Eu olhei pra aquela coxinha pálida, murcha e com uma cara de derrota na mão do Pulga, olhei pra cara de p*u de cimento dele e depois pros outros três, que tavam quase dobrando o corpo de tanto rir, perdendo o fôlego naquela laje de Brasilit. A vontade real, aquela que ferve no sangue de quem comanda, era de dar um tabefe pedagógico em cada um, um corretivo pra eles lembrarem que a gente não tá num circo. Mas não deu, mano. O veneno da zoeira é o único soro que cura a tensão de ser um Ferreira. Soltei uma risada que veio lá do fundo do pulmão, daquelas que a gente dá pra não enlouquecer e não sair distribuindo tiro pro alto de puro estresse.
— “Tu é um desgraçado sem alma mesmo, né, Pulga?” — Falei, dando um tapa na mão dele, pegando aquele salgado de procedência duvidosa e jogando longe, fazendo um arco no céu da favela até aterrissar no telhado de zinco da vizinha.
— “Se a Melissa descobre que tu tá oferecendo banquete de lixo, coxinha roubada de retrovisor de moto em fuga cinematográfica, ela interdita essa laje por crime contra a saúde pública e manda a vigilância sanitária te internar num manicômio, seu verme!”
— “Pô, Murilo! Covardia, patrão! Era a minha janta, parça! O tempero era o suor da vitória!” — Pulga reclamou com uma voz chorosa de moleque mimado, fazendo biquinho enquanto o Faísca aproveitava a guarda baixa pra dar um pedala nervoso na nuca dele que estalou no silêncio da noite.
— “Janta é o c*****o, moleque! Tu quase fez o bando rodar, quase entregou o nosso rastro por causa de um pastel de feira e uma coxinha de rodoviária?” — Neguim tava rindo tanto que precisou apoiar as duas mãos na caixa d'água azul pra não cair sentado no chão batido. — “A gente passando a milhão, cortando giro, o giroflex comendo solto atrás da gente parecendo o fim do mundo, e eu só escuto o Pulga berrando no intercomunicador: ‘FAÍSCA, VOLTA QUE O MOÇO JOGOU O QUEIJO NO CHÃO!’. Eu achei que era código pra reforço, mano, achei que tinha chegado os blindados, mas era só a fome desse morto de fome!”
Faísca deu um gole generoso na cerveja, limpou a espuma do lábio e começou a imitar a voz fanhosa do sargento da blitz, gesticulando com os dedos como se segurasse um megafone invisível:
— “O pior foi o coxinha no megafone, todo empenado: ‘PARE A MOTOCICLETA! ENCOSTE O VEÍCULO!’. E o Pulga, com metade da cara pra fora do capacete, gritando de volta: ‘SÓ PARO NO DRIVE-THRU, CHEFE! FRITA UMA PRA MIM QUE NA VOLTA EU PAGO!’. Eu juro por tudo que é mais sagrado, Murilo, o policial ficou tão em choque, tão paralisado com a audácia, que esqueceu de puxar o ferro. Ele só ficou olhando a gente voar por cima do canteiro central como se fôssemos o rastro de um cometa!”
Gargalo, que geralmente é o ponto de equilíbrio daquele bando de maluco, limpou uma lágrima do canto do olho de tanto rir e completou a tragédia cômica:
— “E quando a gente entrou no beco do Zé do Bode pra despistar o helicóptero? O Faísca, na adrenalina de piloto de fuga, não viu o varal da Dona Cida que atravessava a viela. Saímos de lá com um lençol de florinha preso no guidão parecendo uma capa de super-herói de subúrbio e uma calçola bege gigantesca, de vovó, pendurada no retrovisor do Neguim. Parecia que o Bonde do Ferreira tava indo fazer entrega de enxoval de asilo, não de carga pesada da firma!”
— “Ah, não! A calçola foi o ápice do desrespeito!” — Neguim gargalhou, batendo com força na mureta de tijolo aparente. — “Eu achei que era uma bandeira branca de rendição que o vento tinha soprado, mas era só o tamanho monumental do prejuízo da vizinha! O Neguim da Calçola Bege, imagina o cartaz de procurado da Civil com essa legenda?”
Eu tava rindo junto, o peito sacudindo, mas a mente de dono do morro já tava voltando pro lugar, fria e calculista. É essa alegria de condenado, esse deboche com a própria desgraça que faz a gente aguentar o tranco de viver com o cano da arma encostado na nuca 24 horas por dia. Mas o papo ali era reto, sem curva e sem massagem.
— “Cês são um bando de retardado mental, de verdade. Não sei como ainda tão vivos.” — Falei, recuperando o fôlego, a voz voltando a engrossar e olhando fixamente pro portão de ferro da escada. — “Mas ó, papo de visão: limpa essa bagunça agora. Se a Melissa subir aqui pra dar o relatório do tribunal e ver que vocês transformaram a central de inteligência da laje num stand de comédia stand-up, com cheiro de fritura barata e calçola de vizinha pendurada, o Fantasma vai ter que pedir abrigo no presídio de segurança máxima, porque a Doutora vai expulsar geral a base de processo e salto agulha no peito.”
— “Ih, falou a patroa, o leão do morro vira gatinho de apartamento!” — Faísca zoou, mas o brilho no olho dele mudou. Ele já começou a recolher as latinhas amassadas, sentindo que a hora da brincadeira tinha dado o horário. — “Mas ó, Murilo... papo sério de irmão agora. A carga tá lá embaixo, escondida no fundo do galpão fake. O nosso informante , mandou avisar pelo radinho clandestino que o sistema tá babando gravata. Ele disse que ouviu os guarda-noturno comentando que o próximo alvo não é o radinho, não é o fogueteiro, nem o gerente da boca. O próximo alvo é o coração do bando. É o CPF do topo da lista.”
O silêncio voltou a pesar na laje, um manto frio que desceu junto com a neblina da madrugada. Mas dessa vez era diferente. Não era medo — o medo a gente matou na infância. Era prontidão. Era o instinto do bicho que sabe que a caçada começou.
— “Pois que tentem a sorte. O azar eles já têm por me conhecer.” — Falei, sentindo o peso familiar do fuzil contra o meu peito de novo, o metal gelado sendo o meu único conforto. — “Eles têm o Estado, os blindados, as câmeras e o apoio da mídia. A gente tem a rua, o beco, a lealdade e o sangue. E mais importante que tudo isso: a gente tem a Dona da Lei lá dentro do fórum, de toga e inteligência, comendo o juiz vivo no café da manhã e cuspindo os ossos na mesa. Se eles querem guerra, o Fantasma vai dar o apocalipse pra eles.”
— “Isso aí, c*****o!” — Pulga gritou, já pulando os degraus da escada pra sumir na noite. — “E se tudo der errado e o cerco fechar, eu ainda tenho o contato de w******p do tiozinho do pastel pra gente negociar a nossa rendição em troca de uma rodada de caldo de cana com limão e dois pastéis de vento!”
Balancei a cabeça, olhando pro céu nublado de São Paulo que escondia as estrelas. Aqueles quatro eram a minha ruína financeira, a minha dor de cabeça constante, mas eram a minha única salvação num mundo onde ninguém presta.