66 - Ou ela, ou eu

3060 Words
*Michael PoV* Estamos os quatro reunidos na sala de som do estúdio, Amber Lee, Pete e Dorothy em um sofá e eu em uma cadeira, ouvindo o álbum com o nosso produtor. Mesmo que ele não aceite o nosso trabalho, que ache insuficiente, já valeu a pena. Foi uma experiência única. Estou perdido em mim mesmo, revisando na minha mente todos os passos que tomamos, enquanto ouço a gravação que fizemos. O disco está perfeito. Procuro Amber Lee com o olhar, ela parece tão ansiosa quanto eu e quase arranca um pedaço do dedo roendo uma unha. Pego minha mente vagando em outra situação, uma em que a vejo nua na minha cama, com aquela boca tentadora no meu corpo. Tenho tantos planos… Está tudo pronto, exceto pela minha little bunny. Porém, a julgar pela forma como ela tem ficado mais à vontade comigo, acho que não vai demorar. M@l posso esperar. Dorothy não parece satisfeita com nossa troca de olhares. Eu não me importo. Ela vai ter que aceitar porque não pretendo desistir de Amber Lee. De hoje não passa. Assim que acertarmos tudo aqui, vou pegá-la pelo braço e fazê-la me ouvir. Uma nova música começa a tocar. Os acordes que compus, inspirados na tentação ruiva diante de mim, preenchem a sala. Assim como nossas vozes. Eu a observo cantarolar baixinho os versos que escreveu para mim. Eu faço o mesmo. Entramos novamente em um mundo só nosso. Ela fica alegremente surpresa ao ver que a gravei cantando comigo. ㅡ Caramba… Pete murmura, sentindo a canção. Volto minha atenção para ele e Dorothy. Ela havia concordado em dar mais espaço para Amber Lee, mesmo assim parece ferver de raiva. Eu tomo a iniciativa, antes que tudo desande. Ergo-me com as mãos nos bolsos e fico diante dos dois. ㅡ Gravamos essa música na outra noite, embora Amber Lee não soubesse de nada. ㅡ Sorrio olhando de lado para ela, que retribui. ㅡ É a música dela, sua letra e, por ser sua composição, pensei que ela merecia estar mais envolvida no álbum. Pete me encara desconcertado durante um segundo. Achei que fosse ficar chateado por eu ter decidido isso sozinho. Contudo, ele abre um sorriso empolgado. ㅡ Cara, a música é incrível! Sorrio satisfeito para ele, o que dura pouco. Dorothy se levanta e explode com tudo. Ela aponta um dedo para Amber Lee como se mirasse uma arma. ㅡ Você só pode estar brincando! Além de ser obrigada a conviver com ela, você ainda a coloca cantando no álbum? A tensão no ar se torna palpável. De relance, percebo Winchester se mexer em seu lugar. Isso não está nada bom, porém eu não pretendo ceder. Só que bater boca com ela, na frente do produtor, não é uma opção favorável. ㅡ Preciso ter um particular com os integrantes. O senhor se incomoda? ㅡ À vontade. Ele se levanta de sua cadeira arrumando o terno. No entanto, ao passar por mim, seu sussurro me deixa petrificado. ㅡ Você é o líder desse grupo, Michael. Então, lidere. Vocês estão prestes a assinar um contrato para trabalhar comigo, não para entrar em um campo de guerra. Não vou investir em uma banda que não sabe o que quer. Arrume uma solução e volte para falar comigo em dois dias. Caso contrário, não importa quão bom seja o trabalho da Everlasting, cancelaremos tudo. Ele sai e eu mergulho em um turbilhão de pensamentos conflitantes e desesperadores. Fizemos um álbum do cass&te e tudo está desmoronando de uma ho®a para a outra. Olho rapidamente para os outros membros. Demoro um pouco mais em Amber Lee, que parece tensa da cabeça aos pés. Merda! Não posso deixar que tudo acabe assim! *Amber Lee PoV* Vejo Michael respirar fundo e pedir alguns minutos para o senhor Winchester. Ele concorda e se retira, porém não antes de falar algo no ouvido dele. A expressão aterrorizada do Michael é de assustar até os meus cabelos. Fico rígida de tensão e não ouso sequer respirar. Assim que estamos só os quatro na sala, Michael tenta racionalizar com a Dorothy. ㅡ Sim. Ela está no álbum, pois merece. Fez um trabalho monstruoso, quando você deu no pé. ㅡ Essa put@ sequer consegue tocar três notas! Não é à toa que a chamam de cabeçuda… Pete tenta colocar um pouco de bom senso nela. ㅡ Pare! Isso não é verdade! Ela o ignora e continua com seu olhar ensandecido vidrado em Michael. ㅡ Acha que