Os caminhos estão mais perto
Henrique
-- Adão o carro já está pronto? – Adão Royal é meu fiel motorista, e escudeiro. Gosto como ele é discreto, nunca falei para ele, porém sei bem que posso contar com seus feitos para tudo!
Ele não se n**a a nada, nunca falta ao trabalho, jamais reclama das horas extras, não se atrasa um minuto se quer, confio somente nele para algumas coisas, principalmente para guardar meus segredinhos não ditos por mim, e sim vistos por ele...
E cabe a ele a tarefa de sempre levar-me para o aeroporto. O que aliás já estou atrasado, tenho uma conferência em Boston e é muito importante pra mim chegar minutos antes do horário marcado.
Verifico o relógio vendo que eram treze horas e quarenta minutos em ponto. Preciso me apressar, se não quiser pela primeira vez passar o vexame de chegar depois de todos...
Desse jeito irei é perder o voo. Adão percebe minha irritação e trata de começar a explicar sua primeira falha comigo.
-- O carro já está a caminho, senhor. – Ele diz com calma.
Fico furioso com o que ouço. Como a caminho? — Sabe que não suporto atrasos! —meu tom de voz saí irritado. – Tenho um voo para pegar daqui alguns minutos. – Caminho impaciente.
-- Si... – sua voz falha. —Sim senhor. – Ele gagueja.
-- Se sabe, por que não agilizou a entrega do carro? – pergunto áspero.
-- Eles nunca atrasaram. Na certa tiveram algum problema. – Sua voz saí às pressas.
-- Não suporto incopetencia. Por tanto não tente justificar desleixados. Me conhece bem para saber que tô pouco me lixando para os problemas dos outros. – Esbravejo. – Estou preocupado é com as horas passando. – bato o dedo indicador em cima do meu Louis Moinet Meteoris mostrando os ponteiros a ele. —f**a-se o tal mecânico. – Volto a esbravejar. – Entendeu? —Pergunto as brutas.
-- Sim, senhor. – Responde abaixando a cabeça.
-- A que horas era para ter entregado este carro? —Indago totalmente contrariado com o atraso.
-- Exatos vinte minutos atrás, senhor. – Ele responde com preocupação.
-- Não suporto desleixo. – Afirmo. – E essa afronta é uma merda de desleixo. – Digo irritado. – Portanto assim que esse mecânico chagar, pague a ele pelo serviço como sempre faz, depois dispende o imprestável. Não sei onde estava com a cabeça, quando deixei você escolher meu novo mecânico. – Sirvo uma dose de whisky. Observo Adão, em todos estes anos que serve a mim, de todas as ordens que já dei a ele, é a primeira vez que percebo o quanto ele engole seco o que ouve, não entendo o motivo. Também não pergunto, pouco importa os motivos dele, ou de quem quer que seja. Eu mando! E ele é pago para obedecer a calado!
-- Desculpa, senhor, mas ele sempre foi pontual. —tenta argumenta em tom baixo.
Olho bem em seus olhos, não acreditava que o homem da minha confiança... meu braço direito de longa data estava contestando uma ordem minha. – Hoje, não. – Respondo seco. – Sabe muito bem que uma única falha comigo é o mesmo que pedir para ir pra rua. – Viro minha dose sentindo a bebida quente aquecer minha garganta.
-- Desculpa a insistência, senhor. – Seu tom de voz saí temeroso. – Mais... senhor...—ele se cala por alguns segundos depois volta a falar. – Aquele homem precisa muito do trabalho.
“Viro outra dose de bebida, penso mil vez em mandar ele pra o quinto dos infernos com sua piedade.”
-- Senhor, posso levá-lo em outro dos seus carros. O senhor tem tantos. – Ele volta a ficar cabisbaixo.
Perco a paciência de vez. – Quantos carros tenho, ou deixo de ter não é da sua conta. – Digo irritado.
-- Sim, senhor. – Ele não ergue a cabeça.
-- Ouça Adão. – Ele volta seu olhar na minha direção. – Se o tal mecânico precisasse tanto de trabalho como acabou de afirmar, eu já estaria no aeroporto, e teria ido no carro que escolhi ir. E não estaríamos aqui tento essa conversa que poderá acabar com sua demissão. – Ele mostra espanto. – Por tanto não quero mais uma palavra sobre este assunto. Eu pago o miserável, eu mando. Eu ordeno quem fica e quem saí da minha folha de pagamento. Entendido? —pergunto totalmente irritado.
-- Sim, senhor. – Ele concorda com pesar.
-- Aliás nunca choramingue, por nada, nem por ninguém, acredite não vale a pena. – Aconselho soltando fogo pelas ventas. – Agora vá rápido até a garagem e escolha qualquer droga de carro. – Ordeno. – Me espere lá embaixo. Já vou descer. E diga a Carmela que quando volta quero a passadeira fora dessa casa, ou ela vai fazer companhia para a i****a que queimou uma das minhas camisas na fila dos desempregados.
-- Pode deixar, senhor.
Outra vez verifico o relógio vendo que eram quatorze horas em ponto. Ergo meu olhar no exato momento em que ouço ele ser avisado de algo que não entendo.
-- Senhor, o carro chegou. – Ele diz de forma preocupada.
-- Tá esperando o quê? Um convite? – pergunto áspero.
Ele saiu às pressas, não antes que eu perceba o quanto algo deixou Adão inquieto. Porém não questiono, aquilo não era problema meu. Ninguém além de mim e da minha família importa. Afinal o resto mundo está divido uma parte para me adorar e a outra para servir a mim e aos meus. Alguns querem servir a mim até mesmo por fanatismo, outros sei que por pura obrigação. Seja como for todos devem se calar quando mando. Jamais mudo uma decisão, principalmente quando essa é mandar pra bem longe os incompetentes.
Suspiro tentando imaginar o real motivo de fazer um homem obediente como Adão, tanto que essa foi a primeira vez que ele interferiu por alguém...