Amara ficou imóvel na cama.
O quarto estava quase totalmente escuro, iluminado apenas pela luz fraca da lua que atravessava a janela. O gato preto continuava ali, sentado do lado de fora, com os olhos brilhando como duas pequenas chamas.
Toc.
Toc.
Ele arranhou o vidro novamente.
O som ecoou no silêncio da casa.
Amara sentiu o coração bater mais rápido.
— Isso… isso não é possível — sussurrou para si mesma.
Ela lembrava perfeitamente do que tinha escrito no diário. Era apenas uma pequena história, um começo simples para um conto que talvez continuasse outro dia.
Mas o gato.
Ele estava exatamente como na história.
Preto.
Olhos brilhantes.
Sentado na janela.
Observando.
Amara respirou fundo e se levantou devagar da cama. Seus pés tocaram o chão frio enquanto ela caminhava lentamente até a janela.
O gato não se moveu.
Ele apenas a observava.
De perto, Amara percebeu que seus olhos eram amarelos, intensos, quase luminosos.
— Você… é só um gato — murmurou ela.
Mas no fundo, alguma coisa dizia que aquilo não era tão simples.
Ela abriu um pouco a janela.
O gato inclinou a cabeça, como se estivesse esperando permissão.
Amara hesitou por alguns segundos.
Então abriu mais.
Imediatamente o gato saltou para dentro do quarto com um movimento ágil e silencioso.
Ele caiu no chão sem fazer barulho algum.
Amara deu um pequeno passo para trás.
O gato caminhou calmamente pelo quarto, olhando ao redor como se estivesse explorando um território novo.
Depois parou.
Virou-se para ela.
E soltou um miado baixo.
— Ok… isso está ficando estranho — disse Amara, passando a mão pelo cabelo.
O gato caminhou até a escrivaninha.
E pulou sobre ela.
Foi então que Amara percebeu algo que fez seu estômago se contrair.
O diário.
Ele estava aberto.
Ela tinha certeza absoluta de que o havia fechado antes de dormir.
Mesmo assim, ali estava ele.
Aberto.
Amara se aproximou devagar.
O gato sentou ao lado do livro, enrolando o r**o ao redor do próprio corpo.
Parecia… proteger o diário.
Ou talvez guardá-lo.
Amara olhou para a página.
Seu coração disparou.
Havia novas palavras escritas ali.
Palavras que ela não lembrava de ter escrito.
A caligrafia era estranhamente parecida com a dela… mas ao mesmo tempo parecia diferente.
Mais irregular.
Mais viva.
Ela leu lentamente:
"O gato encontrou o caminho até o quarto da garota.
Ele não era apenas um visitante.
Ele era o primeiro sinal de que as histórias estavam despertando."
Amara sentiu um frio subir pela coluna.
— Eu… não escrevi isso.
O gato levantou os olhos para ela.
Miou novamente.
— Você viu alguém entrar aqui? — perguntou ela, nervosa.
Claro que aquilo era ridículo.
Era um gato.
Ele não podia responder.
Mesmo assim, por um segundo, Amara teve a estranha sensação de que ele entendia tudo.
Ela tocou a página do diário.
A tinta ainda parecia fresca.
Como se tivesse sido escrita há poucos segundos.
— Isso não faz sentido — murmurou.
Ela pegou a caneta que estava sobre a mesa.
Ficou olhando para o papel.
Se aquilo realmente estivesse acontecendo…
Então talvez…
Talvez ela pudesse testar.
Amara respirou fundo e escreveu uma nova frase.
"O gato se aproximou da garota e se deitou ao lado dela."
Ela parou.
Esperou.
Nada aconteceu.
Amara riu nervosamente.
— Viu? Eu sabia que era só coincidência.
Mas naquele mesmo instante o gato pulou da mesa.
Ele caminhou lentamente até a cama.
Saltou para cima do colchão.
E se deitou exatamente ao lado do travesseiro.
Amara ficou completamente paralisada.
— Não… — sussurrou.
Seu coração batia tão forte que parecia ecoar no quarto.
Ela voltou correndo para a mesa.
Olhou novamente para o diário.
As palavras que ela tinha escrito ainda estavam ali.
Mas havia algo novo.
Uma frase aparecia lentamente abaixo.
Letra por letra.
Como se uma mão invisível estivesse escrevendo.
Amara observava sem conseguir respirar.
As palavras se formaram devagar:
"Agora ela começa a entender."
Amara deu um passo para trás.
— Quem está escrevendo isso?
Silêncio.
Apenas o vento lá fora.
Ela virou as páginas rapidamente.
Todas estavam vazias.
Exceto a primeira.
E aquela.
De repente o gato miou alto.
Amara olhou para ele.
Ele estava olhando para a janela.
Fixamente.
O vento lá fora parecia ter ficado mais forte.
As árvores se agitavam.
Sombras se moviam na rua.
Amara voltou os olhos para o diário.
Outra frase estava surgindo.
Mais devagar.
Mais irregular.
Como se fosse mais difícil de escrever.
"Mas ela ainda não sabe…"
A tinta parou.
Amara engoliu seco.
— Não sabe o quê?
Por alguns segundos nada aconteceu.
Então as últimas palavras apareceram.
"…que algumas histórias não podem ser apagadas."
Um arrepio percorreu o corpo inteiro de Amara.
Ela fechou o diário rapidamente.
O gato pulou da cama e voltou para a mesa.
Sentou ao lado do livro.
Observando.
Como se estivesse esperando.
Amara sentou na cadeira lentamente.
Seu cérebro tentava encontrar uma explicação lógica.
Talvez alguém estivesse pregando uma peça nela.
Talvez ela estivesse sonhando.
Ou talvez…
Talvez o aviso da velha do mercado fosse sério.
"Cuidado com o que você escreve."
Amara olhou para o diário fechado.
E pela primeira vez sentiu medo daquele objeto.
Ela respirou fundo.
— Amanhã eu vou voltar ao mercado.
O gato piscou lentamente.
Como se aprovasse a ideia.
Amara se levantou e apagou a luz do quarto.
Mas demorou muito tempo para conseguir dormir.
Porque toda vez que fechava os olhos…
ela tinha a sensação de que algo observava o quarto.
Não apenas o gato.
Mas algo maior.
Algo escondido nas sombras.
***
Amara virou-se na cama pela décima vez.
O sono simplesmente não vinha.
O quarto estava mergulhado na escuridão, mas seus olhos já tinham se acostumado com a pouca luz que entrava pela janela. As sombras dos móveis se alongavam pelas paredes, criando formas estranhas que pareciam se mover sempre que ela piscava.
O gato continuava sobre a escrivaninha.
Sentado.
Imóvel.
Observando o diário.
Aquilo era o que mais a incomodava.
Não era normal um gato ficar tão quieto por tanto tempo. Nem mesmo quando dormiam eles ficavam assim, tão atentos, tão… vigilantes.
— Você é estranho, sabia? — murmurou Amara, virando o rosto em direção à mesa.
O gato moveu apenas as orelhas.
Como se tivesse ouvido perfeitamente.
Amara soltou um suspiro e puxou o cobertor até o queixo.
Ela tentava convencer a si mesma de que tudo tinha uma explicação lógica.
Talvez ela tivesse escrito aquelas frases sem perceber.
Talvez estivesse sonâmbula.
Ou talvez alguém tivesse entrado no quarto enquanto ela dormia.
Mas nenhuma dessas ideias parecia realmente convencer seu cérebro.
Seu olhar acabou voltando para o diário.
Mesmo fechado, ele parecia… diferente.
Como se houvesse algo vivo dentro dele.
Algo esperando.
Algo respirando lentamente entre aquelas páginas antigas.
Amara balançou a cabeça, tentando afastar aquele pensamento absurdo.
— É só um livro — disse baixinho.
Mas naquele mesmo instante o gato levantou-se.
Amara franziu a testa.
Ele caminhou lentamente sobre a mesa.
Depois… tocou o diário com a pata.
Tap.
O som foi suave, mas no silêncio do quarto pareceu muito mais alto.
Amara sentou-se na cama imediatamente.
— Ei… não mexe nisso.
O gato não a olhou.
Ele apenas continuou encarando o livro.
Tap.
Mais uma vez.
A pata bateu suavemente sobre a capa.
Amara ficou olhando, sem saber exatamente o que fazer.
Então algo aconteceu.
Muito devagar… o diário se abriu.
Sozinho.
A capa levantou-se lentamente, como se uma mão invisível estivesse folheando o livro.
As páginas começaram a virar.
Frrrrrr…
O som seco do papel antigo ecoou pelo quarto.
Amara sentiu o coração acelerar novamente.
— Não… não… não…
Ela se levantou da cama.
Deu alguns passos hesitantes até a mesa.
As páginas continuavam virando.
Uma.
Outra.
Outra.
Até parar.
Exatamente na página onde ela tinha escrito antes.
Mas agora havia algo diferente.
A tinta nas palavras parecia mais escura.
Mais profunda.
Como se estivesse se espalhando lentamente pelo papel.
Amara aproximou o rosto.
Então viu.
Uma nova frase estava surgindo.
Devagar.
Letra por letra.
Como antes.
Mas desta vez a caligrafia parecia mais irregular.
Mais… agressiva.
Ela observou, sem conseguir se mover.
As palavras apareceram:
"A garota acredita que controla a história."
Amara engoliu seco.
A frase continuou.
"Mas a história também começa a observar a garota."
Um calafrio percorreu seu corpo inteiro.
Ela olhou rapidamente ao redor do quarto.
Nada.
Apenas o vento do lado de fora.
E o gato.
Sentado ao lado do diário.
Observando tudo.
Outra linha começou a aparecer no papel.
Mais lenta.
Mais pesada.
Como se exigisse esforço.
"E nas sombras…"
A tinta parou por um segundo.
Depois continuou.
"…algo começa a despertar."
Amara fechou o diário com força.
BAM.
Seu peito subia e descia rapidamente.
— Chega.
O gato miou baixo.
Amara apoiou as mãos na mesa, tentando se acalmar.
Ela não sabia o que estava acontecendo.
Mas tinha certeza de uma coisa agora.
O diário não era normal.
E aquela noite…
era apenas o começo de algo muito maior.
Do lado de fora da casa, o vento soprou mais forte.
As árvores balançaram.
E por um breve instante, uma sombra estranha pareceu atravessar a rua.
Alta.
Disforme.
Como se tivesse sido desenhada pela própria escuridão.
Mas Amara não viu.
Ela estava ocupada demais olhando para o diário.
Sem perceber que em algum lugar dentro das páginas daquele livro antigo…
Uma nova história começava a nascer.