📘 O Campeão de Seul
Capítulo 12 – Um Dia Difícil
Na manhã seguinte, o despertador tocou pontualmente às seis horas em ponto. Mas Seo Jun‑woo já estava de pé, sentado na beira da cama, a olhar para o vazio. Na verdade, quase não fechara os olhos durante toda a noite. Passara as horas em claro, a reviver na memória cada palavra, cada tom de voz e, sobretudo, aquele olhar de Ha‑yun quando lhe dissera, com dor nos olhos:
“Tu só estás a piorar tudo para mim.”
Ele sabia que ela estava assustada, encurralada, sem saber para onde virar. Mas também sentia, bem no fundo do peito, que havia algo muito mais grave e errado por trás de toda aquela situação — algo que ela não ousava contar‑lhe por medo.
Suspirou profundamente, limpou o rosto com as mãos, levantou‑se e vestiu o equipamento de treino. Precisava de fazer alguma coisa, de libertar aquela energia pesada que o apertava o coração.
Uma hora depois, Jun‑woo atravessou as portas grandes do ginásio da MFC. Normalmente, assim que entrava, o ambiente mudava de imediato: os colegas saudavam‑no com sorrisos, muitos vinham pedir‑lhe conselhos ou dicas, outros tentavam provocá‑lo de forma amigável para o testar. Hoje não. Hoje bastou aparecer para que todos sentissem a tensão que trazia consigo — o ar pareceu ficar mais pesado, e ninguém se atreveu a brincar ou a falar alto.
— Bom dia, campeão — cumprimentou um lutador mais novo, baixinho, afastando‑se logo a seguir.
Jun‑woo apenas acenou com a cabeça, sem sorrir, sem dizer uma palavra.
— Uau… — murmurou Min‑jae, aproximando‑se devagar, de braços cruzados. — O grande urso acordou com o pé esquerdo, e muito zangado.
Nenhuma resposta. Jun‑woo já começara a correr na pista, a uma velocidade muito superior ao habitual.
— Então é definitivamente isso — continuou o amigo, seguindo‑o com o olhar. — Se não fala, se treina como se quisesse partir tudo… é porque o coração não está bem.
Jun‑woo não parou. Passou à corda, saltando com força, cada movimento mais rápido e forte. Depois alongamentos, cada músculo esticado ao máximo, como se quisesse esgotar o corpo para acalmar a mente. Tudo muito, muito mais intenso do que alguma vez se vira ali.
Min‑jae aproximou‑se de novo, já um pouco preocupado.
— Sabes muito bem que destruir o teu próprio corpo não vai resolver os problemas que tens na cabeça, certo? — perguntou com seriedade.
— Não estou a destruir nada — respondeu ele curto, sem parar.
— Estás sim. Treinas como um homem possuído, como se quisesses bater em alguma coisa que não consegues ver.
Jun‑woo ignorou‑o por completo, vestiu as luvas e entrou diretamente no octógono. Começou o treino de confronto.
Primeiro adversário: um lutador forte e experiente. Trinta segundos apenas — e já estava no chão, nocauteado sem sequer perceber como.
Segundo adversário: mais rápido e ágil. Um minuto de luta — e também caiu, derrotado sem grande esforço.
Terceiro adversário: esteve de pé ainda menos tempo; nem sequer conseguiu tocar uma vez em Jun‑woo, que se movia com uma precisão e dureza assustadoras.
O treinador Kang bateu forte com a palma da mão na borda do ringue, fazendo sinal para parar.
— Já chega por hoje, Jun‑woo.
O campeão tirou as luvas devagar, a respiração pesada mas controlada.
— Ainda não terminei. Tenho energia de sobra.
— Terminaste sim. Desce daí já.
— Estou perfeitamente bem, posso continuar.
— Não estás bem de maneira nenhuma — afirmou o treinador com firmeza, subindo até junto dele.
Todo o ginásio ficou em silêncio absoluto, ninguém mexeu uma folha. O treinador aproximou‑se mais, baixou a voz só para ele ouvir:
— O problema não está nos teus punhos, nem na tua força, nem na tua técnica. Tudo isso está perfeito.
Jun‑woo manteve o olhar baixo, calado.
— Está aqui — completou o treinador, tocando levemente na própria testa e depois no peito do jovem. — A tua cabeça e o teu coração não estão focados no que deviam estar.
Silêncio pesado. Min‑jae deu um passo em frente, decidido a falar o que todos já pensavam.
— É por causa dela, não é? Por causa da Ha‑yun.
Jun‑woo ergueu os olhos de repente e lançou‑lhe um olhar tão duro e perigoso que parecia querer cortar‑lhe a palavra à força.
— Cala‑te agora mesmo.
— E porquê? Toda a gente aqui já percebeu o que se passa — insistiu o amigo, sem recuar.
Alguns dos outros atletas, ouvindo a conversa, começaram a sorrir e a comentar em voz alta, entre brincadeiras:
— Olha só… o nosso campeão finalmente apaixonou‑se!
— Pois é! Pensávamos que ele ia casar‑se só com o ringue e com as luvas!
— Até que enfim que alguém conseguiu tocar o coração duro do Seo Jun‑woo!
Ele revirou os olhos, impaciente e ligeiramente corado de vergonha.
— Vocês não têm absolutamente nada para fazer a não ser falar da vida alheia? — perguntou, virando‑lhes as costas.
Mas o treinador Kang voltou a intervir, com a expressão séria de novo.
— Eles brincam, mas têm razão numa coisa muito importante.
Jun‑woo olhou para ele, esperando.
— Estás completamente distraído. E um lutador distraído perde lutas, e pode até magoar‑se a sério.
Antes que pudesse responder ou discutir, a porta principal abriu‑se de par em par, e o diretor da MFC entrou com passos firmes e rosto muito fechado.
— Jun‑woo… vem ao meu gabinete. Agora mesmo. E tragam também o treinador Kang e o Min‑jae.
Poucos minutos depois, estavam todos sentados na sala ampla e arrumada do diretor. O ar ali era ainda mais pesado e sério. O homem responsável pela organização da liga olhou para eles um a um, antes de começar a falar devagar.
— Recebemos informações e imagens de confiança sobre Daichi Nakamura.
Ao ouvir aquele nome, Jun‑woo endireitou‑se imediatamente, todo o seu corpo ficando em alerta.
— O que descobriram? — perguntou, com voz calma mas tensa.
O diretor estendeu várias fotografias sobre a mesa de madeira, todas tiradas nas últimas vinte e quatro horas.
— A segurança e a vigilância à volta da residência da irmã dele aumentaram de forma assustadora. Muito mais homens, carros posicionados em todos os cantos, câmaras em todo o lado… ela está vigiada de dia e de noite, sem descanso.
Jun‑woo olhou atentamente cada imagem: seguranças altos e fortes, portões fechados com correntes, pessoas a observar tudo o que se passava nas ruas ao redor. Um cerco apertado e rigoroso.
— E por que razão me estão a mostrar tudo isto a mim? — perguntou ele, levantando o olhar.
O diretor suspirou, apoiando as mãos na mesa.
— Porque todos nós achamos que te envolveste emocionalmente demais nesta história, Jun‑woo. E isso muda tudo.
Ninguém falou por uns instantes.
— Daichi Nakamura é um homem muito poderoso, muito orgulhoso e extremamente protetor — continuou ele. — Ele pode interpretar qualquer aproximação tua, qualquer olhar, qualquer mensagem… como uma ameaça direta à irmã, ou uma tentativa de a tirar de junto dele.
Jun‑woo apertou os dentes com força, os maxilares a saltarem.
— Eu não sou nenhuma ameaça para ninguém, e muito menos para ela — garantiu com firmeza.
— Talvez não o sejas para Ha‑yun — concordou o diretor, baixinho. — Mas para o irmão dela… tu és sim. E muito.
Min‑jae inclinou‑se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Isto está a transformar‑se numa confusão muito perigosa, e todos nós podemos acabar envolvidos no meio de uma guerra que não pedimos.
O diretor voltou a falar, acrescentando uma notícia que fez o coração de Jun‑woo bater mais forte:
— E há mais. Daichi chegou a Seul ontem à noite. Já está aqui na cidade, a instalar‑se e a preparar‑se oficialmente para a luta contigo.
Jun‑woo ergueu a cabeça de repente, os olhos arregalados de surpresa e intensidade.
— Ele já está cá? E onde está hospedado, onde treina?
— Num centro de treino privado e muito bem guardado, nos arredores da cidade. Ninguém entra sem autorização dele.
O campeão ficou calado uns segundos, a mente a trabalhar depressa. Depois olhou diretamente para o diretor.
— Posso ir ter com ele? Falar cara a cara, esclarecer tudo o que precisa de ser dito.
Mas o treinador Kang respondeu antes mesmo que o outro pudesse abrir a boca, com uma negação forte e clara:
— Não. De maneira nenhuma.
— Porquê? Precisamos de resolver isto antes que fique pior.
— Porque a vossa luta oficial é daqui a algumas semanas, e não quero que se matem ou criem problemas ainda maiores antes de entrarem no ringue — explicou o treinador, sério como nunca. — Nada de encontros, nada de conversas fora do combate.
Jun‑woo desviou o olhar para a janela, frustrado. Mas no fundo do seu coração, sabia que o treinador tinha razão numa coisa: se se encontrassem agora, frente a frente, não fazia ideia de como aquela conversa acabaria — talvez em p************s, talvez em violência aberta. E ele não queria colocar Ha‑yun em risco ainda maior.
Entretanto, do outro lado da cidade, dentro da enorme e fria mansão da família Nakamura…
Ha‑yun estava sentada numa sala ampla e vazia, com um livro aberto nos joelhos. Ou pelo menos tentava ler. As letras pareciam‑lhe todas embaralhadas, a mente muito longe dali. De vez em quando, levantava os olhos e olhava com discrição pela janela alta: dois homens de pé junto à entrada principal, mais três junto ao portão de ferro, outros dois a vigiar cada corredor e cada porta interior. Todos atentos, imóveis, calados.
Suspirou profundamente, fechando devagar o livro. Era quase a mesma coisa que estar presa numa torre alta e sem saída.
A porta abriu‑se sem bater. Daichi entrou devagar, vestido com trajes formais e escuros, a expressão fechada e inabalável como sempre.
— Dormiste bem esta noite, irmã? — perguntou, parado a meio da sala.
— Não — respondeu ela direta, sem rodeios.
Ele acenou lentamente com a cabeça, como se já esperasse exatamente essa resposta.
— Hoje não vais sair desta casa por motivo nenhum. Fica aqui, onde estás segura.
Ha‑yun pôs‑se de pé de um salto, olhando‑o nos olhos pela primeira vez com coragem.
— Irmão… por favor…
— Não há discussão, Ha‑yun. A decisão está tomada.
— Eu prometi que não faria nada de perigoso, que ficaria por aqui perto, dentro da propriedade… — argumentou ela, suplicante.
— E vais ficar mesmo. Mas sem sair para lado nenhum, sem encontrar ninguém de fora.
Ela aproximou‑se um pouco mais, a voz a tremer de mágoa e determinação.
— Não podes continuar a fazer isto comigo, como se eu fosse uma criança pequena ou uma coisa que se guarda numa caixa.
Daichi olhou‑a calmo, mas havia uma rigidez dolorosa no seu olhar.
— Posso sim. E vou continuar a fazê‑lo enquanto for necessário.
— E não devias — contrariou ela firme.
Naquele instante, algo mudou no rosto do irmão. Pela primeira vez, deixou aparecer claramente uma sombra de tristeza antiga e profunda nos seus olhos escuros.
— Ha‑yun… lembra‑te… eu quase te perdi para sempre, há uns anos atrás. Nunca mais me peças para correr um risco parecido. Não aguentaria voltar a passar por isso.
Ela ficou calada, baixando lentamente o olhar. No fundo da alma, compreendia‑o: desde aquele dia terrível em que tudo mudara para eles dois, o coração de Daichi nunca mais conheceu a paz, vivia sempre cheio de medo e culpa. Mas também sabia, com toda a certeza, que não podia passar a vida inteira fechada e vigiada, sem poder viver, escolher ou amar por si mesma.
E naquele momento, pela primeira vez em muitos e muitos anos, Ha‑yun começou a pensar seriamente, com coragem nova: que precisava de lutar pela sua própria liberdade, de dizer o que sentia e queria — mesmo que isso significasse ter de enfrentar o próprio irmão, a única pessoa que lhe restava no mundo.
Continua...