eu não vejo você olhar para ela como se ela fosse um tablete de açúcar? Você é apenas um de muitos caras! Suas palavras mentirosas me enchem de raiva. Vejo meu namorado trincar os dentes e cerrar os punhos. É óbvio que ele também não gostou do que ela disse. Ele sabe que é mentira. Quando ele vai abrir a boca, ela continua a disseminação de seu veneno. ㅡ Que seja! O nome dela fica no álbum, mas ela não vai com a gente na turnê! Está me ouvindo, Michael? Você não decide sozinho! É muito abuso! Felizmente, Michael tem outra opinião. ㅡ Com que direito você acha que pode fazer qualquer imposição agora? Amber Lee estava presente no dia em que fechamos esse contrato! Onde você estava? ㅡ Estávamos todos de acordo, Dorothy. Ela fica no álbum e vai com a gente na turnê. Ter o apoio do Pete e do Michael me anima e comove ao mesmo tempo. No entanto, estou chegando no meu limite. ㅡ Eu trabalhei duro para estar no álbum, então deixe seu ciúme de lado! ㅡ Dormir com Michael não te dá o direito de bancar a soberana! O quê? Michael fica put0 e rosna para o ar com os braços na cabeça. Eu já não me aguento mais. ㅡ Eu não durmo com ele, nunca o fiz! Apenas trabalhamos juntos! Quem confunde as coisas aqui e tenta impor seus caprichos é você! Tudo bem que, futuramente, pretendo dormir com ele, porém isso não vem ao caso agora e ela não precisa saber disso. Nós acabamos discutindo feio. Dorothy insiste em ser c®uel e maldosa, enquanto eu me defendo. Ela recomeça com sua ladainha, o que me deixa mais estressada ainda. ㅡ Eu acho que minha palavra tem relevância no assunto, afinal, nós formamos a banda juntos. Nós três. É muito fácil para ela chegar agora com essa conversa, depois de ter sumido e tê-los deixado na mão. ㅡ Se você realmente se importasse conosco, não teria nos deixado na merd@ no momento mais importante das nossas vidas! ㅡ Sinto muito por isso, Michael! Mas, ao contrário dessa estranha, eu faço parte da banda desde o começo! Eu só precisava de um pouco de tempo. Estava m@l e cansada de me sentir um apêndice o tempo todo. ㅡ Porr@! Quer parar de falar da Amber Lee desse jeito? Ela não é uma estranha! Fico orgulhosa do meu namorado me defendendo desse jeito, no entanto estou começando a temer o que está por vir. Pete tenta argumentar com ela da melhor forma que pode. ㅡ Que infe®no, Dorothy! Nós nos conhecemos desde a infância! Como você pôde achar isso por um segundo? ㅡ Conheço vocês dois muito bem. Logo que uma garota bonita aparece, vocês param de pensar e saem trepando com todas que se oferecem! Nesse momento, Michael olha diretamente para mim, com o desespero no rosto. Ele n&ga discretamente com a cabeça. Acho que ele está com medo que eu caia nas palavras ferinas dela… Acaricio a joia que ele me deu levemente. Meu gesto não escapa do seu olhar e ele suspira aliviado. Parece até ter ganhado energia extra para continuar essa luta com a baixista. ㅡ Pete e eu queremos que ela fique. ㅡ Eu não! Ela aponta um dedo furioso na minha direção e eu franzo a testa. Michael se aproxima dela e ela recua, tanto, que fica encurralada entre a parede e ele. ㅡ Tudo bem... Eu entendo que tenha que ter lidado com as tietes que dormimos ou que você tenha se sentido ignorada e eu sinto muito. Porém, precisa parar de levar tudo para o pessoal. Amber Lee é talentosa, o teclado dá um toque a mais nas nossas músicas e foi o que encantou o produtor. Sem isso, pode dar adeus ao contrato. A canção que ela escreveu? Ele adorou e, se você ouvisse a razão, também perceberia isso. Eu não tenho escrito nada bom há muito tempo, você sabe disso. ㅡ Não precisamos dela. Nós somos bons... ㅡ Não bons o suficiente. Confie em mim, Dorothy... Nossas músicas estão cheias de raiva, porque eu não tenho composto nada bom por anos. ㅡ Ele aponta para mim, com seu olhar repleto de ternura e admiração. ㅡ Porém, as dela estão cheias de... Todas essas coisas que as pessoas gostam. Pete tira sarro do meu namorado, rindo e articulando com a boca uma palavra que me escapa, pois o gesto da Dorothy me faz congelar no lugar. Ela agarra o braço de Michael que apontava na minha direção e puxa a manga para revelar por completo a pulseira que estava metade à mostra. ㅡ Desde quando você