Acordei sentindo uma forte dor de cabeça, nem havia aberto os olhos ainda mas já sabia que iria piorar. E quando abri vi a minha suspeita se confirmar, a cabeça latejou. Toda a claridade do quarto veio de encontro com os meus olhos, me causando um desconforto, a cortina estava aberta. Olhei no meu criado mudo e vi um copo d'água com um comprimido, sem pensar muito peguei o comprimido e o engoli, bebendo toda água. Minha boca estava seca. Levantei com cautela e fui até o meu banheiro, me surpreendendo ao me olhar no espelho. Eu estava em um estado deplorável. Olheiras escuras, cabelo desgrenhado, cara amassada. Lavei meu rosto, escovei meus dentes e fiz um coque básico no meu cabelo. Indo em direção a cozinha, ao chegar no corredor senti um cheiro familiar, parecia panqueca. Chegando perto do balcão vi o Justin virando algumas panquecas na frigideira e jogando em um prato. Me sentei e praticamente me debrucei sobre o balcão, me sentia exausta.
- Vejo que acordou animada. – Justin disse. – Bom dia!
- Isso que é ressaca?
- Sim. – ele colocou um prato com duas panquecas na minha frente e jogou mel por cima.
Justin estava sorridente.
- Mais um motivo para eu evitar bebida pelos próximos 50 anos.
- Come! – ele empurrou o prato para mais perto de mim e se serviu, se sentando ao meu lado.
- Meu estômago está embrulhado. – olhei para as panquecas.
- Não se preocupe, você não vai vomitar. – ele deu uma garfada em uma de suas panquecas e comeu, fazendo uma cara de satisfação. – As minhas panquecas são as melhores, não perca a oportunidade de experimentá-las.
Suspirei. E peguei um pedaço pequeno, levei até a boca e degustei. Era boa, era muito boa!
- Tá vendo. Sou bom nisso! – ele se gabou.
- Quero te contratar para fazer meu café da manhã todos os dias. – eu disse com a boca cheia.
- Que mau educada. – ele fez cara de nojo. – Pra quê? Você nem gosta de tomar café da manhã.
Olhei surpresa para ele. Como ele sabia disso?
- Antes que pergunte, eu observo. – ele disse sorrindo e voltou a comer.
- Você dormiu aqui? – o olhei por um momento enquanto dava mais uma garfada.
- Sim. No sofá. – ele deu de ombros. – Você precisava de alguém por perto.
- Não precisava ter se preocupado, tinha a Jen.
- Jen? – ele soltou uma risada. – Ela dormiu fora, provavelmente com o Chaz.
- Obrigada! – estava verdadeiramente grata.
Ele assentiu.
- Eu fiz muita besteira ontem?
- Algumas. Aos poucos você se lembra.
Optei por não falar mais nada. Foquei apenas em comer aquela delícia.
A porta de entrada foi aberta chamando a minha atenção e a do Justin, desviamos nosso olhar para aquela direção vendo a figura de Jen aparecer ali. Ela sequer nos olhou, passou reto pisando fortemente pelo chão. Sua passagem por nós foi tão rápida que pude sentir um leve vento bater em mim. Eu e o Justin nos entreolhamos, e uma expressão de confusão foi feita por nós dois.
Levantei e fui para o quarto da Jen, com o Justin vindo bem atrás de mim. Ao chegar lá vi perfeitamente o momento em que a Jen jogou a mala aberta em cima da cama e começou a socar algumas roupas dentro dela.
- Achei que sua viagem fosse daqui uns dias. – comentei.
Jen era aquele tipo de pessoa que deixava exatamente tudo para a última hora, ela arrumar a mala dias antes da viagem era praticamente um absurdo.
- Era. Mudei para hoje! – ela disse sem sequer me olhar.
- Como assim, Jen? – caminhei em passos lentos até ela. – Teve algum imprevisto? Aconteceu algo? – perguntei tudo de uma vez.
- Não. Nada.
- E o Chaz? Achei que ele tivesse te pedido em namoro. – eu tinha essa lembrança fresca na minha mente, mas não sabia se tinha acontecido mesmo ou se era apenas um sonho.
- Pediu. Mas não aceitei. – ela riu. – Não sei da onde ele tirou essa ideia i****a. – ela continuava socando as roupas na mala.
- Achei que fosse o que você queria, Jen. – disse baixo.
- Óbvio que não. – ela me olhou.
- Você passou a noite com ele?
Justin observava toda aquela conversa da porta do quarto.
- Passei. E ai quando amanheceu eu disse que ele não significava nada pra mim, que tudo que a gente teve não tinha sido nada além de uma diversãozinha. Que o melhor pra ele era me esquecer e esquecer de tudo que rolou, porque eu jamais namoraria com ele.
- Você disse que gostava dele! – Justin disse e Jen riu.
