55 - Como se fossem rivais

2447 Words
*Michael PoV* Temos um show hoje à noite e enviei uma mensagem à Dorothy. Pela primeira vez em semanas, ela me respondeu. Disse que iria, não para tocar, apenas para conversar. Não me garantiu horário nenhum. Enquanto me movimento pelo palco durante a apresentação, percebo que Amber Lee está tensa. Não é a primeira vez que ela sobe ao palco. Nem todo mundo vence o medo do mesmo jeito, no entanto, sinto que tem algo que a incomoda. Ela ficou muito quieta, o que não é comum. Não sei o que se passa naquela cabecinha ruiva, porém deixo meu olhar descansar sobre ela um bom tempo. É a minha forma de ser solidário e de tentar lhe passar segurança. Seu olhar foge do meu e vagueia pela multidão, relaxando aos poucos. Apesar de não entender tudo a seu respeito, alguns sinais estou começando a reconhecer. Justamente por isso, noto como ela fica tensa novamente. Olho na mesma direção que ela e vejo Dorothy chegando e seguindo para o backstage. Sua cara é de poucos amigos. Espero que ela não resolva dar outro piti quando o show acabar. Então, ouço uma nota errada do teclado. Felizmente, Pete consegue camuflar com a bateria e eu volto minha atenção imediatamente para Amber Lee. Ela sequer me encara e parece aterrorizada. O que será que deu nela hoje? Quando saímos do palco, eu procuro a Dorothy, sem sucesso. Cutuco Pete para saber se ele a viu. ㅡ Vi a Dorothy na plateia. ㅡ Jura? Eu não. Será que ela foi lá fora tomar um ar? Está quente aqui dentro. ㅡ Talvez... Noto Amber Lee sentar desanimada sobre uma caixa e esconder o rosto nas mãos. Não foi um erro tão grotesco assim e já passei da fase de me preocupar com isso. Ela se provou mais que capaz. Faço um gesto com a cabeça para o Pete me acompanhar e seguimos em sua direção. Ela precisa de apoio. Está tão chateada, que não consegue nos encarar enquanto fala. ㅡ Eu... Sinto muito por ter estragado tudo! Seus olhos estão perdidos no chão. Realmente, ela está muito m@l. Deve estar esperando um esporro da minha parte e eu me odeio por isso. Suspiro e fico em pé diante dela, o que a faz levantar a cabeça para me encarar. Eu sorrio com sinceridade para lhe dar conforto e ela fica surpresa. Tento tranquilizá-la e ela insiste em dizer que ficou nervosa por causa da multidão. Não sei porque, mas acho que não foi só isso, porém não vou pressioná-la. Ela custa a acreditar na minha compreensão e eu sigo a linha que sempre nos faz relaxar: A da provocação. Ela abre um sorriso lindo. Então, sinto a mão do Pete no meu ombro e depois ele se ajoelha diante dela. Ou ele é cego ou é muito sonso. Estou com a situação sob controle aqui! Não explodi e nem briguei com ela! Saco! ㅡ Amber Lee, você tem tocado como uma louca por semanas. É normal se perder de vez em quando. Só precisa acreditar mais em você, afinal passou do status de tiete para a tecladista de uma banda prestes a estourar nas paradas de sucesso. ㅡ Nunca fui sua tiete, Pete! ㅡ Do Michael, então? ㅡ Menos ainda! Preferiria arrancar todo o meu cabelo! Não aguento essas coisas absurdas que ela diz. Acabamos eu e meu baterista rindo muito. Afasto-me um pouco e aponto a porta da saída dos fundos com o queixo. ㅡ Venha. Vamos tomar um pouco de ar por uns dois minutos. O ar fresco da noite nos faz um bem enorme. Ela até fica mais corada e disposta. Fico feliz que consegui contornar a situação tensa de minutos atrás, sem lhe fazer qualquer grosseria. Ela não merece. Pete caminha de um lado para o outro e eu brinco me equilibrando sobre o meio fio. Até abro os braços um momento. Permanecemos todos em silêncio. Depois da gritaria estrondosa do show, é reconfortante. Vejo-a suspirar, ela parece cheia de pensamentos e me dá alguns olhares de relance. Do nada, palavras sussurradas saem de sua boca. Ela tenta ser discreta, mas eu percebo. Reconheço os versos da canção que tanto gostei, com uma métrica melhorada. Ela realmente é formidável. É de mim que ela fala? Só pode ser... Ouço o barulho alto da porta do estabelecimento batendo e a voz irritada da Dorothy não me escapa. ㅡ O que di@bos ela está fazendo aqui? Qualquer uma pode fazer parte da banda agora? Dorothy pula as escadas e para diante de quem ela encara como se fosse sua rival, o que é extremamente ridículo. Put@ merd@! Ela vai criar caso com a Amber Lee? Pete se aproxima das duas. Eu me mantenho imóvel e irritado. Se ela der outro chilique aqui, vou mandá-la para o infe®no! ㅡ Sim. Isso é um problema? ㅡ Você se importa, Michael? Está trazendo a Miss Burguesa para tocar na banda? ㅡ Dorothy, acalme-se. Nós explicaremos. Pete tenta acalmar os ânimos, porém eu estou put0 da vida. Com que direito ela vem reclamar de qualquer coisa agora? ㅡ Você saiu da banda e nos deixou na mão para o show! Amber Lee nos tirou da merd@, quando você pulou fora! Então, se você não está feliz, a porta da rua é a serventia da casa! Ela faz um bico de birra e percebo que está no limite das lágrimas. No entanto, não posso amolecer com ela. ㅡ Eu não abandonei o grupo! Saí por uns dias e você me substituiu por uma de suas put@s como se eu não valesse à pena! ㅡ Já chega! Eu grito com ela. Não vou permitir que fale assim da Amber Lee. Porém, se tem uma coisa que a Dorothy dificilmente faz, é usar o bom senso. ㅡ Você não consegue manter a porr@ do zíper fechado, não é? Você é um galinha, que f0deu atrás do teclado, enquanto matava nossas músicas! Você tem merd@ nos olhos e ouvidos, Michael! A raiva começa a se apossar de mim, no entanto, me surpreendo ao ver Amber Lee se meter no meio de nós dois, completamente enfurecida. *Amber Lee PoV* Na minha antiga cidade, eu realmente era a Miss Burguesa. Também era como um robô teleguiado, um p*u-mandado de todos. Contudo, quando me mudei para Nova Iorque, os erros e acertos que cometi me ensinaram muito, inclusive, a não levar desaforo para casa. ㅡ A c@dela de plantão fez o show, enquanto a madame decidiu bancar a diva e cair fora! Você não estava lá... Você os deixou na mão! ㅡ Michael vai brincar com você como fez com todas as outras! Eu já estava aqui antes, você é só um estepe! Não sou de briga, abomino violência, mas se for preciso, aprendi a morder. ㅡ Ser jogada para escanteio deve te fazer sentir péssima, não é, pequena diva? Se você não aguenta a pressão quando as coisas não estão indo bem, o problema é seu! Graças a mim a Everlasting conseguiu tocar. Se tivessem cancelado, não teriam sido notados pela produtora e não haveria álbum algum! Onde você estava? Na cama de quem? Desapareceu quando mais precisaram de você! Sei que foi golpe baixo e posso ler no rosto de Michael que ele não aprova o fato de eu ter usado o que ele me confidenciou contra ela. A tensão aumenta mais ainda entre nós duas. Dorothy cerra os dentes e fecha os punhos com força. Eu faço o mesmo. ㅡ A bonequinha acha que é parte da banda com seu teclado podre? Não pode tocar quatro notas e garantir sua vaga! Quem você achou que era? O palco não é lugar para você! ㅡ Já chega, meninas! Vamos tomar um negócio e nos acalmar... Pete tenta apaziguar os ânimos, porém é tarde demais. A situação atingiu seu limite. Dorothy investe um soco contra mim, que desvio dando um passo para trás. Agradeço nesse momento as aulas que pedi ao Rico de defesa pessoal. Quando eu me armo para revidar, Michael me segura por trás e me puxa contra si. Sua proximidade me acalma um pouco, o que não dura muito. Tento me livrar dele ao notar que a Dorothy ameaça uma segunda investida. Felizmente, Pete a segura pela cintura. ㅡ Eu vou acabar com você, sua v@dia! ㅡ Michael, me solte! Vou dar na cara dela! Ela não vai parar e eu não vou dar a minha cara a tapa. Então, Michael me aperta mais junto ao seu corpo e sussurra o óbvio em meu ouvido: ㅡ Dorothy está com ciúmes... Pare... ㅡ Apesar da minha respiração caótica, sinto o carinho vazando através de suas palavras. ㅡ Vamos, little bunny, acalme-se. Vou falar com ela. O problema é que a Dorothy escuta e se enfurece ainda mais. ㅡ Little bunny? Não acredito... Você dá apelidinhos doces para as suas vag@bundas agora? Que lamentável, Michael! Saio por alguns dias e, quando volto, estamos no mundo dos ursinhos carinhosos! *Michael PoV* Decido ignorar seu comentário m@ldoso. Ela está nublada pela raiva, ciúme e sabe-se lá o que mais. A culpa é minha por sempre colocar panos quentes, tentar contornar, quando deveria ter cortado suas asas desde o começo. Por sorte, Amber Lee é bem mais sensata. ㅡ Você está certo. Não vale a pena. Respiro aliviado e começo a soltá-la. Um problema a menos. ㅡ Mas que saco! Você não vai estragar tudo. Estamos na mesma banda. ㅡ Pete está certo, Dorothy. Vou te levar para casa. E colocar os pingos nos i's. Se eu não deixar as coisas claras agora com ela, a próxima vez que explodir será o fim certamente. Eu não quero ter que escolher entre a minha irmãzinha e a mulher que eu amo. Não poderia jamais. Pego Dorothy pela mão e a levo para o meu