usa pulseira? Eu acho que já vi algo parecido… Os olhos dela recaem sobre as minhas mãos e, nessas ho®as, praguejo internamente estar de camiseta e não ter onde esconder minha pulseira. Ela me encara com um ódio flamejante. Se fosse possível, ela me queimaria viva. ㅡ Anéis iguais e pulseiras combinando? Ainda querem me convencer que não estão tr@nsando? Fala sério! Isso é tão piegas que tenho vontade de vomitar! Essa pir@nha te transformou em um imb&Cil, Michael! Só você não enxerga! Então, Michael se vira para a parede e, com um urro, dá uns três socos nela com força. Eu sei que ele prefere se machucar a bater em uma mulher, não importa o quanto esteja put0, ele já fez isso comigo, porém não posso deixar de me preocupar que ele possa ter se machucado. *Michael PoV* A dor nos meus dedos nubla a raiva que sinto agora da Dorothy. Eu inspiro fundo e aponto minha mão sangrando para ela, que sequer consegue fechar a boca de tão chocada. A frieza que emana das minhas palavras surpreende até a mim. ㅡ Você é mesquinha e maldosa… Está tão cega e obcecada, que não consegue ver o que está bem diante dos seus olhos. Eu mudei, sim, por ela, mas não para ser um imb&cil. Você não percebeu como eu tenho sido mais paciente e aberto? Até feliz? Quando foi que você me viu feliz de verdade, Dorothy? ㅡ Você… Você fica feliz no palco… Vou até Amber Lee, que está parada feito um poste, e ergo sua mão direita, colocando nossos pulsos lado a lado, exibindo nossos acessórios com orgulho. ㅡ É, eu fico sim. Porém, não é o que me completa. Amber Lee me completa. Eu a pedi em namoro e ela aceitou. Quer você goste ou não, nós somos um casal. Não estou pedindo sua bênção, Dorothy. Isso é apenas um comunicado. Assim como a participação dela no álbum da Everlasting e na turnê! Então, como um tsunami em pleno percurso, Dorothy passa no meio de nós dois, nos separando, e segue para a porta. ㅡ Eu não estou nem aí! Será ela, ou eu! Não vou assinar nada com o nome dela! Ela bate a porta ao sair e nos deixa com um horrível impasse nas mãos. Amber Lee se deixa cair no sofá ao lado do Pete, expulsando todo o ar dos pulmões, completamente esgotada. Vou até ela e seguro seu rosto em minhas mãos. ㅡ Sinto muito, little bunny. Eu não queria que ela soubesse dessa forma e te atacasse daquele jeito estüpido. Vou falar com ela e acertar as coisas. ㅡ Viro-me para o meu amigo. ㅡ Pode levá-la em casa, Pete? ㅡ Eh… Claro, parceiro. Mas… Quando é que você ia me contar que estavam namorando? Fico mudo por um momento. Agora que o sangue está esfriando, é que me dou conta do que aconteceu e que o Pete está mais perdido que cego em tiroteio. ㅡ Foi m@l, parceiro. Eu queria primeiro ter contado para Dorothy antes de tudo, mas, sim, eu e Amber Lee estamos juntos. Portanto, deixe a minha namorada segura em casa, enquanto eu tento por juízo naquela cabeçuda. Ele ri e bate continência. ㅡ Pode deixar. Eu aceno com a cabeça, dou um selinho na minha gata e saio apressadamente atrás daquela idïota. Na rua, olho de um lado para o outro, tentando encontrá-la na multidão de transeuntes. Puxo o celular do bolso da calça e disco seu número. Vamos lá... Atenda... Depois do quinto toque, caixa postal. Resolvo caminhar, enquanto tento uma vez atrás da outra contato com seu celular. Quando passo por uma esquina, eu a vejo encostada na parede de um prédio, observando o aparelho nas mãos. Você não vai me ignorar de novo! Eu me aproximo, seguro firmemente seu braço e ela acaba se assustando. Quase deixa o celular cair. ㅡ Que merd@, Michael! Solte-me! ㅡ Não até você me escutar! Você não percebe que está destruindo as chances da banda com essa sua teimosia? ㅡ Não sou eu quem está tentando colocar uma desqualificada para tocar com a gente só porque está dormindo com ela! ㅡ Isso é ridículo e você sabe! Ela sacode o braço violentamente e se liberta de mim, me encarando friamente. ㅡ Quer t®epar com ela? Pois bem! Mas, faça isso longe da banda, longe de mim... Não pode ter nós duas. Eu fico completamente aturdido. ㅡ Dorothy, por favor... Não me faça ter que escolher entre vocês duas... ㅡ Eu já te disse! Ou ela, ou eu! Ela gira nos calcanhares e se afasta a passos pesados, depois de despejar sua sentença