Gustavo
Desfaço o nó da gravata e olho para a cidade através do vidro da grande janela da minha sala, hoje o dia foi corrido, muitos documentos para assinar, muitas dores de cabeça e vários telefonemas. Passo a mão pelos cabelos e fecho meus olhos, faz dois anos que estou à frente desta empresa, fazendo jus ao legado do meu pai, que nunca foi nenhum pouco gentil comigo nesta vida. Agora sou o CEO da maior empresa de advocacia do Brasil, a Arantes & Co, passo meus dias trancado nesta sala, debruçado sobre processos e casos, posso até dizer que gosto do que faço. Hoje é sexta feira e farei o que faço de melhor, sair à noite e achar uma mulher gostosa para eu comer, ou duas, nunca se sabe.
Meu celular toca e apenas suspiro sem paciência. Atendo.
— O que foi Débora? — digo áspero.
— Oi lindinho! Você esqueceu—se do jantar na casa da Melinda hoje? Todos estarão lá e você sabe como é importante para sua imagem estar entre pessoas importantes como ele—Débora diz com a voz melosa que já me causa arrepios.
— Não vou poder—digo e escuto seu desagrado na linha— Tive um dia de cão e só quero ir para casa, por favor, Débora não insiste! —digo irritado sabendo que ela iria continuar.
— Mas lindinho... — ela diz.
—Mas nada, se quer tanto ir, vá a essa festa só não conte comigo—digo desligando o telefone.
Sento-me na minha cadeira, passo as mãos pelos meus cabelos sem paciência. Faz pouco mais de dois anos que eu e Débora noivamos, apenas por uma conveniência em família, uma fusão entre a empresa de meu pai e a dos pais dela, mas ando sem paciência para tudo que envolva ela na minha vida. Vou até o bar e me sirvo do meu amigo Uísque que sempre me faz companhia nesse momento. Sento-me e dou um gole na bebida e sinto minha garganta queimar, fecho os meus olhos com a sensação que causa. A verdade é que todos os dias eu me pergunto o que Ana está fazendo? Com quem ela deve estar? Se ela é feliz naquele lugar... Lívia e Nanda ainda moram aqui no Brasil, mas não me falam nada sobre ela. No começo eu implorava por algo dela, saber como estava... Mas apenas se desculpavam e pediam para eu seguir a minha vida. Uma vez peguei Liv sussurrando e quando eu, louco me levantei para pegar o telefone e enfim escutar a voz dela ela desligou e simplesmente fez cara de paisagem. p***a! Eu nunca esqueci essa mulher! Mas ao mesmo tempo tenho certeza de que não sou um cara que faria Ana feliz. E de tanto repetir isso para mim mesmo eu passei a acreditar e parei de procurá—la. Sigo minha vida, tenho que aturar a Débora no meu pé e todas as reuniões tediosas dela e saio com quantas gostosas eu bem entender... No fundo eu sei que Débora sabe de todas as minhas escapadas. Mas estou pouco me fudendo para o que ela acha. Coloco o copo de lado, arrumo minhas coisas e aviso Renata, minha secretária que já estava de saída precisa fazer o que mais gosto de fazer esses anos, ir para uma boate, me divertir com os amigos e no fim da noite, terminar com uma linda mulher na minha cama.
Chego à boate, encosto no balcão de bebidas e peço um uísque, me viro olhando a pista de dança. Duas gostosas se insinuam para mim do outro lado da pista eu, como não sou bobo nem nada ligo o meu radar de caçador... Passo as mãos em meu copo e sigo atrás das duas. Elas dançam e riem, chego e passo as mãos na cintura de uma falando em seu ouvido, ela se faz de tímida, mas fala com a outra amiga e assim partimos para o motel...
Quando chegamos não demorou muito para que a loira estivesse com meu m****o na boca e eu estivesse beijando aquela ruiva deliciosa, mas mesmo estando ali minha cabeça estava longe. Não conseguia me concentrar nesse momento. Enquanto sinto a loira passando sua língua sobre mim não consigo segurar meu gemido alto.
— Ooh Ana... delícia.
A loira parou na hora... Me olhando feio.
— Meu nome não é Ana,delícia... — Disse cruzando os braços.
Suspiro passo a mão pelos cabelos.
— Sabe de uma coisa, digo irritado. Vistam—se.
Elas se entre olham confusas, pego minhas coisas e sigo para minha casa. p***a! Não consigo tirar essa mulher da minha cabeça. Queria poder senti—lá novamente, queria ter ela perto e sentir seu cheiro como era antes... Chego a minha casa e me jogo na cama. Mais um dia sem Ana perto de mim.
Ana
Um novo país, um novo lugar para viver. Nova York está fria, sinto meus dedos gelados mesmo com as luvas, respiro o ar frio da manhã e fecho os olhos pensando em tudo o que passei neste tempo que estou aqui.
Hoje faz exatos um ano que me formei e três que deixei tudo para trás. Minha mãe veio morar comigo e minhas amigas vieram para a minha formatura que foi linda e choramos demais. Fernanda estava junto com Marcelo, enquanto Lívia estava de casamento marcado com Felipe e eu estava super feliz por elas, nós nos falávamos quase todos os dias por vídeo chamada, mas nem sempre conseguíamos conciliar com nossos empregos. Nunca mais perguntei sobre Gustavo, minhas amigas também fazem questão de não dizer nada, pois elas sabem que é um assunto complicado para mim. Nunca deixei de pensar nele, mas agora penso com um pouco mais de rancor do que antes.
