*Amber Lee PoV*
Vou mais cedo para casa hoje. O cansaço tem feito estragos na minha aparência.
Se eu continuar assim, conseguiria trabalhar fácil em um filme de terror.
Assim que chego no meu prédio, vejo Dorothy em pé na parede fumando um cigarro. Ela o apaga quando que me vê e eu respiro fundo.
O que ela quer aqui?
ㅡ Você tem um minuto?
Ela parece muito calma e a convido para subir comigo até o meu apartamento. Ofereço um café, porém ela recusa, indo direto ao ponto.
ㅡ Quando é que vocês dois vão parar com a palhaçada e fazer as pazes? Não aguento mais o Michael e seu mau-humor.
Cruzo meus braços e deixo escapar um sorriso debochado.
ㅡ Você não deveria aproveitar a oportunidade? Afinal, estou fora do seu caminho.
ㅡ Qual é, Amber Lee! Eu vim em paz. Não pode baixar a sua guarda um minuto para conversar? E, sinceramente, não vejo nenhuma oportunidade aqui. Vocês terminaram e ele ficou relapso. Não marca mais ensaios, grita com os amigos. Ele está intragável.
ㅡ O problema não é meu, Dorothy! Não fui eu quem levantou falsas suspeitas sobre quem dizia amar!
Ela arregala os olhos e fica boquiaberta.
ㅡ Ele confessou que te ama?
Agora quem fica surpresa sou eu.
ㅡ Michael comentou algo com você?
ㅡ Em Miami, quando ele foi atrás de mim e eu fiz minha última tentativa patética de seduzi-lo, ele me contou. Foi o tiro de misericórdia que ele me deu para cortar todas as minhas esperanças.
Mordo meu lábio inferior, tão forte, que quase arranco um pedaço.
ㅡ Bom, era mentira. Bastou eu dizer a ele que o amava e ele me descartou. Tudo foi um jogo para ele, que perdeu a graça quando eu abri a minha boca. Então, pode continuar com as suas “tentativas patéticas”. Ele vai partir o seu coração, assim como você disse que ele faria com o meu.
Ela me desafia com um olhar malicioso e um sorriso irônico, enquanto cruza os braços.
ㅡ Você tem certeza disso?
Procuro esconder a minha surpresa, arrumando uma mecha do meu cabelo.
ㅡ Ele me acusou de algo que eu não fiz, só para ter uma desculpa estüpida para me descartar. Então, sim. Tenho certeza.
ㅡ Bom, só me ajude a entender. Vocês dois tiraram conclusões precipitadas um sobre o outro e, agora, ambos se sentem ofendidos e ninguém quer dar o braço a torcer para consertar as coisas. É isso?
ㅡ É bem mais complicado que isso, Dorothy! Quer saber? Eu não tenho que dar satisfações da minha vida para você! ㅡ Vou até a porta e a abro. ㅡ Boa noite!
Ela mantém seu ar irritantemente soberano e pára no batente da porta, me impedindo de fechá-la.
ㅡ Sabe, eu queria mesmo acreditar que tenho alguma chance, porém demorei anos para perceber que isso jamais vai acontecer. Você é muito burra por achar que ele estava brincando com você. Eu nunca o vi levar uma garota tão a sério. Anel de compromisso? O Michael que conheço, antes de você, jamais se preocuparia com isso. Oh, ele fez merd@ e te falou um monte de besteiras? Seja lá quais fossem os motivos dele, certamente não foi porque você se declarou para ele, pois era o que ele mais queria ouvir nessa vida. Mas, se você prefere se enganar e deixar outra pessoa tomar o seu lugar…
Eu rosno irritada e tento empurrá-la para fora. Ela apenas ri.
ㅡ Você é uma idïota, sabia, Dorothy?
ㅡ Magoei a princesinha do metal? Eu não dou a mínima, Amber Lee! Vocês dois se merecem de tão cegos e teimosos que são!