sobre mim. Passo as mãos pelo rosto e as descanso na nuca, olhando para o céu noturno. Volto para onde estacionei meu carro e sigo para casa. Entro no apartamento, jogando as chaves, carteira e celular sobre a mesa de centro, deitando-me de costas no sofá e olhando para o nada. Como eu faço para resolver essa merd@? Decido comer alguma coisa e vou até a cozinha por fim. Faço um sanduíche com pasta de amendoim e queijo. Observo a faca, quando a repouso sobre a tábua, e rio para mim mesmo quando me lembro da bagunça daquela noite. O toque do meu celular ecoa assim que termino meu lanche. Saco! Eu resmungo um "Alo" ao atender sem olhar para a tela. ㅡ Oi… Ouvir a voz dela me traz um certo conforto. ㅡ Já está sentindo a minha falta? ㅡ Tanto quanto a pobre vítima de sífilis sente falta da doença. Eu começo rir e me jogo no sofá. ㅡ Muito poético, Amber Lee. Como sempre. ㅡ Eu poderia te escrever uma música sobre isso se quiser. Prefiro quando escreve palavras de amor para mim. ㅡ Quem sabe… Fico um tempo em silêncio, ela também. Apesar da brincadeira, sei que ela ligou porque está preocupada. Deve estar querendo saber como foi minha conversa com a Dorothy. Eu sequer sei o que dizer. A única coisa que eu sei, é que não vou deixá-la na mão. ㅡ Estou te atrapalhando? Você está ocupado? ㅡ Não, acabei de chegar. Sinto muito pelo o que aconteceu hoje, little bunny. Não imaginei que a Dorothy fosse enlouquecer daquele jeito. Mas, está tudo bem, vamos encontrar uma solução. ㅡ É… ㅡ Eu pinço meus lábios de ansiedade e passo uma mão pelos cabelos. ㅡ Por que não me disse que estava gravando? ㅡ Eu não tinha certeza se você cantaria se eu te avisasse. ㅡ Muito obrigada, foi um presente incrível... Eu me senti meio esquisita. ㅡ Ouvindo sua voz ou suas palavras? ㅡ As duas coisas, mas eu amei você ter cantando minha música. Tenho certeza que amou escrevê-la também. ㅡ Eu gostei de cantá-la, little bunny. ㅡ Na verdade, eu amei. Não vou ceder aos caprichos daquela cabeçuda. ㅡ Não se preocupe com a Dorothy, vamos dar um jeito e arrumar essa confusão. O que eu disse mais cedo foi sincero. Seu talento trouxe algo novo para a banda. ㅡ Acho que você não teve muito sucesso em convencê-la hoje, não é? ㅡ Não... Ela é teimosa, porém eu também sou, então... Faço uma pausa, sem saber o que mais dizer para confortá-la. ㅡ Posso... Eu posso passar aí amanhã depois do trabalho? ㅡ Sua pergunta me pega de surpresa e fico sem palavras. ㅡ Só para... Para tocar... ㅡ Sim, venha. Eu desligo como se o telefone tivesse queimado a minha mão. Um milhão de coisas se passaram na minha cabeça com o pedido dela, a maioria termina em beijos e s&xo. Não estrague tudo sendo afobado, Michael... Nossa ho®a vai chegar… No trabalho pela manhã, troquei uma dezena de e-mails com o chefe de polícia local, tudo de forma anônima. Eu tinha hackeado câmeras de segurança de lugares públicos e privados, inclusive de três drones que estavam sobrevoando Hell's Kitchen na ho®a da explosão. ㅡ Como estamos? Eu não estava de fones, pois sabia que ele viria mais cedo ou mais tarde. Viro-me para a porta e vejo McGregor entrar e se aproximar da minha mesa com as mãos nos bolsos. Ele parece um pouco exausto. Não deve ter dormido muito desde o incidente. ㅡ Fiz como me pediu e enviei tudo o que encontrei para o seu contato na polícia. O carro-bomba saiu de um armazém na região portuária. A placa é fria, como eu esperava. ㅡ Está certo. ㅡ Ethan, isso está ficando perigoso. Derrubaram um prédio, sem se importar se isso atingiria ou não outras pessoas. ㅡ Dezessete. Respiro fundo e fecho os olhos um momento. É o número de mortos dessa tragédia. Por pouco, ele e sua secretária não fizeram parte dessa triste realidade. ㅡ Como ela está? ㅡ Abalada ainda. ㅡ Acho que você também. Ele me dá um sorriso cansado, porém sinceramente determinado. ㅡ É preciso mais que derrubar um prédio na minha cabeça para me parar, Michael. Avise-me se tiver mais alguma coisa. Eu apenas confirmo com a cabeça em silêncio e ele sai. Volto a observar a tela do computador e lembro que agora faltam apenas duas camadas de segurança para ultrapassar. Eu vou pegar vocês, desgr@çados…
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