O PRAZER DO PODER

1054 Words
O ar estava pesado, espesso como o sangue coagulado. Era uma tarde de sábado, mas o sol parecia um olho amarelo e febril, observando a podridão do mundo. Lá embaixo, a piscina do prédio era uma poça de carne rindo, um berreiro de alegria que só fazia a solidão de Samara gritar mais alto em seu silêncio. A timidez não era uma muralha; era a pele de um caixão. Ela ficou lá, no seu quarto, observando o filho adotivo e a garota dele descem, como dois cordeiros se entregando ao sacrifício. Quando a porta se fechou, ela se vestiu não com um biquíni, mas com uma armadura de tecido mínimo, uma pele falsa para um ritual antigo. Estendeu a toalha no chão, um altar improvisado, e deitou-se de bruços, oferecendo seu corpo ao sol mortiço. Com os fones de ouvido, ela não selava o mundo, mas convidava outra coisa para entrar. Os pensamentos não eram seus; eram sussurros que vinham das frestas da mente, ecos de um tempo em que ela pertencia a alguém. Cinco anos. Cinco anos de um deserto onde a própria carne se tornou um inimigo. A falta de s**o não era carência, era uma presença. Uma coisa rastejando sob sua pele, pedindo para ser alimentada. Aos 46 anos, ela sentia o tempo como uma lâmina afiada, cortando o que restava de sua juventude. A mão desceu, movida por uma vontade que não era a sua. Era um fantasma tomando controle. Os dedos encontraram o calor, mas sentiram apenas o frio da necessidade. A imaginação não voou; ela se abriu como um ferimento, mostrando rostos: o vizinho com sua boca de dentes de tubarão, o síndico com seus olhos de abutre, o porteiro com suas mãos de coveiro. Eles não eram objetos de desejo, eram monstros no armário, e ela estava prestes a lhes dar a chave. O corpo reagiu, mas o prazer era uma ilusão, um breve espasmo de alívio antes do retorno do horror. Um sorriso torto se contorceu em seus lábios. A loucura era uma convidada constante. Foi quando a sombra a engoliu. O filho estava parado na porta, não como um rapaz, mas como uma estátua de juízo, seus olhos dois buracos negros devorando a cena. O susto não foi gelado; foi quente, como o ferro em brasa. A vergonha a queimou por dentro. Ela se cobriu, mas era tarde demais. Ele não tinha visto um corpo; tinha visto a alma dela se contorcendo no chão. A conversa foi uma sequência de facadas. "Só isso...", ele disse. A mentira pairou no ar, mais pesada que a verdade. Quando ele se foi, o clique da fechadura não foi o som de uma porta se fechando, mas de uma gaiola se abrindo. A culpa era um veneno, e ela precisava de um antídoto, uma oferenda para acalmar os deuses da desgraça que ela havia invocado. O bolo não era comida; era um pedido de perdão moldado em farinha e açúcar. Mais tarde, à mesa, o silêncio era uma lâmina entre eles. A confissão dela saiu como um sussurro de moribunda. E a resposta dele... a resposta dele foi o golpe de misericórdia que a mergulhou no inferno. "Você é bonita. É uma mulher atraente." As palavras não eram um elogio; eram uma sentença. Elas não a libertavam; a aprisionavam em uma nova cela, uma onde as grades eram feitas do olhar dele. A dúvida, essa criativa demônio, começou a cavar sua morada em seus pensamentos. Será que ela, sem saber, estava o chamando? À noite, a sala era um túmulo iluminado pela luz azul e pulsante da televisão. Ele apareceu, um espectro de bermuda. O short dela, de repente, parecia uma tira de carne crua oferecida a um predador. O olhar dele pousou em suas coxas, e ela sentiu o toque como se fossem garras. A almofada no colo era um escudo fútil. Ele dormiu, ou fingiu dormir, a cabeça pousada como uma oferenda. O filme na tela era um reflexo distorcido daquela sala: corpos se devorando em meio à violência. O carício dela nos cabelos dele não era afeto; era um teste, uma provocação. E então, ela sentiu. Não foi um movimento, foi uma pulsação. Uma vida despertando sob o pano, uma coisa crescendo, se alimentando do silêncio e do toque. O coração dela não martelava; batia em pânico, como um pássaro contra as grades de uma gaiola. A curiosidade a matou. A mão, com vida própria, começou a descer. Cada centímetro era uma transgressão, um passo mais fundo no pântano. O elástico da bermuda era a última fronteira, a última barreira entre a mãe e o monstro. Ela o cruzou. A visão não a hipnotizou; a petrificou. A carne viva e dura em sua mão não era um homem; era uma arma. E quando ela percebeu que ele estava acordado, o horror se completou. O silêncio entre eles não era de cumplicidade, mas de terror mútuo. Ele não a impediu. E ela não parou. O o*****o dele não foi prazer; foi uma explosão, um jorro quente que a marcou como propriedade, que a selou como cúmplice. O cheiro não a embriagava; a sufocava. "Estamos sozinhos aqui", ela sussurrou, mas a voz não era sua. Era a voz da coisa que agora os controlava. As mãos dele em seu seio não eram de um filho; eram de um conquistador. Os dedos dele invadindo seu short não eram carinhos; eram uma v******o que ela ansiava por sentir. O gemido "Calma, meu filho..." não era um pedido, era o som da própria alma sendo dilacerada. O o*****o dela não foi libertação; foi uma condenação. Ela fugiu, trancou-se, mas o monstro já estava dentro dela. A ducha gelada não lavou a culpa; apenas a fez sentir mais viva. No dia seguinte, a normalidade era a máscara mais aterrorizante de todas. Eles não agiam como se nada tivesse acontecido. Eles agiam como caçadores e presas, compartilhando o mesmo território, esperando a próxima noite de caça. A cada toque furtivo, a cada olhar furtivo, a resistência não diminuía. Ela era sendo esfolada viva, camada por camada, até que nada restasse além do desejo cru e do horror que ele carrega. Eles não estavam se ajudando. Estavam se devorando vivos, lentamente, em silêncio, sob o mesmo teto, esperando um deles dar o golpe final.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD