*Michael PoV*
O tempo poderia passar mais devagar quando se tem tanta coisa para fazer. McGregor veio à minha sala no final do expediente para conversar. Expliquei que não pude dar muita atenção ao assunto do Grupo MEI por causa da falha no servidor. A rede da empresa tem tido pequenos colapsos desde então. Gosto de conversar com ele. Temos opiniões semelhantes, apesar de nosso modo de agir diferir um pouco. Enquanto ele é controlado e refinado, eu posso explodir quando a coisa fica quente. Nunca o vi perder o controle.
Quando me dou conta, estou atrasado para a apresentação. Despeço-me dele, que ainda tem alguma reunião. Nessas ho®as, não tenho a menor inveja dele.
Passo em casa rapidamente para tomar uma ducha e trocar de roupa. Pete já havia estado aqui durante a tarde para levar os equipamentos, o que já foi um adianto. Do lado de fora da porta do meu quarto, encontro um bilhete do meu amigo. O conteúdo me faz sorrir.
“Deixei algumas coisas na sua geladeira. Coma algo antes de vir, não quero te ver caindo no palco. Pete.”
*Amber Lee PoV*
O que eu devo vestir?
Fico olhando meu guarda roupa, sem a menor noção do que usar. Não tenho nada glamouroso, na verdade tenho me negligenciado nesse ponto.
Vou marcar um dia com a Lauren para fazer compras.
Eu gosto muito de verde, então opto por um vestido nessa cor, de saia assimétrica solta e mangas curtas. O discreto decote em “V” realça meus s&ios e eu me dou uma olhada no espelho, satisfeita com o resultado. Passo uma maquiagem leve e coloco os saltos.
Lauren me pega de carro. Rico havia ido mais cedo para ajudar o Pete com os equipamentos, já que Michael ia ficar preso no trabalho um pouco além do horário.
ㅡ Uau, amiga! Caprichou, heim? Isso tudo é para o Michael?
Eu fico roxa de vergonha e dou um sorriso sem graça para ela, enquanto puxo o cinto de segurança.
Provavelmente, Rico já fez o favor de contar que almoçamos com Michael e ele nos convidou pessoalmente para o show. Com certeza deve ter aumentando os detalhes.
ㅡ Isso tudo é para mim, Lauren. Se o Michael vai perceber ou não, o problema é dele, não meu.
ㅡ Gostei de ver a atitude. Isso mesmo! Faça ele suar e comer na sua mão!
Eu dou risada e olho pela janela um instante.
ㅡ Você é terrível… Quem disse que quero que ele coma na minha mão?
ㅡ No meio das suas pernas, talvez?
ㅡ Lauren!
Ela dá uma alta gargalhada e acabo rindo com ela. Rico nos encontra na porta do pub e seguimos para dentro. Pegamos lugares nos bancos do bar, onde Pete e Dorothy já se encontram. A garota me olha com cara de nojo e eu suspiro. Pedimos bebidas e, do nada, ela solta uma provocação.
ㅡ Você veio atrás de quem? Do estivador, do baterista ou do vocalista?
Rico e Lauren torcem o rosto para ela e Pete suspira desanimado. Eu ergo uma sobrancelha m@ldosa na direção dela.
ㅡ Dorothy, certo? Na verdade, estou aqui pela música. O s&xo deixo para quem estiver a fim.
Seus dentes trincam e ela bate com o copo no balcão com tanta força que quase o quebra.
ㅡ Escute aqui, sua piriguete…
ㅡ Não, escute aqui você! ㅡ Eu me viro para ela e inflo o meu peito. Já estou farta dessa louca descontar suas frustrações em mim de forma gratuita. ㅡ Não entendo qual é o seu problema comigo, porém não pense que vou ficar aqui calada, enquanto você acha que pode pisar em mim ou no meu amigo. Seja lá o que tenha usado, queridinha, é melhor dobrar a quantidade porque não está te deixando feliz!
Ela urra alto, jogando exageradamente a cabeça para trás, o que chama a atenção de todo mundo no lugar para nós. Noto o barman parar de secar um copo e Rob ficar de boca aberta. Pete, Rico e Lauren ficam sem graça e eu não entendo a razão.
ㅡ Sua v@dia nojenta! Vai a merd@!
Ela sai praticamente soltando fumaça pelas orelhas e some no corredor que leva para os fundos do palco. Meus três acompanhantes suspiram em uníssono e eu cruzo os meus braços.
ㅡ O que está acontecendo? Foi ela quem começou! Por que, de repente, me sinto como a vilã da história?
Pete passa a mão pelos cabelos loiros, bagunçando-os um pouco.
ㅡ Você não é nenhuma vilã, Amber Lee. A Dorothy sempre foi muito difícil de lidar. Ela tem muitos vícios, inclusive drogas. Michael é o único que ainda consegue manter ela na linha, porém até ele está perdendo as esperanças. Nós temos medo que ela faça uma besteira qualquer dia.
Eu nem sei o que dizer. Deveria ter dito outra coisa, mas tive que mandar uma drogada usar mais droga. Que mancada…
ㅡ Sinto muito, eu não sabia… Eu…
Lauren me abraça pelos ombros, tentando me confortar do meu embaraço.
ㅡ Tudo bem, querida. A Dorothy realmente é intragável, fora que ela tem um ciúme doentio do Michael. Ele nunca retribuiu, mas ela é obcecada por ele. Você é nova no grupo e ela te viu como uma ameaça. Vai passar.
O assunto muda para a Everlasting, porém minha mente não acompanha. Principalmente, quando vejo Michael entrar no pub e seguir disparado para o camarim se arrumar. Seus olhos fixam em mim enquanto caminha até ele sumir de vista. Havia um brilho alegre dentro deles. Eu suspiro frustrada.
Seja lá o que eu imaginei que pudesse acontecer entre nós, estou começando a achar que não é uma boa ideia. Essa Dorothy seria capaz de cortar o meu pescoço por causa dele. É melhor tirar qualquer esperança do meu peito e me afastar dele.
*Michael PoV*
Ao chegar no pub, entro e sigo rapidamente para o camarim. Consigo ver meu baterista, Lauren, Rico e Amber Lee no balcão do bar. Não paro para falar com eles por estar atrasado, no entanto, meu olhar contente se mantém preso nela até onde posso.
Ela está linda nesse vestido…
Quando entro no camarim, dou de cara com a Dorothy. Ela funga e passa as mãos no rosto de forma rápida e foge do meu olhar. Conheço esse comportamento. Vou em sua direção e seguro seu queixo, obrigando-a a me encarar. Seu nariz está vermelho, porém sua pele está pálida. Seus olhos parecem perdidos em algum mundo distante. O cheiro do álcool exala de seu corpo.
ㅡ Porr@, Dorothy! Você já está chapada?
ㅡ Não enche! ㅡ Ela se solta de mim e vai para a porta. ㅡ Cuide da sua vida, Michael!
ㅡ Vou falar com o Rob e cancelar a apresentação.
Finalmente tenho sua atenção e ela parece desesperada.
ㅡ Por quê?
ㅡ Não é óbvio? Como você pretende tocar nesse estado?
ㅡ Estou bem, posso tocar! Eu juro! Por favor, Michael... Preciso disso...
Lágrimas surgem em seus olhos e eu suspiro para o alto. Não suporto vê-la assim.
ㅡ Você se garante?
ㅡ Sim... Claro!
ㅡ Está certo. ㅡ Ela sorri e me abraça forte. Quando ela deixa cair a máscara da grosseria, consegue ser até adorável. Retribuo seu abraço e passo uma mão por seus cabelos. ㅡ Dorothy, você precisa de ajuda...
ㅡ Você e a música são toda ajuda que preciso...
Ela ergue seu rosto e o aproxima do meu. Lá vamos nós de novo, pois sei o que ela quer fazer. Infelizmente, não posso retribuir. Seguro-a pelos ombros e a afasto gentilmente. Ela fica decepcionada com minha recusa e eu tento contornar a situação.
