Valentina não gritou o nome de Adrian. Não havia tempo para palavras.
Correu dois passos, atingiu-o na altura do peito e usou o próprio peso para lançá-lo atrás de uma barreira de concreto. O carro cinza atravessou o espaço onde ele estivera um segundo antes. Um policial saltou para o lado. O retrovisor arrancou um microfone da mão de uma repórter e explodiu contra a parede.
Adrian caiu de costas, com Valentina sobre ele. O impacto roubou o ar de ambos. Ainda assim, ela ouviu o motor reduzir.
— Fique no chão.
Rolou para trás da barreira e puxou Adrian pelo paletó. O motorista engatou a ré, tentando alinhar o veículo para uma segunda investida. Pessoas corriam em todas as direções, e câmeras abandonadas transmitiam o caos.
Valentina procurou uma arma nas mãos do motorista. Vidros escuros. Para-brisa rachado. Nenhum disparo.
— Owen, feche a saída norte! — ordenou.
O chefe de segurança demorou uma fração de segundo para reagir, surpreso por receber uma ordem. Depois acionou o rádio. Dois carros oficiais avançaram, mas o cinza desceu da calçada e atingiu uma lixeira. A traseira derrapou. O motorista recuperou o controle e seguiu na contramão.
Valentina memorizou a placa antes que ele dobrasse a esquina.
— KTR oito, nove, quatro, um — disse. — Repita.
O agente mais próximo repetiu os caracteres no rádio.
Adrian tentou se levantar.
— Espere.
— Ele está fugindo.
— E pode haver um segundo atacante observando quem corre atrás.
Ela examinou as janelas, os telhados baixos e a van de manutenção. A porta do motorista estava aberta. Ninguém dentro.
— Onde está o motorista da van? — perguntou.
Owen olhou ao redor.
— Minha equipe o verificou.
— Sua equipe verificou documentos. Não verificou onde ele foi.
Adrian tocou a boca e encontrou sangue no lábio.
— Você sempre derruba clientes no concreto?
— Apenas os que ignoram instruções.
— Eu ainda não sou seu cliente.
— Então considere uma demonstração gratuita.
Daniel e Eleanor surgiram à porta, contidos pelos policiais. Richard veio atrás deles, falando ao telefone. Valentina verificou os braços e o pescoço de Adrian. Nenhuma deformidade, apenas escoriações na mão e o corte no lábio.
— Consegue respirar fundo?
Ele obedeceu e fez uma careta.
— Costela?
— Orgulho.
— Esse não é órgão vital.
O comentário quase produziu um sorriso, mas sirenes cortaram a rua. Valentina se levantou primeiro e o colocou entre a barreira e o prédio.
— Voltamos para dentro.
— A polícia precisa do meu depoimento.
— Pode colher numa sala controlada.
Marcus apareceu na saída, afastando agentes. Seu olhar percorreu o carro danificado, a multidão e Adrian. Quando encontrou Valentina, não demonstrou surpresa.
— Parece que você ainda atrai confusão.
— O motorista fez o trabalho maior.
— Senhor Lancaster, viu o rosto dele?
— Não.
— Recebeu alguma ameaça específica sobre hoje?
— As ameaças estão com sua equipe — respondeu Eleanor.
Marcus pediu que todos entrassem. Valentina permitiu apenas depois de Owen confirmar que o corredor interno estava livre. Na sala de reuniões do tribunal, um paramédico limpou o ferimento de Adrian enquanto policiais recolhiam relatos.
Valentina desenhou a rota do veículo e registrou a placa. Marcus observou por cima de seu ombro.
— Você não faz mais parte da polícia.
— Sei ler placas sem distintivo.
— E não tem autorização para conduzir isto.
— Estou entregando o que vi. O que fizer com a informação é responsabilidade sua.
O telefone de Marcus tocou. Ele se afastou para atender. Valentina percebeu que não perguntou sobre a van.
Owen entrou com a expressão fechada.
— A ordem de serviço da manutenção era falsa. O homem que a apresentou deixou o local antes do ataque.
— Imagens? — perguntou Valentina.
— A câmera da esquina estava voltada para a entrada principal por causa da imprensa.
— Quem alterou o ângulo?
— Um dos meus agentes, para monitorar a multidão.