Abro a porta de meu apartamento e uma menininha com os cabelos cacheados e olhos azuis iguais aos de alguém que conheci muito bem vem correndo em minha direção.
—Mamãe! Ela dá um grito alto e se joga em meus braços, sinto seu cheirinho de recém—tomada banho e lhe dou um beijo em sua cabeça.
—Oi meu bem, você se comportou com a vovó? —digo lhe sorrindo
—Sim, mamãe eu sou uma moxinha ela diz e vejo minha mãe vindo do quarto sorrindo, me levanto e vou até ela lhe abraço.
—E aí mãe, ela se comportou bem? —pergunto preocupada.
Hoje foi meu primeiro dia de trabalho depois de me formar, tudo ocorreu muito rápido como descobri a gravidez de Katie logo quando cheguei aqui, pedi à minha mãe que viesse me ajudar com tudo e nós viramos bem juntas... Apesar de até hoje sentir rancor de Gustavo por não retornar nenhuma ligação ou mensagem minha sobre a gravidez. Sofri por meses, quase entrei em depressão, mas depois percebi que sou uma mulher forte e que se ele não queria nenhum contato é por que continuava um irresponsável, criaria minha filha com todo amor e carinho e se um dia ela viesse a querer conhecer seu pai, eu lhe mostraria onde procurar. Sinto meu peito doer de saudades de todos. Daquele tempo que todos se juntavam e era tudo tão mais leve. Passei por esses anos na faculdade com muita garra fui às aulas até os sete meses de gestação. Meus amigos de faculdade também ajudaram muito Arthie e Milla sempre estavam por perto me ajudando com os trabalhos e são as pessoas que são mais chegadas a mim desde quando cheguei aqui.
Hoje comecei meu emprego como psicóloga em uma empresa renomada de Nova York trabalharei no setor de Rh de uma empresa automotiva e nos finais de semana trabalho como voluntária em um orfanato perto daqui de casa.
—E aí minha filha como foi hoje? Suspiro
—Ah eu fiquei bem nervosa no começo, mas depois que me pego atendendo o nervosismo some. Sorrio para ela. Mamãe se despede e vai para o seu quarto, sei que está cansada passar o dia com uma criança de três anos às vezes parece que um liquidificador foi ligado sem a tampa.
Katie vem do quarto correndo e pula em meu colo.
—Hey mamãe! Estava vendo um desenho muito legal. Tinha vários sorvetinhos... Ela me olha muito séria—você pode me levar na sorveteria para eu ver os sorvetinhos?
Não consigo não sorrir com os temas se suas conversas.
—Filha, sorvetes são para comer, a mamãe te leva no sábado está bem?
Ela faz uma careta, mas aceita.
Acaricio seus cabelos e penso como seria se Gustavo estivesse aqui? Junto comigo a vendo crescendo a cada dia. Sinto meu peito doer ao lembrar-me de tudo o que vivemos, seu toque e seus beijos estão mais vivos do que nunca aqui dentro de mim.
Coloco Katie na cama, lhe dou um beijo na testa e puxo o cobertor até em cima, as noites daqui são frias mesmo com o aquecedor ligado. Paro um instante para ver minha pequena, seus cabelos são enrolados em um tom de castanho claro, sua pele é morena clara, uma mistura minha e de seu pai... Mas os olhos e a teimosia são todas de seu pai, sorrio com essa constatação.
Tomo um banho, me permito relaxar debaixo da água quente. Hoje o dia não foi fácil! O nervosismo do primeiro dia misturado com sentimento de Vitória, o medo de não fazer certo, de não dar conta, mas no final ficou tudo bem. Acabo de colocar meu pijama e ligo para o celular de Lívia que há essa hora poderia estar dormindo devido ao fuso horário o telefone chama algumas vezes e eu insisto... Até que ela atenda.
—Hellooooo. Bom dia, — digo sorrindo.
Lívia nunca foi muito matinal e ainda continuava festeira. Ela revira os olhos e faz uma careta.
— Sua vaca! Como é que fala vaca mesmo em inglês? Ai nem sei, ela diz sorrindo—E aí, o que você me conta de bom, por que para me acordar cedo desse jeito tem que ser algo muito bom... Ou... A Katie está bem? Ai meu Deus, suspiro sorrindo.
—Quando você se tornou tão tagarela Lívia? Gargalho e ela faz uma cara feia—Katie está ótima! Está dormindo, bom, você está olhando para a nova psicóloga de uma das maiores empresas aqui de NY! Comemoro.
Lívia dá um pulo na cama e Felipe que eu nem sabia que estava lá deu um pulo e caiu no chão de susto.
Morro de rir enquanto ela se desculpa com seu noivo e comigo por não avisar que eu estava em seu quarto, desligo a ligação sorrindo com o jeito atrapalhado de minha prima que também é umas das minhas amigas. Quando você olha para ela vê uma modelo capa de revista, mas, quando você convive, sai de baixo! Ela é tagarela e atrapalha. Isso que eu gosto em minhas amigas, mesmo longe nós não perdemos o contato elas fazem o impossível para estar sempre presente em nossas vidas.
Coloco o celular de lado e busco dormir. Amanhã será um dia corrido e eu não vejo a hora de começar a colocar em prática meu trabalho, fecho meus olhos deixando o sono me guiar.