ㅡ Dorothy, você sabe que é como uma irmã caçula para mim. Pode contar comigo para o que precisar. Fico preocupado quando você se droga e bebe desse jeito.
ㅡ Já disse que estou bem! Vá para o infe®no você e sua ajuda idïota!
Ela se retira, bufando de raiva.
Não sei mais o que fazer por ela. Tenho medo que o pior possa acontecer, como foi com a minha mãe.
Sacudo a cabeça para me livrar dos pensamentos horríveis e tento me concentrar. Tenho uma apresentação. É nisso que preciso pensar.
*Amber Lee PoV*
Pete vai embora para se unir a Michael e Dorothy nos bastidores. Não demora muito, os três surgem no palco, fazendo o que fizeram na última vez que os vi. Checando e afinando instrumentos, interagindo com o público. Exceto a Dorothy. Ela parece um peixe fora d'água e se mantém em um canto, agarrada ao seu baixo. De vez em quando, ela olha de soslaio para Michael. Parece apavorada. Eu me pergunto o que teria acontecido nos bastidores.
Talvez, Pete tenha comentado sua grosseria conosco e Michael tenha lhe dado um esporro. Eu deveria ficar satisfeita com isso, no entanto só consigo sentir muita pena.
As luzes diminuem e o show começa. Vou com Rico e Lauren para a beirada do palco. Como na outra vez, me vejo arrebatada por esse homem, que sabe muito bem o que faz lá em cima.
É duro admitir, porém ele é incrível.
Não consigo evitar o sorriso toda vez que ele se aproxima de onde estou e canta como se fizesse uma serenata só para mim. Há muita gente ao redor, no entanto sua atenção é toda minha.
Se ele está fazendo charme para me conquistar, não vou negar, está dando certo. Quem não se derrete por uma serenata? Principalmente, quando o intérprete é tão competente.
Quando o show termina, eu permaneço ali parada, observando Michael interagir com alguns fãs. Não estou esperando que ele faça o mesmo comigo, não sou uma tiete. Apenas não consigo tirar meus pés do lugar. Rico tenta me levar para o bar e, eu só o faço quando Michael olha na minha direção e joga uma piscadela que quase faz o meu coração parar. É quando percebo que estou caindo em sua teia. Aceno discretamente com a cabeça para ele e vou para o bar. Os integrantes da Everlasting saem do palco e toda minha atenção agora é dos meus amigos.
ㅡ Amiga, ele não tirou os olhos de você.
Finjo que não dou importância e luto fortemente contra o sorriso que tenta se apossar do meu rosto.
ㅡ Impressão sua, Lauren. Você e Rico estavam bem ao meu lado. Ele só ficou olhando para onde havia rostos conhecidos. É um recurso muito usado por artistas para quebrar o nervosismo.
Os dois se entreolham e dispensam com uma careta minha explicação esfarrapada.
ㅡ Michael faz isso há anos, ojitos. Medo de palco é algo com o qual ele já aprendeu a lidar. Além do mais…
Ele continua falando mais alguma coisa, porém sua voz desaparece quando vejo os memb®os da banda retornarem, já com outras roupas, e se sentarem em uma mesa. Garotas se jogam sobre Pete e Michael e um nó se forma no meu estômago. Não consigo tirar meus olhos dele e, entre autógrafos e selfies, os dele procuram os meus. Michael ainda parece agitado e seca o suor do pescoço com um guardanapo.
Como eu queria ser aquele pedaço de papel…
Ele pega sua garrafa de bebida e estende levemente na minha direção, como que propondo um brinde. Eu retribuo automaticamente e bebemos ao mesmo tempo.
A que será que ele brindou?
De repente, uma garota se joga em seu colo, agarra seu rosto e o beija na boca. Ele parece chocado por um segundo, mas depois retribui o beijo de forma tão fervorosa, que é até obsceno. Viro meu corpo para o bar e apoio meus braços no balcão. Uma revolta enorme embrulha o meu estômago.