— Nome e horário da ordem.
Owen a encarou.
— A senhora ainda não responde pela segurança.
Adrian afastou a compressa do lábio.
— Agora responde.
Todos olharam para ele.
— Isso significa que aceita o contrato? — perguntou Eleanor.
— Significa que aceito não ser atropelado. Os detalhes ficam com Daniel.
Valentina cruzou os braços.
— Não trabalho com autorização parcial.
— E eu não entrego minha vida a uma desconhecida porque ela sabe empurrar.
— Salvei sua vida porque soube observar. O empurrão foi a parte fácil.
Adrian sustentou o olhar dela. A hostilidade permanecia, mas agora dividia espaço com uma avaliação menos arrogante.
— Quais são seus termos?
— Obediência imediata durante ameaças. Acesso às rotas, escalas e câmeras. Poder para afastar qualquer funcionário da equipe de p******o até concluir uma verificação. Nada de compromissos fora da agenda aprovada.
— Impossível.
— Então encontre alguém que aceite enterrá-lo com flexibilidade.
Richard interrompeu a discussão.
— Adrian, a imprensa já está chamando isso de tentativa de silenciar você. Precisamos levá-lo para casa antes que aconteça outra coisa.
— Pela primeira vez, concordamos — disse Valentina. — Mas não no carro que estava esperando. A rota foi exposta.
Ela pediu a Daniel a chave do veículo dele. O advogado hesitou apenas por causa do seguro, depois entregou. Valentina organizou uma saída em dois grupos: o sedã oficial partiria pela garagem com um agente no banco traseiro; Adrian usaria o carro comum de Daniel pela saída dos magistrados. Eleanor seguiria separada.
— Isso tudo por causa de um motorista que já fugiu? — perguntou Richard.
— Isto tudo porque alguém sabia exatamente por onde Adrian sairia.
O silêncio atingiu Owen mais do que os outros.
— A rota foi definida depois da audiência — disse ele.
— Por quantas pessoas?
— Minha equipe, o motorista e a família nesta sala.
Valentina não acusou ninguém. Não precisava. A pergunta permaneceu entre eles durante o restante da preparação.
Adrian vestiu um casaco emprestado por Daniel e colocou um boné. O disfarce não o tornava irreconhecível, mas impediria uma identificação rápida de longe. No corredor, ele caminhou ao lado de Valentina.
— Você suspeita de todos — disse.
— Suspeita é uma ferramenta, não uma sentença.
— Inclui minha avó?
— Inclui você.
— Acabou de aceitar me proteger.
— Isso não exige acreditar na sua inocência. Exige impedir que alguém decida sua culpa com um carro.
Antes de partir, Adrian foi examinado por completo. O paramédico recomendou uma radiografia caso a dor nas costelas aumentasse. Valentina fotografou as escoriações com data e hora, porque um ataque público logo seria transformado em versões concorrentes. Daniel pediu cópia das imagens.
— A defesa pode usar isso para mostrar que há uma ameaça real — explicou.
— Ou a acusação dirá que o ataque foi encenado — respondeu Adrian.
— Por isso precisamos preservar cada registro — disse Valentina. — Imagens originais, chamadas de emergência, posições dos veículos e nomes dos agentes.
Marcus, do outro lado da sala, escutou a lista.
— Continua montando casos mesmo sem autorização.
— Continuo impedindo que provas desapareçam.
O olhar dele endureceu, mas havia jornalistas no corredor e advogados por perto. Marcus limitou-se a ordenar que um agente recolhesse as gravações do tribunal. Valentina avisou Daniel para solicitar preservação judicial imediata, antes que qualquer arquivo fosse convertido ou comprimido.
Na saída alternativa, ela inspecionou o carro de Daniel por baixo, no porta-malas e no compartimento do motor. Adrian assistiu com impaciência crescente.
— Se pretendiam usar outro carro, teriam precisado adivinhar esta mudança.
— Pessoas preparadas trabalham com mais de um plano.
— E você trabalha supondo que todos existam.
— Foi assim que vi o primeiro.
Durante o trajeto, Valentina pediu ao advogado que não seguisse o caminho indicado pelo aplicativo. Escolheu ruas com comércio aberto, evitou túneis e observou veículos repetidos nos retrovisores. Um utilitário preto permaneceu atrás deles por quatro quadras. Daniel ficou tenso.
