*Amber Lee PoV*
Acordo me esticando toda e me encolhendo novamente. Estou drenada de energia, todos os meus músculos esgotados, não sei sequer se conseguiria andar se tivesse que me levantar. Contudo, estou tão feliz, que a fadiga não é nada comparada a satisfação dentro de mim.
Estou sozinha na cama e o quarto está às escuras, exceto pela luz do computador. Michael está sentado diante dele, com os fones nos ouvidos, assistindo a um vídeo cujo conteúdo não consigo ver. Tampouco quero. Prefiro que ele volte para a cama e me abrace.
Tento chamá-lo, sem êxito. Os fones o impedem de me ouvir. Então, eu apelo. Pego um travesseiro e jogo nas costas da cadeira. Pelo menos, era o que eu planejava. Na verdade, acabo acertando sua cabeça. Ele leva um susto enorme e se vira para olhar na minha direção. Eu me encolho, cobrindo o rosto até a metade com lençol.
ㅡ Porr@, Amber! Que maluquice foi essa?
ㅡ Desculpe! Tentei te chamar, mas você não ouviu por causa dos fones…
ㅡ Então, você teve a brilhante ideia de tentar quebrar o meu pescoço com o travesseiro?
ㅡ Foi sem querer! Juro que estava tentando acertar só a cadeira!
Seu ar sério muda para uma expressão divertida e ele começa a rir. É quando percebo que caí em sua armadilha.
ㅡ Dá próxima vez, vou me lembrar de tirar uma foto da sua cara de assustada!
ㅡ Idïota… ㅡ Ele sacode a cabeça, ainda rindo, e eu tento mudar o foco da conversa. ㅡ O que estava assistindo? Parecia bem concentrado.
Ele respira fundo, controlando o riso, e arruma os cabelos, puxando-os para trás.
ㅡ Aula da faculdade online que estou fazendo. Tenho uma prova em breve e quero estar preparado.
Pego o celular dele sobre a cômoda e vejo que já passa das quatro da manhã.
ㅡ Você perdeu o sono para fazer isso tão cedo?
ㅡ Não… Meu dia sempre começa nesse horário. Assisto algumas aulas, como alguma coisa leve, saio para correr, termino algumas séries de exercícios na volta, tomo um banho e um café da manhã reforçado e vou trabalhar.
ㅡ Você faz isso todo dia?
ㅡ Exceto aos domingos. Mas, normalmente sim. A não ser que aconteça algum imprevisto, como no dia em que você dormiu aqui ou quando o McGregor me ligou e trabalhei a noite toda. Cheguei tão cansado, que só tive tempo de comer e tomar uma ducha antes de apagar.
Então, é assim que ele mantém esse corpo…
ㅡ Oh…
Ele acha graça da minha surpresa. Não sei de onde ele tira tanta energia, pois sei que há dias em que ele trabalha até depois das dezenove ho®as. Michael deixa os fones sobre a mesa e desliga a tela do computador, levantando-se de sua cadeira. Eu dou um berro, me viro de costas para ele e me cubro até a cabeça.
ㅡ O que foi, little bunny?
ㅡ Você está sem roupa!
Sinto o colchão afundar atrás de mim, quando ele se enfia embaixo da coberta. Seu corpo se aconchega ao meu, seus lábios provam o meu pescoço, enquanto ele passa um braço pelo meu quadril. Eu sequer ouso respirar.
ㅡ Você também está… Por que essa vergonha toda, se você já me viu pelado? Aliás, não só viu como se lambuzou…
Eu me viro rapidamente e cubro sua boca atrevida com uma das mãos. Ele mantém seu sorriso provocador na face.
ㅡ Não ouse terminar essa frase, Michael Denver!
Ele assente com a cabeça e eu libero sua boca, apenas para que ele busque pela minha. Sua mão desliza pela lateral do meu corpo e aperta a minha bund@ com vontade.
ㅡ Como você consegue manter esse corpo tão bem feito e cheio de curvas? Essas suas pernas e esse seu tr@seiro são uma perfeição. Você também se exercita?
ㅡ Eu não tenho paciência para isso. Já fiquei cansada só de saber da sua rotina…
ㅡ Jura? ㅡ A malícia toma conta do seu olhar e sinto sua ereç@o crescendo contra a minha barriga. ㅡ Acho que vou ter que incluir mais um item na minha rotina…
Sei qual é a resposta, mas eu pergunto mesmo assim, só para ouvi-lo dizer em voz alta.
ㅡ Qual item?
ㅡ Fazer amor com você toda vez que estivermos juntos…
Sua boca vem de encontro a minha e eu correspondo insanamente. Tanto, que o empurro e monto sobre ele. Um sorriso malicioso cresce em seus lábios e a situação toda me parece familiar.
ㅡ Dominadora… Gosto disso.
Sua frase me faz lembrar de um dos sonhos que tive com ele, na época em que ainda queria esganá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo. Como percebendo minha hesitação, ele se senta e me ajeita em seu colo.
ㅡ O que foi, little bunny? Você parece assustada.
ㅡ Até esse apelido…
Uma sobrancelha curiosa se ergue acima de seu olhar.
ㅡ Você não gosta?
ㅡ Não é isso… Seria estranho alguém saber de algo antes que acontecesse?
ㅡ Como uma vidente?
ㅡ Algo assim… Quando você me chamou de dominadora agora a pouco, eu me lembrei de um sonho onde você dizia a mesma coisa, exatamente na mesma posição em que estamos, com a mesma expressão.
ㅡ Espera um pouco… Está me dizendo que tinha sonhos eróticos comigo antes da gente ficar junto?
Ele brinca com a situação, contudo eu não estou para brincadeiras. Seguro seu rosto entre minhas mãos e o encaro.
ㅡ Estou falando sério, Michael! Você até me chamou de little bunny no sonho… Isso foi muito antes de você começar a me chamar por esse apelido na vida real…
A expressão divertida dele se desfaz e ele suspira. Depois, pega as minhas mãos e beija cada uma.
ㅡ Perdão, Amber. Só tentei descontrair um pouco porque você parecia que ia surtar. Não acho que seja algo para se preocupar, certo? Porém, será que, da próxima vez, você poderia sonhar com os números da loteria?
Começo a rir e bato em seu peito. Sua risada se une a minha e eu me sinto mais leve.
ㅡ Você é tão bobo…
ㅡ Agora, sério… ㅡ Seus braços me envolvem tentadoramente. ㅡ Quero saber mais sobre esse sonho que você teve comigo…
ㅡ Ah… ㅡ Fico extremamente sem graça e ele ri. ㅡ Não foi nada demais, só uma bobagem… Nem me lembro mais de como era direito…
ㅡ Bom, então creio que vou ter que refrescar a sua memória antes de tomarmos um banho.
Dito isso, ele agarra meus quadris e me faz rebolar sobre sua ereç@o. Envolvo seu pescoço com meus braços e suspiro.
ㅡ Espero que tenha bastante água quente, pois vou precisar de ajuda para esfregar as costas.
ㅡ Ah, little bunny… Vou fazer questão de esfregar cada pedacinho do seu corpo, afinal não quero a minha namorada saindo por aí cheirando a s&xo…
*Michael PoV*
O produtor olha seriamente para mim e Dorothy. Ele viu que foi ela quem causou o problema, dando aquele espetáculo na frente dele. Por isso, a decisão que tomei tem que ser feita dessa forma, na presença dele. É o único jeito de mostrar para ele que tenho o controle da situação e que sou um profissional.
ㅡ Chegaram a um meio termo em que consigam trabalhar juntos, Denver?
ㅡ Dorothy não quer mudar de ideia.
ㅡ Então, temos um impasse.
Respiro fundo, mantendo meus braços apertados diante do peito. Fiz minha escolha e não vou mudá-la. Dorothy é instável demais, portanto não é confiável.
ㅡ Não. Já que ela se recusa a tocar com Amber Lee, teremos que encontrar outro baixista que não tenha esse problema.
Dorothy dá um grito e agarra o meu braço, procurando os meus olhos.
ㅡ Você não pode fazer isso comigo, Michael!
Eu visto a minha casca com ela e sou implacável. Por mais doloroso que seja. Seu olhar se enche de lágrimas e eu cerro os dentes.
