A Rocinha dormia as luzes dos becos piscavam preguiçosas, e o som distante de um baile ecoava em algum ponto do morro. Mas Miguel caminhava pelas vielas como um fantasma. O capuz cobria parte do rosto, o olhar firme, e o coração pesado demais pra quem um dia já carregou o morro nas costas. Ele conhecia cada passo daquele chão. Cada escada, cada curva, cada telhado — e sabia que estava se despedindo de tudo aquilo daquele lugar. Dela. Parou diante da casa dos padrinhos. As luzes estavam apagadas. Do portão, ele conseguiu ver o reflexo da janela do quarto de Merliah. A cortina balançava com o vento. Por um segundo, ele fechou os olhos, e a lembrança veio: a risada dela, os olhos brilhando, o cheiro doce do cabelo molhado. — Tô indo, cacheada… — murmurou, quase sem voz. — Agora de ver

