O céu estava cinza naquela tarde, como se as nuvens estivessem pesadas demais para continuar flutuando e o vento soprava devagar pelas ruas estreitas da cidade, levantando poeira e fazendo as placas antigas das lojas rangerem.
Amara caminhava devagar pela calçada irregular, segurando a mochila contra o peito. Ela havia saído da escola há quase uma hora, mas não tinha pressa de chegar em casa.
Na verdade, ela raramente tinha.
Sua mãe trabalhava até tarde e a casa costumava ficar silenciosa demais. Por isso, muitas vezes Amara preferia dar voltas pela cidade antes de voltar para casa.
Mas naquele dia algo chamou sua atenção, o mercado de rua.
Ele sempre estava ali, numa pequena praça cercada por árvores antigas, mas naquele dia parecia um pouco diferente.
Talvez fosse o vento.
Talvez fosse o silêncio estranho que pairava entre as barracas.
Ou talvez fosse apenas o destino.
As barracas estavam alinhadas como pequenos mundos improvisados. Algumas vendiam frutas, outras roupas antigas, discos, brinquedos quebrados e livros com capas gastas.
Amara adorava livros antigos.
Eles sempre pareciam esconder segredos.
Ela caminhou entre as barracas observando os objetos.
Um rádio antigo.
Relógios que já não funcionavam.
Um par de óculos sem lente.
Fotografias de pessoas que ninguém mais lembrava.
Era como um lugar onde as coisas esquecidas iam parar.
Quando estava quase saindo do mercado, algo chamou sua atenção.
Uma barraca pequena, quase escondida entre duas maiores.
E nela… livros.
Muitos livros.
Alguns estavam empilhados, outros espalhados sobre uma mesa de madeira escura.
Atrás da mesa estava uma senhora idosa, sentada calmamente numa cadeira.
Seu rosto era marcado por rugas profundas, e seus olhos pareciam observar tudo com uma calma estranha.
Amara se aproximou.
— Boa tarde — disse ela.
A senhora ergueu os olhos lentamente.
— Boa tarde, menina.
Sua voz era suave, mas havia algo misterioso nela.
Amara começou a olhar os livros.
Alguns eram romances antigos.
Outros pareciam diários.
Havia até um livro de capa azul com páginas quase soltas.
Ela pegou um deles, folheou rapidamente e colocou de volta.
Então algo chamou sua atenção.
No canto da mesa, parcialmente escondido sob outros livros, havia um diário diferente.
A capa era de couro escuro, quase preto.
Parecia muito antigo.
Amara estendeu a mão e o pegou.
O couro estava frio, mesmo com o calor da tarde.
Estranho.
Ela passou os dedos pela capa.
Não havia título.
Nenhuma palavra.
Apenas um pequeno símbolo gravado no centro — um círculo com linhas estranhas ao redor.
— Esse diário… — disse Amara — é antigo.
A senhora observou o livro por alguns segundos.
— Sim.
— Posso ver?
A mulher assentiu lentamente.
Amara abriu o diário.
As páginas estavam vazias.
Totalmente vazias.
Mas algo parecia diferente.
O papel era grosso, amarelado pelo tempo, e tinha um leve cheiro de poeira e tinta antiga.
Ela virou mais algumas páginas.
Ainda em branco.
— Ninguém escreveu nele? — perguntou Amara.
A senhora sorriu.
Um sorriso pequeno e misterioso.
— Ainda não.
Amara franziu a testa.
— Quanto custa?
— Para você? — disse a senhora — quase nada.
Aquilo era estranho.
— Quanto?
— Dez meticais.
Amara piscou.
Aquilo era ridiculamente barato para um livro tão antigo.
— Tem certeza?
A senhora inclinou a cabeça levemente.
— Tenho.
Amara abriu a mochila, pegou algumas moedas e colocou sobre a mesa.
A senhora empurrou o diário em direção a ela.
— Cuide bem dele.
Amara colocou o livro dentro da mochila.
— Obrigada.
Ela começou a se afastar, mas antes de sair do mercado ouviu a senhora falar novamente.
— Menina.
Amara virou-se.
— Sim?
A senhora a observava com aquele olhar profundo.
— Cuidado com o que você escreve.
Amara riu, achando graça daquilo.
— É só um diário.
A senhora não riu.
Amara deu de ombros e continuou andando.
O vento parecia mais frio agora.
Enquanto caminhava para casa, ela pensava no que escreveria.
Talvez começasse um novo conto.
Ela adorava inventar histórias.
E aquele diário parecia perfeito para isso.
Quando chegou em casa, o sol já estava quase desaparecendo atrás das árvores.
A casa estava silenciosa, como sempre.
Ela largou a mochila no sofá e foi direto para o quarto.
Seu quarto era simples.
Uma cama.
Uma escrivaninha.
Alguns livros empilhados.
E uma janela grande que dava para a rua.
Amara tirou o diário da mochila.
Colocou-o sobre a mesa.
Ele parecia ainda mais antigo agora.
Ela abriu a primeira página.
Totalmente em branco.
Amara pegou uma caneta.
Ela ficou olhando a página por alguns segundos.
Então começou a escrever.
"Era uma noite silenciosa quando um gato preto apareceu na janela de uma garota."
Ela parou.
Sorriu.
Era uma história simples.
Nada especial.
Mas um bom começo.
Ela continuou.
"O gato tinha olhos brilhantes e parecia observar tudo ao redor, como se soubesse um segredo."
Amara fechou o diário.
— Continuo amanhã — murmurou já cansada.
Ela colocou o livro sobre a mesa e se jogou na cama.
Alguns minutos depois, adormeceu.
A noite caiu sobre a cidade.
O vento começou a soprar mais forte.
As árvores se moveram lentamente do lado de fora da casa.
E então…
toc.
Um pequeno som na janela.
Toc.
Toc.
Algo arranhava o vidro.
Amara abriu os olhos lentamente.
Ela sentou na cama.
O som continuava.
Arranhando.
Devagar.
Ela olhou para a janela.
E seu coração quase parou.
Um gato preto estava sentado no parapeito.
Seus olhos brilhavam na escuridão.
Observando-a.
Exatamente como na história que ela havia escrito.
O gato inclinou a cabeça lentamente.
Como se estivesse reconhecendo-a.
Amara ficou completamente imóvel.
Um arrepio percorreu sua espinha.
Porque naquele momento uma pergunta assustadora surgiu em sua mente.
E se…
o diário não fosse apenas um diário?
Lentamente, o gato levantou uma pata.
E arranhou o vidro novamente.
Toc.
Toc.
Toc.
E dentro do quarto, sobre a mesa…
o diário estava aberto.
Numa página que Amara não lembrava de ter escrito.
E novas palavras começavam a aparecer sozinhas no papel.
“A história acabou de começar.”