Eu sempre amoleci com suas lágrimas e rompantes. É por isso que ela se acha no direito de acabar com tudo quando bem entende. Em algum momento, devo ter deixado espaço para uma esperança que não existe. Enquanto ela se apegar a isso, não há como as duas ficarem juntas na mesma banda.
ㅡ Eu tentei conversar numa boa e você não quis saber. Amber Lee estará conosco no álbum e na turnê, Dorothy. Você também poderia, no entanto, preferiu me dar um maldito ultimato e me obrigou a escolher. Tomei minha decisão, agora encare as consequências.
ㅡ Eu dei tudo o que tinha pela banda, ralei muito também! Você sabe disso, Michael… Por favor…
Ela tenta pegar na minha mão, porém me afasto e me viro para o produtor.
ㅡ Está bom assim para você?
ㅡ Não há nada a dizer. Você é o líder e tomou a decisão necessária.
Esse cara consegue ser mais frio que eu. Não vejo a menor compaixão em seus olhos. Acho que é assim no mundo dos negócios. Mesmo que me doa pra cass&te, eu não vou fraquejar. É pela Everlasting. É por Amber Lee.
ㅡ Eu vou fazer um esforço! Eu juro! Não pode simplesmente me jogar para escanteio por causa dela!
Já ouvi isso antes... Não dá mais.
ㅡ Amber Lee não é o problema. Você é.
ㅡ Michael...
As lágrimas começam a despencar de seus olhos e ela se cala. E, apesar de ser devastador, não demonstro o quanto estou abalado.
Jamais pensei que chegaria o dia em que teria que cortá-la da banda… Ou da minha vida. Eu temo pelo o que ela possa fazer a si mesma, contudo, chegamos no limite. Ela não vai crescer se eu continuar a protegê-la cegamente.
ㅡ Eu acho que tenho algo a dizer sobre isso. ㅡ Viro na direção de Amber Lee surpreso. Abro a boca, porém ela faz um gesto para que eu me cale. ㅡ Dorothy merece ficar no meu lugar. Ele está com vocês desde o começo. A banda já existia sem o teclado e era muito boa. Vocês não precisam de mim.
Que merd@ é essa? Ela enlouqueceu?
ㅡ Pare... ㅡ Praticamente salto sobre ela. ㅡ Você não vai deixar a banda! Você nos trouxe algo incrível e eu te quero conosco. Você e seu teclado.
Dorothy soluça de tanto chorar e faço um sinal para o Pete cuidar dela sem tirar meus olhos da minha ruiva. Winchester não fica nada contente com esse novo impasse.
ㅡ Já está na ho®a de resolverem isso. Não me interessa quem você irá cortar, para mim tanto faz. Entretanto, que fique claro que eu quero os dois instrumentos na banda, independentemente de quem os toque. No entanto, seria uma pena perder alguém com o talento da sua tecladista. ㅡ Ele olha com um certo desdém na direção da Dorothy. ㅡ Também devo dizer que ela parece mais confiável que a baixista.
Relaxo os músculos do rosto para passar um pouco de segurança para ele.
ㅡ Perfeitamente. Não se preocupe.
ㅡ Michael, você não pode se livrar da Dorothy assim!
Porr@, mulher! Assim fica difícil!
Eu a pego pelo braço e a levo até o fundo da sala, prendendo-a contra a parede. Passo um dedo por seu queixo e o seguro para evitar que desvie o olhar. Mordo meu lábio inferior e suspiro enquanto procuro as palavras certas aos sussurros.
ㅡ Eu não quero que você vá embora. Você quer mesmo sair da banda? Quer parar de compor e tocar com a gente? Responda, little bunny, porque a única coisa que vai me fazer aceitar sua saída, é se você disser isso com todas as palavras. Se não for este o caso, então eu te aconselho a manter sua deliciosa língua dentro da sua linda boquinha.
Não consigo evitar olhar para sua boca, que tanto desejo provar de novo com a minha. Sinto o corpo dela estremecer. Ela sente o mesmo desejo que eu. Unimos nossas testas, com o peso da situação sobre nós.
ㅡ Eu... Eu quero continuar com vocês, porém não às custas da Dorothy. Não é justo deixar o que temos nublar o seu julgamento.
ㅡ Se está se referindo a ontem a noite, eu já havia tomado a minha decisão antes de começarmos. Você tem talento, o produtor quer assinar com você também. É graças a você, à sua forma de tocar e se expressar, que a Everlasting ganhou um diferencial. Se sair agora, vamos perder a chance de criar algo único.
ㅡ Fico muito feliz e te asseguro que você me deu uma oportunidade incrível. Graças a você e à banda, eu pude viver parte do meu sonho. Jamais vou esquecer isso. Você me ensinou um monte de coisas, de verdade. Entretanto, não quero pisar nos sonhos de alguém para alcançar os meus.
Isso parece até uma despedida... Não vou permitir.
ㅡ Você merece tanto quanto ela. Pare de se colocar para baixo!
ㅡ Tem noção de como está ficando bom em conversar como um ser humano normal?
Acabo sorrindo. Apesar da situação caótica, ela tenta amenizar o clima. É uma tentativa para me fazer aceitar sua saída. Ela é desprendida e altruísta o suficiente para se sacrificar por outra pessoa, mesmo que essa pessoa seja tão hostil com ela.
Tenho sorte por ter uma garota incrível como ela.
Dou-lhe um peteleco na testa.
ㅡ Você é muito teimosa, little bunny, porém eu também sou. Não vou desistir de você.
Ela sorri e segura meu queixo. Meu coração dá um pulo traiçoeiro no meu peito.
ㅡ Você é bem convincente quando quer. Talvez, haja outra solução…
Não consigo nem descrever o alívio que sinto. Abro um sorriso e sussurro em seu ouvido:
ㅡ Só aceito sugestões que mantenham você na banda. Não vou deixar você ir, não importa o que diga. Quero sua música, suas palavras... Você inteira…
Minha voz é rouca, cheia de vontades que tenho dentro da minha cabeça. Estou apelando, eu sei. No entanto, não disse nenhuma mentira. Não estou disposto a perdê-la.
ㅡ Você sabe o quão atraente você é, maldito metaleiro... ㅡ Ela me empurra sorrindo e, então, faz uma proposta no mínimo suicida ao olhar para a minha irmãzinha. ㅡ Dorothy, você pode me dar um minuto? Só eu e você?
Para meu espanto, Dorothy concorda e ambas seguem para a sala de gravação ao lado.
Não sei se isso realmente é uma boa ideia. Talvez, Dorothy planeje assassinar Amber quando estiverem sozinhas?
*Amber Lee PoV*
ㅡ Olha, eu não sei o que pretende, porém não pense que vou cair na sua lábia de boa moça que tanto encantou o Michael.
Eu suspiro e fecho a porta atrás de mim, observando Dorothy cruzar os braços e me encarar como se eu fosse sua inimiga mortal.
ㅡ Dorothy, qual é o seu maior sonho?
Ela ergue uma sobrancelha e um sorriso sinistro cruza seus lábios vermelhos.
ㅡ Tem certeza que quer que eu responda?
ㅡ Envolve a minha cabeça rolando pelo chão?
O sorriso some de seu rosto e ela desvia o olhar para baixo.
ㅡ Não me leve a m@l, Amber Lee. Mas, não me sinto confortável conversando com você. Não somos amigas…
ㅡ Então, por que aceitou falar comigo?
ㅡ Porque… Ah, merd@…
ㅡ Eu te digo a razão, Dorothy. Porque você também quer participar dessa nova fase da Everlasting. Não quer se afastar do Michael. Nós não somos amigas e, provavelmente, nunca seremos. Só há uma coisa, uma pessoa, que temos em comum e, acho que falo por nós duas quando digo que, no que se refere ao Michael, só queremos vê-lo feliz, certo?
ㅡ Com isso devo concordar…
ㅡ Então, pode me odiar o quanto quiser, desde que isso fique fora da banda. Você não percebe como essa situação entre nós duas é extremamente angustiante para ele? Michael se faz de forte, que aguenta qualquer tranco que levar, porém, por dentro, a tristeza está lá. Ele sofre sozinho, tentando segurar todas as responsabilidades sobre os ombros. Algumas que nem sequer são dele, entretanto, ele faz do mesmo jeito, porque, de alguma forma, acho que sempre foi assim que ele se sentiu. Sozinho.
Os olhos dela brilham com as lágrimas que ela segura. Mesmo assim, ela realmente é uma cabeçuda.
ㅡ Você não pode chegar assim do nada, oferecer a sua b0cetinha de ouro e acreditar que o conhece! Estou na vida dele há muito mais tempo que você!
ㅡ Sim, você está, eu não n&go. Sinceramente, eu gostaria que continuasse, mas tudo o que tem feito só o afastou ainda mais de você. E a minha “b0cetinha de ouro” não tem nada a ver com a história. Se fosse o caso, eu teria ido pra cama com ele semanas atrás. Poxa, você fica fazendo acusações, quando nós só começamos a namorar há poucos dias e…
ㅡ Espera um pouco… Isso é sério? Vocês não dormiram juntos ainda?
Eu a encaro e sinto o peso decisivo que a minha resposta pode ter. No entanto, mentir nunca foi uma opção na minha vida, não vou começar agora.
ㅡ Não, até ontem. ㅡ Vejo os lábios dela se espremerem até sumir, dando lugar aos dentes trincados. Uma lágrima escorre, borrando um pouco do rímel. Seus punhos estão cerrados e eu fico em alerta, para o caso dela querer arrebentar a minha cara. ㅡ Foi a primeira vez.
Ela praticamente se desmonta em lágrimas, cobrindo a boca com as duas mãos e andando de um lado para o outro. Fico sem saber o que fazer e olho de relance para o vidro da sala de som. Michael está conversando com Winchester, enquanto Pete está escorado na parede, com os olhos fechados e as mãos nos bolsos.
Eu preciso tentar salvar essa situação… Pela Everlasting, pelo Pete… E, principalmente, pelo Michael…
Respiro fundo, porém antes que eu possa pensar em uma forma de continuar essa conversa surreal, Dorothy se aproxima e me encara.
ㅡ A primeira vez que eu o vi, eu tinha fugido de casa. Meu padrasto estava me procurando, porque a minha mãe estava chapada e ele queria uma diversão extra. Eu não sabia para onde ir e estava chovendo muito, então me escondi atrás de uma lata de lixo em um beco, rezando para que ninguém nunca me encontrasse. Eu só tinha oito anos e já odiava todas as pessoas que eu conhecia. Então, surgiu esse garoto do nada, entrou correndo no mesmo beco onde eu estava e praticamente caiu sobre mim enquanto procurava onde se esconder. Naquela fração de segundo que nossos olhos se encontraram, eu sabia que o meu coração era dele. Então, um velho bêbado entrou no beco gritando “Michael” e o garoto me suplicou com o olhar para que eu ficasse quieta. Peguei uma caixa de papelão e joguei em cima dele para cobri-lo. Saí do meu esconderijo e despistei o velho. Foi a primeira vez que eu quis ajudar alguém, apesar de ninguém nunca ter feito nada por mim.
Eu conheço essa história, Michael me contou como eles se conheceram, porém não com essa riqueza de detalhes.
ㅡ Dorothy, eu…
Ela ergue um dedo na minha direção rapidamente e eu me calo.
ㅡ Eu não quero a sua pena, senhorita miss Burguesa… Daquele momento em diante, eu o segui por toda parte. Só era suportável estar nesse mundo, porque Michael estava nele. Conforme ficamos mais velhos, meus desejos mudaram, os dele também, porém nunca na minha direção. Ele sempre teve aquele rostinho bonito, com aquele olhar especial, e as garotas faziam fila para ele. Quando ele e o Pete decidiram montar uma banda, eu fui junto, porque era a única forma de estar perto dele, mesmo que significasse vê-lo terminar a noite nos braços de qualquer outra, menos eu.
ㅡ É, eu me lembro dessa fase dele…
ㅡ Exatamente… Aquela fase… No entanto, você surgiu, brilhante como um raio de sol e conseguiu fazer o que eu nunca consegui. Que ele parasse de galinhar e prestasse atenção em uma única mulher! Porr@, sua c®etina! Isso doeu mais do que se eu o visse na cama com três put@s! Então, realmente jamais seremos amigas, no entanto… ㅡ Ela pára um pouco para respirar fundo antes de continuar. ㅡ Eu não quero que ele se afaste de mim. Só não sei se consigo suportar ver vocês dois juntos…
Mordo minha boca e apoio os braços na cintura.
ㅡ Talvez fique mais suportável se você se apegar ao que temos em comum.
ㅡ E o que seria isso, dona espertinha?
ㅡ Que ambas queremos vê-lo feliz, não importa como. Isso não basta para você?
Ela suspira forte, com a expressão mais suave.
ㅡ Você tem jeito com as palavras…
ㅡ Mas, eu sei morder se for necessário.
Ela cruza os braços, com um sorriso um tanto quanto zombeteiro e desafiador. Acho que, finalmente, estamos chegando em um ponto comum.
ㅡ Isso eu posso ver. Quem teria coragem de ficar sozinha comigo em uma sala fechada? ㅡ Ela estica sua mão na minha direção, que eu seguro. ㅡ Uma trégua. Por ele. Mas, não pense que eu sou suscetível ao seu mel, ouviu?
ㅡ Jura que não é por causa dos meus lindos olhos?
Eu pisco várias vezes e ela acaba rindo.
ㅡ Numa realidade alternativa onde eu fosse lésbica, provavelmente. Talvez, até tentasse te roubar dele…
Ela joga um beijinho para mim e eu lhe mostro a língua, antes de sairmos da sala, ainda trocando provocações.
*Michael PoV*
A conversa entre as duas dura minutos intermináveis e Winchester me chama.
ㅡ Denver, essa situação não é aceitável. Confiei em você e o trabalho do seu grupo realmente tem muito potencial. Eu quero representar vocês, mas essa rixa entre elas pode destruir tudo. Não sou do tipo que gosta de rasgar dinheiro.
ㅡ Não se preocupe. Não importa o que aconteça, não haverá mais brigas. Se elas não se entenderem, a Dorothy está fora e contratamos outro baixista.
ㅡ Eu quero acreditar nisso, no entanto, devo ter garantias que a banda não vai se quebrar em um mês ou dois. Se vocês quatro assinarem juntos, terão que permanecer juntos até o fim. Caso contrário, eu vou cobrar caro pelo rompimento do contrato.
ㅡ Entendo... ㅡ Procuro controlar meu nervosismo, embora seja difícil. Sei o que ele implica. Olho para as duas um momento, desejando ardentemente que Amber Lee consiga dobrar aquela cabeçuda. Volto a encarar nosso produtor. ㅡ Eu te dou a minha palavra. Você não vai ter problemas.
Ele cruza as mãos ao redor do peïto, concordando silenciosamente com a cabeça. Eu quase respiro aliviado. Torno a observá-las enquanto conversam. De repente, Dorothy estica sua mão e Amber Lee a aperta. Elas sorriem uma para a outra. Ambas saem da sala e eu m@l posso acreditar no clima de brincadeira em que estão. É surreal.
ㅡ Se você me zoar, vou fazer você engolir esse seu cabelo. ㅡ Diz Dorothy, em tom de gozação.
ㅡ Nesse caso, vou escrever músicas ainda mais melosas. ㅡ Amber Lee nos encara com um sorriso triunfante. ㅡ Está tudo bem, vamos fazer a turnê.
Não sei o que conversaram, contudo parece que surtiu efeito. Encaro Dorothy, apenas para ter certeza e ela exclama:
ㅡ Bem, quando nós saímos em turnê? Tenho outras coisas para fazer com o meu tempo!
Winchester pede para um assistente trazer o bendito contrato e todos nós assinamos. Acho que nunca me senti tão eufórico em toda a minha vida.
ㅡ Há um festival de música esse final de semana, Denver. Inclusive, já inscrevi a Everlasting. Será bom para vocês sentirem como será a turnê.
Olho para Amber Lee, que parece empolgada com a notícia e sorri alegremente.
Um festival de música? Perfeito!