ㅡ Tchau!
Finalmente consigo fechar a maldita porta.
Quem ela pensa que é? E daí que ela o conhece há mais tempo que eu? Ela não tem o menor direito de me dizer qualquer coisa, principalmente depois do que já aprontou! Tentar me convencer que o Michael realmente me ama…
Engulo o resto dos meus pensamentos dolorosamente. Prefiro acreditar que ele tenha brincado comigo, que perceber que o amor que ele teria por mim seria tão frágil. É menos doloroso.
Meu celular vibra na minha bolsa e eu o pego. Fico preocupada com a voz desesperada do Rico.
ㅡ Ojitos, preciso de um favor enorme!
ㅡ O que houve?
ㅡ É o meu irmão… Ele está dando uma festa na casa dele e me convidou. Não tenho mais s@co para os circos que ele proporciona, porém tem uma pessoa nessa festa que é um peixe grande no ramo esportivo. Faz semanas que estou tentando encontrar uma oportunidade para falar com ele, por causa da minha academia e do projeto para os jovens carentes. Sei que é muito em cima da ho®a, porém eu não queria ir sozinho… Tenho medo de cometer um fratricídio…
Sinto muita pena dele, até porque sei como sua relação com Juan é conturbada. Não vai me custar nada. Rico sempre está disposto a me ajudar. Não vou deixá-lo na mão quando ele mais precisa de mim.
ㅡ Pode me pegar em uns trinta minutos?
ㅡ Sabia que eu te amo?
Dou risada de sua alegria e vou me arrumar. Uma ducha rápida, maquiagem e um tubinho preto sem alças, com um bolero branco por cima. Ouço uma buzina e, quando desço, fico embasbacada. Rico está dirigindo um sedã prata que parece ser muito caro. Ele sai da direção e abre a porta do carona para mim. Apesar do veículo deslumbrante, seu visual de motoqueiro é o mesmo.
ㅡ Você assaltou uma revendedora de carros?
Ele ri da minha brincadeira e me explica enquanto assume o volante.
ㅡ Quando eu disse ao Juan que iria levar uma amiga, ele me emprestou esse carro. Só aceitei porque sei que você odeia andar de moto.
ㅡ Eu não “odeio” andar de moto… Apenas morro de medo.
Nós rimos juntos e ele me explica como é a festa durante o trajeto. Eu sei que o irmão dele tem negócios escusos, então Rico me aconselha a não sair do lado dele um único segundo e não aceitar bebida de ninguém. Se eu perder o meu copo de vista, mesmo que seja por um momento, eu não devo beber.
ㅡ Eles drogam e sequestram mulheres nessas festas?
ㅡ Por mais sinistro que o meu irmão seja, confesso que ele tem caráter nesse ponto. Mexer com mulher debaixo do nariz dele, é o mesmo que assinar uma sentença fatal. Mas, existem pessoas que frequentam essas festas, com as quais ele tem que lidar para manter a paz entre as gangues, que não ligam para isso, então não custa nada ser precavido.
ㅡ Certo.
O frio que nasce no fundo do meu estômago, me faz pensar que talvez não tenha sido uma boa ideia. Mas, eu jamais poderia deixar o Rico enfrentar essa situação sozinho.
A casa de Juan Gonzalez está mais para uma mansão em Long Island. Cinco andares, dezenas de quartos, duas piscinas, uma hidromassagem gigantesca. O local está abarrotado de gente bem vestida, ou vestindo quase nada. O Hip Hop alto reina no ambiente. Desvio o olhar quando noto uma orgia na hidro. Rico observa a mesma direção que eu e bufa.
ㅡ É por isso que eu não gosto dessas festas. Sempre tem s@canagem. Vamos.
