Capítulo 3

1048 Words
O sol da manhã entrou lentamente pela janela do quarto de Amara, iluminando a escrivaninha onde o diário descansava. A luz tocava a capa escura como se tentasse revelar algum segredo escondido ali. Amara acordou devagar. Por alguns segundos ela ficou olhando para o teto, tentando lembrar do que havia acontecido na noite anterior. Então lembrou. O gato. As palavras que apareceram sozinhas. O diário abrindo. Seu coração acelerou imediatamente. Ela sentou-se na cama e olhou para a mesa. O gato ainda estava ali. Enrolado ao lado do diário, dormindo tranquilamente. — Você ainda está aqui… — murmurou Amara. O gato abriu um olho lentamente, como se tivesse entendido. Ele espreguiçou-se e levantou a cabeça. — Ok… então isso não foi um sonho. Amara levantou-se e caminhou até a escrivaninha. O diário estava fechado. Ela colocou a mão sobre a capa. Ainda estava fria. Exatamente como no dia anterior. O gato observava cada movimento dela. — Se isso for algum tipo de brincadeira… eu vou descobrir — disse ela, sentando-se na cadeira. Ela abriu o diário. As páginas estavam exatamente como tinham ficado na noite anterior. A história do gato. As frases que apareceram sozinhas. "A garota acredita que controla a história." "Mas a história também começa a observar a garota." "E nas sombras… algo começa a despertar." Amara sentiu um arrepio ao reler aquilo. Ela pegou a caneta. Ficou olhando para a página por alguns segundos. — Vamos testar uma coisa — disse ela. O gato inclinou levemente a cabeça. Amara respirou fundo. Se o diário realmente tivesse algum tipo de poder… então ela poderia provar. Ela começou a escrever: "Na cozinha da casa, uma maçã vermelha caiu da mesa e rolou pelo chão." Ela parou. O quarto ficou em silêncio. Nada aconteceu. Amara franziu a testa. — Claro… era bom demais para ser verdade. Mas então… TUM. Um barulho veio da cozinha. Amara congelou. — Não. Outro som. Algo rolando no chão. Devagar. Ela levantou-se da cadeira lentamente. Seu coração começou a bater mais forte. — Isso… isso é coincidência. Ela caminhou até a porta do quarto. Abriu devagar. O corredor estava vazio. Silencioso. Ela seguiu até a cozinha. E parou imediatamente. No chão… uma maçã vermelha estava parada no meio do piso. Como se tivesse acabado de rolar. Amara sentiu o estômago gelar. Ela olhou para a mesa. O prato de frutas estava lá. Mas uma maçã claramente faltava. — Isso não pode estar acontecendo… Ela pegou a maçã. Estava fria. Real. Pesada. Amara voltou correndo para o quarto. O gato ainda estava sobre a mesa. E o diário… estava aberto novamente. Amara aproximou-se lentamente. Uma nova frase estava sendo escrita na página. A tinta aparecia devagar. Como se uma mão invisível estivesse escrevendo. "A garota começa a entender." Amara segurou a borda da mesa com força. — Quem está fazendo isso? Silêncio. A frase continuou. "Cada palavra cria um eco no mundo." Ela sentiu um arrepio subir pelo corpo. — Então… é verdade. Ela olhou para a caneta. Se aquilo realmente funcionava… então ela poderia escrever qualquer coisa. Qualquer coisa. Mas algo a fez hesitar. O aviso da velha no mercado voltou à sua mente. "Cuidado com o que você escreve." Amara fechou o diário devagar. — Eu preciso saber mais sobre você. O gato miou baixo. Como se concordasse. Amara pegou o celular e sentou na cama. Começou a pesquisar: “diários mágicos” “objetos amaldiçoados” “livros que realizam desejos” Nada. Apenas histórias fictícias e lendas. Nada que explicasse aquilo. Ela largou o celular. — Isso é inútil. O gato pulou da mesa e caminhou até ela. Subiu na cama e sentou-se ao seu lado. Amara suspirou. — Pelo menos você parece gostar de mim. O gato piscou lentamente. Amara olhou novamente para o diário. Algo a puxava de volta. Uma curiosidade impossível de ignorar. Ela levantou-se e voltou até a mesa. — Só mais um teste. Ela abriu o diário. Pegou a caneta. Pensou por alguns segundos. Então escreveu: "Um vento frio atravessou o quarto." Ela parou. Esperou. Nada. — Viu? Nem tudo funciona. Mas naquele instante a janela bateu. CLACK. Uma rajada de vento entrou no quarto. Forte. Gelada. As folhas do diário se agitaram violentamente. O gato arrepiou o pelo. Amara ficou olhando, chocada. — Ok… isso definitivamente funciona. Ela começou a andar de um lado para o outro no quarto. Seu cérebro girava com possibilidades. Se aquilo era real… ela poderia escrever qualquer coisa. Dinheiro. Sucesso. Aventuras. Ela poderia literalmente controlar a realidade. Mas então algo estranho aconteceu. Quando ela olhou novamente para o diário… uma nova frase estava surgindo. Mais lenta que antes. Como se fosse difícil escrever. "Mas cada história precisa de um equilíbrio." Amara aproximou-se. A frase continuou. "Se algo nasce… algo também desperta." Seu coração apertou. — O que isso significa? A tinta parou por alguns segundos. Então as últimas palavras apareceram. Mais escuras. Mais pesadas. "E algumas histórias não criam apenas coisas boas." Amara ficou completamente imóvel. O quarto parecia mais silencioso agora. Até o vento havia parado. Ela olhou para o gato. — Você acha que isso pode ser perigoso? O gato não respondeu. Mas seus olhos estavam fixos no diário. Amara respirou fundo. — Eu preciso descobrir quem criou você. Ela pegou a mochila. Colocou o diário dentro. — Hoje depois da escola eu vou voltar ao mercado. O gato levantou-se imediatamente. Como se soubesse para onde ela iria. Amara franziu a testa. — Você não pode vir comigo. O gato apenas a encarou. Ela suspirou. — Ok… veremos. Amara saiu do quarto para se arrumar para a escola. Mas antes de fechar a porta ela olhou novamente para a mesa vazia. Algo dentro dela dizia que aquela decisão mudaria tudo. Porque naquele momento, em algum lugar dentro das páginas do diário… uma nova frase começou a aparecer lentamente. Sem que Amara visse. A tinta escura formava palavras silenciosas. "A garota decidiu voltar ao mercado." A frase continuou. "Mas ela não sabe…" A tinta tremeu levemente. Como se algo estivesse interferindo. Então as últimas palavras surgiram. Mais irregulares. Mais profundas. "…que alguém também está esperando por ela." E pela primeira vez… uma pequena mancha de tinta se espalhou pela página. Formando algo parecido com uma sombra.
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