Luíz Lancholy I

1575 Words
É sexta-feira, estamos no meio de outubro e falta pouco para o Halloween. De manhã estou escutando "Sol ou Chuva" da banda ForFun. Eu costumava ouvi-los no Brasil quando eu tinha doze anos. A letra é superpositiva. "Corre para a varanda e vem cá ver. Faça sol ou chuva um novo dia vai nascer num céu em degrade." É uma das bandas que costumava me inspirar de pequena, mesmo sendo em português. Assim que chego na Escola, vejo Armando conversando com Casandro. Ele está mostrando ao ruivo um álbum de desenhos enquanto Cass assente, franzindo as sobrancelhas, parecendo impressionado. ─ E é isso... Se vocês quiserem, eu posso redesenhar a capa do álbum de vocês por um precinho amigo. - Escuto o moreno. Por que estou parada do lado dele? Bom, porque daqui a pouco temos aula juntos. Estou corada na frente dos dois. Afinal, eu e o Casandro transamos ontem. É claro que eu não vou demonstrar nenhum desconforto. E inclusive, se ele quiser repetir estou disposta. ─ Eu sei desenhar, entende? - ele responde para Armando, bem orgulhoso. ─ Mas confesso que agora estamos com muito trabalho, e entre as aulas, compor, ensaiar e se apresentar não tenho tempo. Então acho que podemos fazer negócio sim. - Diz o ruivo, abrindo um sorrisinho. ─ Beleza. - Armando responde, fechando o álbum como se já houvesse conseguido o que quer. E abre um sorriso sacana enquanto sua expressão fica maliciosa. Os dois riem. ─ A gente se fala então. - O moreno finaliza o negócio, dando um risinho. Casandro pisca um olho para ele e vai embora. Sem nem me falar "oi". Tenso. ─ E aí? - Sorrio, olhando o moreno. ─ Oi, Lynn. - Ele responde. Ainda parece abstraído no seu mundo, ainda está sorrindo. De repente, com seu jeito agitado, tira um fone do meu ouvido e coloca no seu, e começo a corar muito. Porque claro, estou ouvindo algo que ele não vai entender nunca. E já me aconteceu isso outras vezes, quando escuto música em português ninguém parece se interessar. ─ O que é isso que você está escutando? - ele aproxima o rosto do meu, sorrindo, abaixando seu corpo enorme para ficarmos próximos. ─ Bom, é uma mistura de reggae com hardcore... É uma banda brasileira, você não vai entender. - Digo, corando. ─ Hmm... É legal. Gosto das guitarras que eles metem no meio. Poxa, eu não sabia que você gostava de reggae. Eu tenho que te levar numas festas. E você gosta de hip-hop e rap também? ─ Muito. - Sorrio. ─ Mhuhm. Vem, vamos entrar. - Ele pega a minha mão, todo protetor, e começo a virar um tomate enquanto me deixo arrastar com ele até a nossa primeira aula. Sinto um carinho por ele especial, e pelo jeito que ele me trata, sempre cuidando de mim. Sempre positivo, sempre me fazendo sorrir. Me sinto protegida sempre que ele me agarra. Sempre que ele sorri para mim, sempre que me anima; sem nem se dar conta de que está fazendo isso. Nós entramos na aula e ele se sentou com Kevin, como de praxe, e eu com Arantcha, uma garota vasca que toca bateria no grupo do Casandro e do Luíz. Antes da aula começar, Armando se girou de novo e me disse: ─ Ei, me ajuda a concentrar hoje. Por favor. Essa aula é muito chata. - Ele abre um sorrisão. Começo a rir. ─ Escuta, se você notar que estou desconcentrado, puxa meu cabelo. - Ele diz, rindo. ─ Pode deixar. - Digo, dando risinhos. Arantcha revira os olhos. Ela é bem descrente. E apesar de que não conversamos muito, parece que eu gosto dela e ela de mim, sem que precisemos dizer o porquê. Armando fica três segundos me olhando enquanto seu sorriso vai fechando. Por que fico tímida quando ele me olha? Antes que eu pudesse interpretar meus sentimentos, ele se gira, todo energético, e começa a colocar suas coisas na mesa. ─ Eu viro o boné para trás ou fico sem? - ele pergunta a Kevin, todo louco. ─ Tira, velho. Aqui não podemos usar boné, você não aprende, mano? - o castanho responde. ─ Palhaçada! - ele exclama, falsamente indignado. Logo dá risada e guarda seu boné embaixo da mesa. "Um cara esperto" ForFun... Suspiro.           * * *   No final da aula, me encontro com Elisa no bar. Fecho meu caderno. Eu estava riscando um desenho que eu fiz do Casandro mês passado, antes de transarmos. ─ Que isso? - ela começa a rir de mim, largando suas coisas numa cadeira. ─ É o que você vê. - Digo, apoiando um cotovelo, com cara de nojo. ─ Depois você diz que não ficou chateada! - ela exclama, rindo. Dou de ombros. - Vem na casa do meu namorado amanhã, vamos fazer um churrasco. - Ela sorri. - E vou te apresentar alguém! - exclama Elisa, se chacoalhando. Não consigo me conter, e acabo dando um risinho. ─ Vou ver se eu posso ir... - digo, um pouco desanimada, porque nunca sei se vai acontecer algo r**m lá em casa. O esquema segue exatamente igual a quando eu namorava o Marcos. Minha mãe pode ligar a qualquer hora do fim de semana para dizer que tenho que cancelar meus planos para ir socorrê-la do meu padrasto. Por que ela não se separa? Bom, ela diz amá-lo. Fazer o quê... ─ Sua mãe? - ela pergunta, franzindo as sobrancelhas de pena. ─ Isso... ─ Faz assim, dorme comigo e f**a-se. Começo a rir. ─ Cara, não é tão simples... ─ Se algo acontecer, eu prometo que meu namorado te leva para casa correndo de carro. Ela abre um sorrisão e levanta o mindinho. "Pink promise"? - Elisa sorri e não me resisto. Enlaço o mindinho com o dela. E firmemente chacoalhamos os dois.   * * *   Eu mandei uma mensagem para minha mãe avisando e dormi essa noite na casa da Elisa. Minha mãe nem sequer respondeu a mensagem. Só disse "ok". Dói porque eu nem especifiquei o que eu ia fazer. Só disse que ia dormir fora. Ela nunca se preocupa mesmo, então tudo bem. ─ Acorda, princesa. Coloca isso. - diz minha amiga, entrando no quarto. Ela me deu um vestido de lã lilás e umas botas pretas de couro, com meia calça. Esfrego meus olhos e vou me levantando. ─ Que horas são? - pergunto, me erguendo. E então vou me trocando rapidamente. ─ É meio dia. - Ela responde, sorrindo. - Daqui a pouco vamos almoçar. Como eu vim dormir na casa dela com o uniforme, ela está me emprestando roupa. Então visto o que ela me deu. ─ Quer se maquiar um pouco? - ela sorri. ─ Hm? Ok... - trocamos um olhar cúmplice. É mesmo, hoje ela quer me apresentar alguém. Então fui ao banheiro do quarto de hóspedes e usei a necessaire da Elisa. Logo nós duas descemos até a varanda. Estamos numa espécie de fazendinha bem linda. É uma casa grande com um terreno enorme privado, onde inclusive passa um rio. É muito tranquilo. Há galinhas, cavalos, coelhos e incluso algumas vacas. Nessa varanda há uma fonte de pedra enorme com dois anjos femininos onde os pássaros se pousam e se molham contentes. É outono e ainda não está muito frio, uns dezesseis graus. ─ Você já começou a fazer o almoço, amor? - Elisa pergunta a seu namorado Luigi, tocando-o por trás. Na varanda há uma cozinha a céu aberto. O Luigi está cozinhando enquanto estou sentada num banco coberto por um toldo, do lado de fora. ─ Sim. - Ele responde, com doçura. ─ Estou quase acabando. Luigi é um cara alto, de olhos e cabelos pretos e um pouco longos, com uma pele um pouco queimada pelo sol. Ele tem vinte e sete anos. É um pouco mais velho para a Elisa, sim. Mas ninguém se importa. ─ E seu irmão? - ela pergunta, enquanto estou atenta na conversa. ─ Ele foi alimentar os cavalos, e já está vindo. - Responde o moreno, batendo a colher de p*u na panela. Apenas abro um sorrisinho. Me prontifico a levantar, quando vejo Elisa pegando uns pratos. ─ Deixa comigo. - Digo. Minha amiga sorri e começo a colocar a mesa. ─ Tá bom! - ela exclama, e começa a preparar a churrasqueira. Todos nós nos sentamos na mesa, e então o Luigi começou a fazer uma ligação no seu celular. ─ Quem você vai me apresentar? - murmuro para a minha amiga, que se sentou do meu lado. Há uma cadeira vazia na minha frente, que sugestivo. A mesa está posta de um jeito lindo, e elegante. Usei meus dotes de decoração, colocando os guardanapos dentro do copo, e todas essas frescuras que eu aprendo vendo o canal "De Casa". ─ Ah, você vai ver. Não quero estragar a surpresa. - Ela diz energética, colocando uma expressão que mistura uma aura brincalhona com um "não me encha o saco com sua ansiedade". Acabo sorrindo. ─ Você bebe álcool? - Luigi me pergunta, a ponto de despejar, com seu jeito maduro, enquanto franze as sobrancelhas. ─ Bebo. - Respondo. ─ E como bebo... - os três gargalhamos após meu comentário descontraído. ─ Com licença. - Luigi se levanta e começa a girar a carne na churrasqueira. Minha amiga cutuca meu braço embaixo da mesa. ─ Olha para lá. - Ela cochicha no meu ouvido.
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