Encontramos o irmão dele à beira da piscina maior bebendo. Ele está sem camisa e de calção de banho, cercado de quatro beldades, no entanto as dispensa quando nos vê. O olhar dele sobre mim faz minhas bochechas queimarem. É complicado ter um homem tão bonito quanto Rico, de peito musculoso exposto, me encarando como se eu fosse seu pote de sorvete.
ㅡ Hermano! Quando me disse que traria uma amiga, não imaginei que fosse a encantadora Amber Lee!
Ele toma a minha mão e a beija demoradamente. Tenho certeza que estou vermelha como um tomate. Eles dois são muito parecidos, no entanto Juan tem um charme fanfarrão e educado ao mesmo tempo.
ㅡ Não caia na lábia dele, ojitos…
É o que meu amigo sussurra para mim. Ajo durante a festa exatamente como ele me orientou. Sou educada, porém inacessível e não dou mole com a minha bebida. Fico colada no Rico o tempo todo.
Depois do que aquela vaca aprontou comigo, não custa nada ter um pouco mais de m@ldade na cabeça.
Juan é galanteador, até me convida para ser modelo em um agência da qual ele é sócio. Na verdade, ele é sócio de diversos empreendimentos, porém eu não me deixo iludir pelo seu charme. Estou escaldada e não quero me envolver com ninguém tão cedo.
Rico finalmente encontra o tal cara com quem ele queria falar e decido dar a ele um pouco de espaço. Afinal, não entendo nada de Boxe e o assunto realmente é maçante para mim. Juan fica me fazendo companhia, me encarando tão indiscretamente que me deixa sem graça.
ㅡ O que está olhando, Juan?
Ele gira a pedra de gelo dentro de seu copo de uísque despretensiosamente.
ㅡ Nada, apenas acho que é um desperdício um rosto tão bonito quanto o seu, não ser famoso para que todos possam admirar…
Eu giro os olhos nas órbitas.
Outra cantada barata…
ㅡ Bom, já tenho toda fama que consigo suportar no momento por causa da Everlasting.
ㅡ A banda do cabeludo caloteiro?
Ele parece surpreso, assim como eu. Quero rir de como ele se referiu ao Michael e quase babo na minha taça de champanhe.
ㅡ Eh… Sou a tecladista… Como assim, caloteiro?
ㅡ É… Só não dei um corretivo nele porque ele é amigo do meu irmão, entretanto ele me deve o valor de uma guitarra rara que ele comprou de um conhecido meu e não pagou.
Por essa eu não esperava…
Rico retorna muito contente e envolve meus ombros com um braço. Como sempre, não consigo conter a minha curiosidade.
ㅡ Você sabia que o Michael tinha dado um golpe no seu irmão? Acho que me livrei de uma furada, isso sim.
Tento ser discreta, porém Juan acaba nos ouvindo, pois sou obrigada a elevar minha voz por causa da música.
ㅡ Ah! Isso quer dizer que está disponível? Como aquele presunçoso do Michael foi perder uma chica tão hermosa como você?
Não sei onde enfiar a minha cara. A última coisa que desejo, é falar da minha vida amorosa com o Juan. Felizmente, Rico vem ao meu resgate.
ㅡ Não se meta a b&sta com ela, Juan. Ela não é para o seu bico! E o Michael nunca deu golpe em ninguém. Você tentou passar para ele uma guitarra roubada e ainda queria receber?
ㅡ Qual é, Rico! Eu não sabia que era roubada! Michael poderia ter sido mais flexível, mas, não… Ele tinha que armar uma cilada com a polícia para prender o cara. Se eu estivesse lá, teria sido preso também!
ㅡ Seria merecido! ㅡ Rico me segura pela mão e começa a me guiar para fora da festa. ㅡ Vamos, ojitos. Já fiz o que precisava.
Não faço objeção. Toda essa informação, somada com a música alta, está fazendo a minha cabeça latejar e o coração doer de saudades.
Havia me esquecido desse lado justiceiro dele. Pena, que eu seja a única pessoa com quem ele não tenha sido justo…