Capítulo 5 — Primeiro instinto

1940 Words
Valentina não gritou o nome de Adrian. Não havia tempo para palavras. Correu dois passos, atingiu-o na altura do peito e usou o próprio peso para lançá-lo atrás de uma barreira de concreto. O carro cinza atravessou o espaço onde ele estivera um segundo antes. Um policial saltou para o lado. O retrovisor arrancou um microfone da mão de uma repórter e explodiu contra a parede. Adrian caiu de costas, com Valentina sobre ele. O impacto roubou o ar de ambos. Ainda assim, ela ouviu o motor reduzir. — Fique no chão. Rolou para trás da barreira e puxou Adrian pelo paletó. O motorista engatou a ré, tentando alinhar o veículo para uma segunda investida. Pessoas corriam em todas as direções, e câmeras abandonadas transmitiam o caos. Valentina procurou uma arma nas mãos do motorista. Vidros escuros. Para-brisa rachado. Nenhum disparo. — Owen, feche a saída norte! — ordenou. O chefe de segurança demorou uma fração de segundo para reagir, surpreso por receber uma ordem. Depois acionou o rádio. Dois carros oficiais avançaram, mas o cinza desceu da calçada e atingiu uma lixeira. A traseira derrapou. O motorista recuperou o controle e seguiu na contramão. Valentina memorizou a placa antes que ele dobrasse a esquina. — KTR oito, nove, quatro, um — disse. — Repita. O agente mais próximo repetiu os caracteres no rádio. Adrian tentou se levantar. — Espere. — Ele está fugindo. — E pode haver um segundo atacante observando quem corre atrás. Ela examinou as janelas, os telhados baixos e a van de manutenção. A porta do motorista estava aberta. Ninguém dentro. — Onde está o motorista da van? — perguntou. Owen olhou ao redor. — Minha equipe o verificou. — Sua equipe verificou documentos. Não verificou onde ele foi. Adrian tocou a boca e encontrou sangue no lábio. — Você sempre derruba clientes no concreto? — Apenas os que ignoram instruções. — Eu ainda não sou seu cliente. — Então considere uma demonstração gratuita. Daniel e Eleanor surgiram à porta, contidos pelos policiais. Richard veio atrás deles, falando ao telefone. Valentina verificou os braços e o pescoço de Adrian. Nenhuma deformidade, apenas escoriações na mão e o corte no lábio. — Consegue respirar fundo? Ele obedeceu e fez uma careta. — Costela? — Orgulho. — Esse não é órgão vital. O comentário quase produziu um sorriso, mas sirenes cortaram a rua. Valentina se levantou primeiro e o colocou entre a barreira e o prédio. — Voltamos para dentro. — A polícia precisa do meu depoimento. — Pode colher numa sala controlada. Marcus apareceu na saída, afastando agentes. Seu olhar percorreu o carro danificado, a multidão e Adrian. Quando encontrou Valentina, não demonstrou surpresa. — Parece que você ainda atrai confusão. — O motorista fez o trabalho maior. — Senhor Lancaster, viu o rosto dele? — Não. — Recebeu alguma ameaça específica sobre hoje? — As ameaças estão com sua equipe — respondeu Eleanor. Marcus pediu que todos entrassem. Valentina permitiu apenas depois de Owen confirmar que o corredor interno estava livre. Na sala de reuniões do tribunal, um paramédico limpou o ferimento de Adrian enquanto policiais recolhiam relatos. Valentina desenhou a rota do veículo e registrou a placa. Marcus observou por cima de seu ombro. — Você não faz mais parte da polícia. — Sei ler placas sem distintivo. — E não tem autorização para conduzir isto. — Estou entregando o que vi. O que fizer com a informação é responsabilidade sua. O telefone de Marcus tocou. Ele se afastou para atender. Valentina percebeu que não perguntou sobre a van. Owen entrou com a expressão fechada. — A ordem de serviço da manutenção era falsa. O homem que a apresentou deixou o local antes do ataque. — Imagens? — perguntou Valentina. — A câmera da esquina estava voltada para a entrada principal por causa da imprensa. — Quem alterou o ângulo? — Um dos meus agentes, para monitorar a multidão. — Nome e horário da ordem. Owen a encarou. — A senhora ainda