carro. Ela permanece em silêncio, de braços cruzados e uma expressão de puro desgosto o caminho todo. Seu apartamento também é no Chelsea. Sinceramente, não sei como ela sempre se atrasou para os ensaios morando a poucas quadras de mim. Quando ela abre a porta, fico petrificado no batente de entrada. O lugar está um chiqueiro maior que o do Sunny. Sequer consigo identificar um móvel do outro. Ela segue direto para a geladeira. ㅡ Quer uma cerveja? Eu n&go com a cabeça e ela dá de ombros, pega uma bebida e se senta sobre uma pilha de roupas em cima do que acho ser o sofá, encarando-me solenemente. Como um ser humano consegue viver assim? ㅡ Dorothy, onde esteve esse tempo todo? ㅡ Isso importa? ㅡ Importa quando você dá o meu celular para um traficante, não atende os meus telefonemas e, ainda por cima, arruma confusão com a nova integrante da banda. ㅡ Olha, Michael, eu não te devo satisfação da minha vida. Você nunca se importou comigo mesmo... ㅡ Você tem ideia da merd@ que está dizendo? Eu estava preocupado pra cass&te com você! Cheguei a pensar em procurar o seu corpo nos necrotérios, porque eu simplesmente não conseguia acreditar que estava sendo tão m@ldosa comigo... Comigo, Dorothy! Ela desvia o olhar, se levanta e toma um gole de sua garrafa enquanto anda em círculos. ㅡ A tecladista de merd@ vai ficar? ㅡ A tecladista tem nome: Amber Lee. Quer você goste ou não, ela vai ficar. Quero que a trate com respeito. ㅡ Por quê? Ela é tão gostosa assim, que você quer continuar comendo por mais um tempo? Eu levanto as mãos para o alto antes de xingar umas três vezes. Sinceramente, não sei se devo falar agora minhas reais intenções com a Amber Lee. Dorothy provavelmente cortaria os pulsos. Preciso prepará-la antes e, por agora, me atenho aos fatos. ㅡ Não estou “comendo” ninguém e eu não vou tolerar que a difame desse jeito. Você realmente acha que eu seria irresponsável a esse ponto com a Everlasting? Você está comigo desde o começo, Dorothy. Você viu a porr@ da banda nascer e crescer! ㅡ Os homens costumam ficar burros por causa de um r**o-de-saia… Ela insiste nessa linha e eu me sinto cansado, esfregando o indicador no centro da minha testa. Essa conversa é inútil... ㅡ Olha, amanhã tem ensaio. Se você não aparecer, vou te considerar fora. Se resolver parar com a criancice e quiser seguir em frente, minha porta sempre vai estar aberta para você. Dou-lhe as costas e saio. ㅡ Eu vou! É o que ela berra e imediatamente ouço a porta bater, com tanta força, que me faz estremecer. Respiro fundo ao entrar no meu carro para ir embora. Pete me envia uma mensagem vinte minutos depois para confirmar ter deixado Amber Lee em casa. Droga! Eu que deveria tê-la levado, porém precisava esclarecer as coisas com a Dorothy. Pior é que eu tenho quase certeza que não adiantou nada. Noite de merd@! *Amber Lee PoV* Ver Michael ir embora com aquela doida varrida doeu dentro de mim, mais do que posso suportar. Sequer dou atenção ao Pete, que tenta puxar conversa na van durante o trajeto. ㅡ Sinto muito que as coisas tenham sido dessa forma, Amber Lee. A Dorothy perdeu o controle e… ㅡ Controle? Ela queria arrancar os meus olhos, Pete! ㅡ Olho de lado para ele e resmungo. ㅡ Ela vai voltar para a banda? ㅡ Eu não sei… Se tem alguém que pode colocar um pouco de juízo naquela cabeça teimosa, é o Michael. Espero que ele consiga. Ter vocês duas na Everlasting seria o máximo. Só agora eu o encaro de olhos arregalados. ㅡ Nós duas? Eu ainda vou tocar com vocês? Ele pára em um sinal vermelho e olha para mim como se eu fosse uma alienígena. ㅡ Claro que vai! Por que você acha o contrário? ㅡ Eu… Eu pensei que, com a Dorothy de volta, vocês não precisassem mais de mim. Eu era só um estepe, como ela mesma disse. Fora que ela é claramente contra a minha participação na banda. Pete dá uma risada alta, enquanto retoma o caminho. ㅡ Não sei de onde você tirou essa ideia, mas não. Você não é um estepe e conquistou seu lugar na Everlasting, Amber Lee. Tenho certeza que o Michael é da mesma opinião. Eu e ele vamos achar uma solução com a Dorothy. Não se preocupe, está bem? ㅡ Está bem… Eu espero que sim. Não importa o quanto ele esteja interessado em mim. Se ela pedir a minha cabeça, ele teria que escolher entre a irmã de consideração que está na vida dele há anos e uma garota estranha que ele conhece há poucas semanas. Acho que a escolha seria bem óbvia. Noite de merd@...
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