soltei a fumaça devagar, os olhos fixos na porta da sala vermelha.
Coragem. Eu sabia reconhecer quando alguém tinha. Mas também sabia que coragem, nesse mundo, podia ser tanto virtude quanto sentença de morte.
Quando Aurora saiu da sala, exausta, eu me levantei. Ela não vacilou. Disse apenas:
— Estável.
Seca. Firme. Sem medo.
Eu sorri de leve, quase imperceptível. Não estava acostumado a ouvir respostas assim.
— Primeiro plantão. — murmurei, lendo o crachá. — Muito corajosa.
Ela se afastou, e eu percebi que estava prendendo a respiração. Não por medo, mas por algo que eu não conseguia explicar.
De volta ao complexo, a noite ainda não tinha terminado. Sérgio, o Cabeça, estava deitado, se recuperando. Os homens se reuniam na sala, e Natalia, minha ex, apareceu para saber notícias. Eu não queria vê-la, mas ela sempre dava um jeito de se infiltrar.
— O Caveira vai tentar de novo. — disse KM, jogando uma arma sobre a mesa. — A invasão foi só o começo.
— Ele não aprende. — respondi, frio. — Quem mexe comigo não vive pra contar.
Silêncio. Todos sabiam que quando eu falava, não era ameaça. Era sentença.
Natalia me encarava, como se quisesse decifrar o que passava na minha cabeça. Mas nem ela, que já tinha dividido minha cama, sabia.
Eu pensava em Aurora.
A enfermeira que não abaixou os olhos. A mulher que, sem perceber, atravessou a linha invisível entre o meu mundo e o dela.
E eu sabia: uma vez que alguém entrava no território do Sombra, nunca saía ileso.
Na madrugada seguinte, sentei sozinho no terraço do complexo. O morro estava silencioso, mas eu sabia que a paz era apenas uma ilusão. Caveira não descansaria. Delegado Brandão também não. Todos queriam um pedaço do que era meu.
Acendi outro cigarro e deixei a fumaça subir.
Aurora.
O nome voltou à minha mente. Não era desejo, não ainda. Era curiosidade. Intriga. Uma enfermeira que escolhe trabalhar no hospital do complexo, sabendo dos riscos. Uma mulher que encara o chefe do tráfico sem abaixar a cabeça.
Eu não acreditava em coincidências.
— Tá pensando nela, né? — a voz de Coringa me tirou do transe. Ele se aproximou, sorrindo como sempre.
— Cala a boca. — respondi, sem olhar.
— Eu vi como você olhou pra ela. — insistiu. — Não é qualquer uma que chama sua atenção.
Soltei a fumaça devagar. Ele não estava errado.
— Ela não tem nada a ver com esse mundo. — falei, mais para mim do que para ele.
— Justamente por isso. — riu Coringa. — Talvez seja isso que te atrai.
Não respondi. Mas dentro de mim, a ideia já estava plantada.
No dia seguinte, Natalia apareceu de novo.
— Você tá diferente. — disse, cruzando os braços. — O que aconteceu?
— Nada que te interesse. — respondi, seco.
Ela se aproximou, tentando me provocar.
— É por causa daquela enfermeira? — perguntou Natalia, com veneno na voz. Eu já sabia: aqui no complexo, nada ficava escondido por muito tempo. Ou algum dos meus homens abriu a boca para falar demais, ou ela, em menos de um dia, já tinha conseguido farejar tudo.
Natalia era esperta. Sempre foi. Tinha uma coisa que se parecia comigo: não dividia o que considerava seu.
Eu a encarei, firme. Ela sabia que eu não era dela, nunca fui e nunca seria.
— Você fala demais. — minha voz saiu mais dura do que eu pretendia.
Ela sorriu, satisfeita, como quem acaba de cravar uma faca e sente prazer em girá-la.
— Então é isso... — disse, com ironia. — Alguma novidade conseguiu tirar o Sombra do eixo.
Não respondi. Não precisava. O silêncio, às vezes, fala mais alto do que qualquer palavra. Natalia me conhecia bem o suficiente para perceber quando eu estava incomodado. E isso, para ela, já era vitória.
Mas eu não confirmaria nada. Não daria a ela o gosto de ouvir da minha boca.
Ela se aproximou, os olhos estreitos, tentando decifrar o que se passava dentro de mim.
— Você sempre foi pedra, Dante. Frio, calculista. Mas agora... — deixou a frase suspensa, como se o vazio fosse mais perigoso do que a conclusão.
Eu travei o maxilar, soltei a fumaça devagar. Não havia nada a ser dito.
Natalia riu baixo, satisfeita com o silêncio.
— Pedra racha, cedo ou tarde. — sussurrou, antes de se afastar.
Naquela noite, reuni meus homens. KM, Coringa, Cabeça. Todos atentos.
— Caveira vai tentar de novo. — disse. — E quando vier, não vai sair daqui vivo.
Eles assentiram. Sabiam que eu não falava por falar.
Mas, no fundo, eu pensava em outra coisa.
Aurora.
Ela não sabia, mas já estava dentro do meu jogo. E eu não perdia. Nunca.
Enquanto o morro dormia, eu fiquei acordado. Pensando nela. Pensando no olhar firme, na voz seca, na coragem que não fazia sentido.
Aurora Ferraz.
Eu não sabia ainda o que faria com ela. Mas sabia que não seria capaz de ignorá-la.
No morro, o poder tem dono. E eu nunca divido o que considero meu.