não responde pela segurança. Adrian afastou a compressa do lábio. — Agora responde. Todos olharam para ele. — Isso significa que aceita o contrato? — perguntou Eleanor. — Significa que aceito não ser atropelado. Os detalhes ficam com Daniel. Valentina cruzou os braços. — Não trabalho com autorização parcial. — E eu não entrego minha vida a uma desconhecida porque ela sabe empurrar. — Salvei sua vida porque soube observar. O empurrão foi a parte fácil. Adrian sustentou o olhar dela. A hostilidade permanecia, mas agora dividia espaço com uma avaliação menos arrogante. — Quais são seus termos? — Obediência imediata durante ameaças. Acesso às rotas, escalas e câmeras. Poder para afastar qualquer funcionário da equipe de p******o até concluir uma verificação. Nada de compromissos fora da agenda aprovada. — Impossível. — Então encontre alguém que aceite enterrá-lo com flexibilidade. Richard interrompeu a discussão. — Adrian, a imprensa já está chamando isso de tentativa de silenciar você. Precisamos levá-lo para casa antes que aconteça outra coisa. — Pela primeira vez, concordamos — disse Valentina. — Mas não no carro que estava esperando. A rota foi exposta. Ela pediu a Daniel a chave do veículo dele. O advogado hesitou apenas por causa do seguro, depois entregou. Valentina organizou uma saída em dois grupos: o sedã oficial partiria pela garagem com um agente no banco traseiro; Adrian usaria o carro comum de Daniel pela saída dos magistrados. Eleanor seguiria separada. — Isso tudo por causa de um motorista que já fugiu? — perguntou Richard. — Isto tudo porque alguém sabia exatamente por onde Adrian sairia. O silêncio atingiu Owen mais do que os outros. — A rota foi definida depois da audiência — disse ele. — Por quantas pessoas? — Minha equipe, o motorista e a família nesta sala. Valentina não acusou ninguém. Não precisava. A pergunta permaneceu entre eles durante o restante da preparação. Adrian vestiu um casaco emprestado por Daniel e colocou um boné. O disfarce não o tornava irreconhecível, mas impediria uma identificação rápida de longe. No corredor, ele caminhou ao lado de Valentina. — Você suspeita de todos — disse. — Suspeita é uma ferramenta, não uma sentença. — Inclui minha avó? — Inclui você. — Acabou de aceitar me proteger. — Isso não exige acreditar na sua inocência. Exige impedir que alguém decida sua culpa com um carro. Antes de partir, Adrian foi examinado por completo. O paramédico recomendou uma radiografia caso a dor nas costelas aumentasse. Valentina fotografou as escoriações com data e hora, porque um ataque público logo seria transformado em versões concorrentes. Daniel pediu cópia das imagens. — A defesa pode usar isso para mostrar que há uma ameaça real — explicou. — Ou a acusação dirá que o ataque foi encenado — respondeu Adrian. — Por isso precisamos preservar cada registro — disse Valentina. — Imagens originais, chamadas de emergência, posições dos veículos e nomes dos agentes. Marcus, do outro lado da sala, escutou a lista. — Continua montando casos mesmo sem autorização. — Continuo impedindo que provas desapareçam. O olhar dele endureceu, mas havia jornalistas no corredor e advogados por perto. Marcus limitou-se a ordenar que um agente recolhesse as gravações do tribunal. Valentina avisou Daniel para solicitar preservação judicial imediata, antes que qualquer arquivo fosse convertido ou comprimido. Na saída alternativa, ela inspecionou o carro de Daniel por baixo, no porta-malas e no compartimento do motor. Adrian assistiu com impaciência crescente. — Se pretendiam usar outro carro, teriam precisado adivinhar esta mudança. — Pessoas preparadas trabalham com mais de um plano. — E você trabalha supondo que todos existam. — Foi assim que vi o primeiro. Durante o trajeto, Valentina pediu ao advogado que não seguisse o caminho indicado pelo aplicativo. Escolheu ruas com comércio aberto, evitou túneis e observou veículos repetidos nos retrovisores. Um utilitário preto permaneceu atrás deles por quatro quadras. Daniel ficou tenso. — Estamos sendo seguidos? — Ainda não sei. Valentina orientou duas conversões consecutivas. O utilitário continuou reto. Adrian percebeu que ela só relaxou os ombros depois disso. — Você vive assim o tempo todo? — perguntou. — Só quando alguém tenta m***r meu cliente. — Há uma hora, eu não era seu cliente. — Há uma hora, você não seguia instruções. — Isso também não mudou. — Vai mudar se quiser chegar ao julgamento. Ele voltou o rosto para a janela, mas não discutiu a rota seguinte. Ao passarem pelo portão da mansão, Valentina anotou quanto tempo a guarita levou para reconhecer o carro não programado: quarenta e três segundos. Tempo demais para uma emergência, pouco demais para uma inspeção verdadeira. Foram para a mansão sem incidentes. Valentina mudou a rota duas vezes e pediu que Daniel estacionasse numa entrada de serviço. Adrian não reclamou, embora observasse cada desvio. Eleanor tentou retirar Adrian da sala para que descansasse, mas ele se recusou. — Tentaram me atingir diante de cinquenta câmeras — disse. — Isso não foi apenas uma tentativa de m***r. Foi uma mensagem. — Mensagens podem ser interpretadas depois que um médico examiná-lo — respondeu a avó. — Se eu sair, vocês decidirão o que posso saber. Valentina reconheceu o padrão. Controle era a resposta de Adrian ao medo, assim como isolamento era a dela. Não tentou convencê-lo a descansar. Pediu apenas que se sentasse longe das janelas e mantivesse o gelo no ombro. Owen trouxe a lista das pessoas informadas sobre a rota no tribunal. Havia onze nomes: familiares, seguranças, dois policiais e um funcionário judicial. Richard questionou por que também aparecia. — Porque estava na sala — respondeu Valentina. — Está sugerindo que avisei um motorista? — Estou registrando quem possuía a informação. — Esta família não pode funcionar sob suspeita permanente. — Hoje ela quase deixou de funcionar sob um carro. Eleanor ordenou que a lista fosse entregue sem cortes. Richard se afastou para atender outra ligação, mas seu desconforto permaneceu na sala. Na sala de segurança da propriedade, Sofia participou por chamada. A placa registrada estava em nome de Northbridge Consultoria Logística. A empresa encerrara as atividades oito anos antes. O endereço fiscal correspondia a uma sala demolida, e o último diretor declarado morrera sem deixar herdeiros conhecidos. — Placa clonada? — perguntou Adrian. — Pode ser — respondeu Sofia. — Mas alguém escolheu uma empresa morta em vez de copiar um veículo ativo. Isso reduz a chance de um proprietário legítimo denunciar rápido. Valentina ampliou os dados na tela. — Procure processos, contratos públicos e vínculos societários antigos. — Já estou procurando. Owen permaneceu perto da porta. Adrian segurava gelo contra o lábio. Eleanor exigia atualizações a cada cinco minutos, enquanto Richard atendera a uma reunião de emergência sobre a queda das ações. Sofia voltou à chamada com um número de processo. — A Northbridge apareceu numa investigação de desvio de cargas e lavagem. O caso foi arquivado por falta de provas. — Quem investigou? — perguntou Valentina. — Espere. O documento é antigo e está m*l digitalizado. O ruído do teclado preencheu a sala. Valentina já sentia uma pressão familiar no peito. Empresas encerradas, provas desaparecidas, processos arquivados: era a linguagem do passado de sua família. Sofia abriu a primeira página do inquérito. O nome do investigador responsável surgiu abaixo do brasão da polícia. Tomás Torres. Adrian leu em voz alta. — É seu pai? Valentina não respondeu imediatamente. Lembrou-se das caixas que Tomás mantinha fechadas, dos anos em que evitava falar sobre o último caso e da certeza amarga de que certos erros nunca morriam. Apenas esperavam o momento de voltar. — Sim — disse. — E alguém acabou de usar uma parte do passado dele para tentar m***r você.
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