O vigia

835 Words
(POV Dante) A fumaça do cigarro subia lenta, se desfazendo no ar, enquanto eu encarava o morro lá de cima. Caveira tinha se mexido de novo. Brandão estava no meu encalço. O Cabeça ainda se recuperava. Mas nada disso era o que martelava na minha cabeça desde a madrugada. Era ela. Aurora, o nome dela parecia uma sobremesa, pronta para mim poder degustar. Eu não gostava de não saber quem estava no meu caminho. Muito menos quem entrava nele sem perceber. E aquela enfermeira tinha cruzado uma linha que ela nem sabia que existia. Por isso, antes de fazer qualquer movimento, chamei Coringa. Ele apareceu rápido, sempre sorrindo daquele jeito que irritava e servia ao mesmo tempo. — Quero tudo dela — falei, sem rodeios. — Nome completo, família, onde mora, onde estudou, com quem anda… tudo. Coringa arqueou a sobrancelha. — A enfermeira? A que encarou você? - Ele arqueoou a sobrancelha, ele sabia que algo estava acontecendo ali, eu não era assim, e isso estava me incomodando pra caramba. Não respondi. Ele entendeu o silêncio. — Beleza. — assentiu. — E… quer saber também se ela é limpa, né? — Principalmente isso. — respondi, frio. — Nada de polícia, nada de envolvimento com os caras do outro lado. Se tiver alguma ligação suspeita, me avisa antes de qualquer coisa. Ele anotou mentalmente. Quando Coringa levava algo a sério, o sorriso sumia. E agora, ele não sorria. — Quando tu quer essas informações? — Hoje. — respondi. — Antes do sol nascer. Ele saiu sem questionar mais nada. Sabia que, quando eu queria respostas, não aceitava demora. No fim da tarde, Coringa voltou. — Ela é limpa. — disse, jogando o celular na mesa. — Muito limpa até. Família simples. Mãe trabalhadora. Pai falecido a três anos. Nada de polícia, nada de envolvimento com o morro. Ela não tem vínculo com ninguém daqui. Nem com os nossos, nem com os inimigos, vive só ela e a mãe. Eu peguei o celular e comecei a ver as coisas que ele tinha encontrado: endereço, fotos de documentos antigos, rede social trancada, vida pacata. Coringa continuou: — Estudou pra caramba, passou direto pra enfermagem, só fez o básico pra sobreviver. Nada fora do normal. A única coisa estranha é que ela escolheu trabalhar logo no hospital do complexo… mas isso pode ser só azar. Ou coragem demais. Limpa. Sem conexões. Sem riscos aparentes. Isso deveria ter me tranquilizado. Mas fez o contrário. Porque pessoas limpas demais, nesse mundo, sempre acabam sujas depois que cruzam meu caminho. — Serve. — falei, devolvendo o celular. — Vai querer que eu continue de olho? — perguntou. — Não. — respondi, levantando. — O resto eu vejo sozinho. A rua dela era silenciosa. Calma demais. Um contraste irritante com tudo o que eu estava acostumado. Eu sabia exatamente onde ela morava — Coringa tinha me enviado o endereço com localização, fotos e descrição da casa. Mas mesmo sem isso, eu teria descoberto. Gente como ela deixa rastro. Não por descuido, mas porque não tem motivos pra esconder nada. Estacionei o carro na esquina, de forma que ninguém pudesse ver meu rosto pelos vidros escuros. Ali, eu tinha visão completa da casa dela. Do quarto dela. A luz acendeu. Depois apagou. Depois acendeu de novo. Ela estava inquieta. E mesmo daqui eu conseguia sentir o motivo. Eu. Encostei no banco, observando. Aquela rua não combinava comigo. Eu era um animal selvagem no meio de um jardim. Mas eu precisava estar ali. Precisava entender por que ela mexia tanto comigo. Quando ela saiu de casa a primeira vez, indo em direção ao mercado, meu peito travou por um instante. Não deveria. Eu odiava quando meu corpo reagia sem a minha permissão. Os passos dela eram rápidos, mas firmes. Ela estava assustada, sim — o corpo denunciava. Mas havia algo mais forte guiando ela: orgulho. E orgulho é mais perigoso do que medo. Ela entrou no mercado. Saiu poucos minutos depois. Voltou para casa, tensa. Olhou de novo pela cortina. Dessa vez, nossos olhares se cruzaram, mesmo separados pela rua e pelo escuro. E ela não desviou. A maioria das pessoas evitaria meu olhar. Ela, não. Aproximou a cortina. Respirou fundo. Ficou parada ali por alguns segundos, como se estivesse decidindo se deveria ter medo… ou não me dar esse gostinho. Eu sorri de leve, um sorriso que ninguém jamais veria. A madrugada avançou. O morro dormiria pouco naquela noite. E eu dormiria menos ainda. Mas antes de ir embora, olhei para a casa dela mais uma vez. O vento balançava as folhas da árvore em frente, fazendo sombras dançarem pela fachada. Parecia coisa de filme — e, por um segundo, quase ri disso. Eu não pretendia entrar na vida dela. Mas o que eu queria e o que acontecia raramente eram a mesma coisa. — Até amanhã, enfermeira. — murmurei antes de ligar o carro e sumir pela rua. Eu fui embora. Mas deixei minha sombra ali. E ela saberia disso quando amanhecesse.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD