O CREPÚSCULO DOS DEUSES E A DANÇA DO FANTASMA [NARRADO POR MURILO FERREIRA] O silêncio na laje era tão pesado, tão denso, que parecia uma criatura viva agachada nas sombras, esperando o momento certo pra dar o bote. Era um vácuo absoluto que fazia o tímpano estalar. Eu conseguia ouvir o bater do meu próprio coração — tum-tum, tum-tum — compassado, rítmico, treinado em duas décadas de guerra pra não errar a batida nem quando o chumbo tá cantando nota alta. O Gargalo tinha descido, sumido na boca do lobo das vielas, e me deixado ali sozinho com o fantasma das palavras dele flutuando no ar como fumaça de cigarro barato. Olhei pro céu, o preto retinto, opaco, engolindo as poucas estrelas que teimavam em brilhar sobre a Vila, como se até o universo tivesse vergonha da gente. Senti aquele cans