O que você esperava, Amber Lee? Está na ho®a de parar de fantasiar com ele. Não vale a pena.
*Michael PoV*
Como sempre, me entrego de corpo e alma à música e ao show. Agradeço aos céus que a Dorothy esteja conseguindo tocar. Fiquei em dúvida por um momento se ela seria capaz.
Amber Lee sorri da plateia para mim diversas vezes. Isso desperta um calor inexplicável no meu peito. Então, me pego dando o máximo de atenção para ela, algo que não costumo fazer, pois normalmente sou bem imparcial. É perturbador perceber o quanto ela me encanta.
As fãs estão particularmente inquietas essa noite. Assim que saímos dos bastidores e nos sentamos para beber algo, elas pousam ao nosso redor, como moscas sobre um pão doce. No caso, eu e Pete somos os pães. Dou a elas a atenção que tanto desejam. Elas lotam nossas apresentações, é o mínimo que posso fazer para retribuir.
Enquanto seco o suor do pescoço com alguns guardanapos, percebo os olhares que Amber Lee me dá. Ela tenta disfarçar a todo custo, mas eu vejo e adoro seu interesse. Pego minha bebida e ofereço um brinde a essa ruiva tentadora. Ela retribui meu gesto cordialmente.
Um brinde a nós e a todos os momentos maravilhosos que teremos.
De repente, uma fã se joga no meu colo e me beija na boca. Houve um tempo em que eu tiraria o maior proveito da situação. Contudo, cada vez mais, esse tipo de assédio tem me deixado decepcionado, pois não é verdadeiro. Mesmo que fosse, eu não estou interessado em ninguém mais além de Amber Lee.
Fecho os olhos e retribuo o beijo. Foi para isso que ela veio. Beijar a fantasia dela e talvez conseguir algo mais no final da noite. Não importa. O rosto que vejo em minha mente é o daquela ruiva que está no bar com meu amigo. É ela quem imagino estar beijando nesse momento. O beijo que nunca trocamos, no entanto me persegue ardente como brasa.
Ouço um urro furioso e abro meus olhos para me deparar com o rosto enraivecido da Dorothy, apontando um dedo na minha direção.
Essa não...
ㅡ M@ldição! Estou realmente farta disso! Não estamos em um bordel! Merd@! Você não pode fazer isso em outro lugar? ㅡ Eu a encaro duramente. ㅡ Estou cansada de tocar nessa espelunca! Estou cansada de aguentar você e essas cadelas no cio! Não é para isso que faço música!
ㅡ Calma, Dorothy. Você não tem o direito de dizer essas coisas. Devo lembrar que é graças às fãs e ao dono dessa “espelunca” que podemos tocar.
Pete não poderia ter dito melhor. Resumiu de forma educada todos os meus pensamentos.
ㅡ Não estou nem aí! Não é para elas que eu toco!
Cutuco a tiete assustada no meu colo e ela se afasta. Levanto-me e me aproximo da minha baixista com um olhar quase assassino. Sabia que ela acabaria explodindo em algum momento, pena ter sido assim, em público. Isso me irrita profundamente. Não pela vergonha, mas pela falta de respeito com as fãs e com o dono do lugar que nos dá essa chance de fazer o que amamos.
ㅡ Já chega... ㅡ Praticamente rosno por entre os dentes, meus músculos estão todos tensos, apesar de estar tentando manter a calma e evitar um escândalo maior. Temos uma apresentação importante em poucos dias e é nisso que me agarro para tentar trazê-la de volta à razão. ㅡ Nós vamos abrir o show do Dream Theater em breve. Você sabe disso. É uma oportunidade incrível, então pare de se comportar como uma criança, porr@!
Confesso que não sou muito bom em manter a calma. Sei ser frio, porém “falta de tato” é meu nome do meio.
ㅡ Você não entende? Quer saber? Vai se fode®, Michael! Já tive o suficiente dessa porcaria! Não conte comigo!
O quê?
Ela mostra o dedo do meio para mim e vai embora, como um furacão que destrói tudo pelo caminho. Realmente foi o que ela fez.