Olhei para o Justin e vi ele perplexo, ele não conseguia acreditar que aquelas palavras estavam mesmo sendo ditas pela Jen. Voltei a olhar pra ela, vendo ela se concentrar novamente na mala.
- Você lembra do que eu te pedi? – perguntei, mas não obtive resposta da mesma. – Jeniffer! – chamei brava.
Ela me olhou com tédio.
- Você precisa ser mais especifica, eu ainda não tenho poder de ler mentes. – ela dizia de uma forma sarcástica.
- Eu pedi para você não machucar o Chaz, se lembra? Pedi para que não brincasse com ele como brincava com os outros. E o que você fez? Exatamente o oposto! – eu estava começando a ficar irritada. – Se você queria ser uma babaca com ele deveria ter sido desde o inicio. Eu te disse que você ia se apaixonar, não disse? E você não levou a sério! Agora veja o que está acontecendo, você está apaixonada e o melhor jeito que achou de fugir disso foi sendo uma completa i****a com quem gosta de verdade de você. – eu disse tudo de uma vez.
Estava exausta das atitudes imaturas de Jen. E Chaz era alguém querido pra mim, eu não queria vê-lo m*l por causa de uma idiotice da minha melhor amiga.
Jen abaixou a guarda no mesmo instante e me olhou triste, que era o que ela estava verdadeiramente sentindo. Eu conhecia ela como ninguém e sabia que ela estava apenas fugindo do que estava sentindo. Não era aquilo que ela pensava, o que ela disse pro Chaz foi uma tremenda mentira.
- Eu... Você não entende? – sua voz soava baixa. – Eu não podia levar isso para frente, Lucy! Não podia fazê-lo acreditar que isso daria certo mesmo com a distância, porque eu não acredito nisso! - ela suspirou. – Eu não fui babaca com ele pra fugir do que sinto, eu fui babaca para evitar que ele sofresse ainda mais. Eu fui babaca por ele! Porque agora ele vai estar tão ocupado me odiando e detestando a pessoa que teoricamente eu sou, que não vai ter tempo de sofrer pelo término. Ele vai simplesmente me odiar, e assim vai seguir a vida mais rápido!
Ela olhou para o Justin e seus olhos se encheram de lágrimas. O louro caminhou até ela rapidamente e a abraçou forte. Meu coração estava apertado.
- Eu sinto muito! Sinto muito por ter feito isso a ele, Justin. – ela disse ainda abraçada ao Justin.
- Eu te entendo. Você fez o que achou melhor, e está sofrendo com isso. Sinto muito!
Os dois se soltaram. Jen limpou algumas lágrimas.
- Por favor, não diga nada a ele. – ela disse para o Justin.
- Não direi!
- Você precisa mesmo ir hoje? Passar um tempo com sua melhor amiga seria melhor. – segurei em sua mão.
- É melhor ir de uma vez. Quanto mais rápido eu voltar pro meu trabalho e minha vida, mais rápido eu vou seguir em frente. Preciso ocupar a mente.
Eu assenti.
Justin ficou ali até terminamos de arrumar todas as malas, ele levaria Jen até o aeroporto. Ela terminou de se arrumar, e saímos. O percurso até o aeroporto foi bem rápido. Levamos ela até o seu portão de embarque.
- Bom, eu vou indo. – ela sorriu fraco enquanto colocava um óculos escuro.
Justin a abraçou rapidamente.
- Promete que vai me ligar assim que chegar? – eu disse.
- Prometo! – ela me abraçou. – Se cuida! E se der para dizer a verdade a tempo, diga. – ela disse baixo no meu ouvido.
Assenti quando nos soltamos. Jen acenou e virou as costas, sumindo da nossa visão em questão de segundos.
Estava preocupada com ela. Sabia que ela estava sofrendo horrores e que não queria que ninguém presenciasse o mundo dela desmoronar, mas eu queria presenciar. Eu queria estar lá para abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem, mas ela sabe o que faz. E sabe que eu sempre estarei aqui por ela. Ela vai me procurar quando acontecer, quero acreditar que sim.
O caminho até o meu apartamento foi tranquilo. Justin parou o carro em frente ao meu prédio.
- Vou ir ver o Chaz, ele deve estar péssimo. – ele comentou baixo enquanto olhava para a frente.
- Tudo bem. Me mande notícias.
- Qualquer coisa me liga. – ele me disse.
Assenti e sai do carro, Justin arrancou dali rapidamente, ele estava bastante preocupado com o Chaz.
Assim que entrei em meu apartamento me deparei com o silêncio, olhei ao meu redor e estranhei não ter a Jen por aqui. Como eu me acostumaria a morar sozinha novamente? Era tudo tão quieto e tão vazio, parecia que algo faltava. Ela iria fazer muita falta por aqui!