— Estamos sendo seguidos?
— Ainda não sei.
Valentina orientou duas conversões consecutivas. O utilitário continuou reto. Adrian percebeu que ela só relaxou os ombros depois disso.
— Você vive assim o tempo todo? — perguntou.
— Só quando alguém tenta m***r meu cliente.
— Há uma hora, eu não era seu cliente.
— Há uma hora, você não seguia instruções.
— Isso também não mudou.
— Vai mudar se quiser chegar ao julgamento.
Ele voltou o rosto para a janela, mas não discutiu a rota seguinte. Ao passarem pelo portão da mansão, Valentina anotou quanto tempo a guarita levou para reconhecer o carro não programado: quarenta e três segundos. Tempo demais para uma emergência, pouco demais para uma inspeção verdadeira.
Foram para a mansão sem incidentes. Valentina mudou a rota duas vezes e pediu que Daniel estacionasse numa entrada de serviço. Adrian não reclamou, embora observasse cada desvio.
Eleanor tentou retirar Adrian da sala para que descansasse, mas ele se recusou.
— Tentaram me atingir diante de cinquenta câmeras — disse. — Isso não foi apenas uma tentativa de m***r. Foi uma mensagem.
— Mensagens podem ser interpretadas depois que um médico examiná-lo — respondeu a avó.
— Se eu sair, vocês decidirão o que posso saber.
Valentina reconheceu o padrão. Controle era a resposta de Adrian ao medo, assim como isolamento era a dela. Não tentou convencê-lo a descansar. Pediu apenas que se sentasse longe das janelas e mantivesse o gelo no ombro.
Owen trouxe a lista das pessoas informadas sobre a rota no tribunal. Havia onze nomes: familiares, seguranças, dois policiais e um funcionário judicial. Richard questionou por que também aparecia.
— Porque estava na sala — respondeu Valentina.
— Está sugerindo que avisei um motorista?
— Estou registrando quem possuía a informação.
— Esta família não pode funcionar sob suspeita permanente.
— Hoje ela quase deixou de funcionar sob um carro.
Eleanor ordenou que a lista fosse entregue sem cortes. Richard se afastou para atender outra ligação, mas seu desconforto permaneceu na sala.
Na sala de segurança da propriedade, Sofia participou por chamada. A placa registrada estava em nome de Northbridge Consultoria Logística. A empresa encerrara as atividades oito anos antes. O endereço fiscal correspondia a uma sala demolida, e o último diretor declarado morrera sem deixar herdeiros conhecidos.
— Placa clonada? — perguntou Adrian.
— Pode ser — respondeu Sofia. — Mas alguém escolheu uma empresa morta em vez de copiar um veículo ativo. Isso reduz a chance de um proprietário legítimo denunciar rápido.
Valentina ampliou os dados na tela.
— Procure processos, contratos públicos e vínculos societários antigos.
— Já estou procurando.
Owen permaneceu perto da porta. Adrian segurava gelo contra o lábio. Eleanor exigia atualizações a cada cinco minutos, enquanto Richard atendera a uma reunião de emergência sobre a queda das ações.
Sofia voltou à chamada com um número de processo.
— A Northbridge apareceu numa investigação de desvio de cargas e lavagem. O caso foi arquivado por falta de provas.
— Quem investigou? — perguntou Valentina.
— Espere. O documento é antigo e está m*l digitalizado.
O ruído do teclado preencheu a sala. Valentina já sentia uma pressão familiar no peito. Empresas encerradas, provas desaparecidas, processos arquivados: era a linguagem do passado de sua família.
Sofia abriu a primeira página do inquérito. O nome do investigador responsável surgiu abaixo do brasão da polícia.
Tomás Torres.
Adrian leu em voz alta.
— É seu pai?
Valentina não respondeu imediatamente. Lembrou-se das caixas que Tomás mantinha fechadas, dos anos em que evitava falar sobre o último caso e da certeza amarga de que certos erros nunca morriam. Apenas esperavam o momento de voltar.
— Sim — disse. — E alguém acabou de usar uma parte do passado dele para tentar m***r você.